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Mostrando postagens de Maio, 2009

MANÉ, SAUDOSO MANÉ

Lembro como se fosse hoje que passava um pouco de cinco e quinze da matina quando ele me ligou dizendo que tinha despertado com o lampejo, transformado em ideia tentadora, que logo virou desejo irrefreável de dar cabo de uma vez da sua vidinha sem atrativo. Queria ir pra junto do Flávio Cavalcanti, do Santos Dumont, do Jack Estripador, do Mussum e de todos os outros grandes que já tinham ido. Não via mais sentido em continuar ocupando seu invólucro castigado e tão sem atrativo, ainda mais vendo tanta gente melhor que ele abandonando precocemente o posto nesse ingrato campo de provas.

Dizia o Mané:

“Trabalho numa máquina de moer carne, minha mulher há muito deixou de exercer qualquer influência na minha libido e eu acho um saco fazer a barba todo dia. Isso sem falar das pombas que só aliviam sua diarreia no capô do meu carro, do jeito azedo do vizinho e da inesperada cobrança complementar do IPTU, referente ao puxadinho que construí sem autorização da prefeitura e que acabou virando depó…

DROPS PATERNOS

Me corrija se estiver errado, mas tenho sentido você um tanto desiludido, mais cabisbaixo e indolente que o costume. Filho, não se deixe abater, você não tem motivos justificáveis para entregar a rapadura. Lembre-se daquele antiquíssimo ditado hindu, que o passar do tempo só reforça sua sabedoria e validade: “O espelho da vida é a sombra do infinito”. Nos momentos de desânimo e depressão, devemos nos agarrar ao bálsamo reconfortante destas palavras, que o seu padrinho, o palhaço Estrepolia, repete religiosamente antes de subir ao palco. Sabe, me sinto muito mais à vontade em falar assim com você, por bilhetes. Como alguém que não se furta em dar o ar da graça, mas tem horror de parecer inconveniente ou arriscar um cafuné em hora imprópria. Você compreende, é meu estilo. Seu avô, o príncipe dos malabares, também era assim.

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Ainda tem um pouco de mingau de maizena na geladeira, dá uma esquentada no microondas quando chegar. Domadores de leões como você não costumam prescindir dest…

VESTIBULANDO

Que alívio, crenças e rezas não foram vãs. O além parece existir mesmo, nada indica que isso seja uma alucinação da anestesia.
Do outro lado estou só e nu. Nem asas nem túnicas translúcidas e afins, o que atribuo ao fato de ser noviço na função, prestando um vestibular que me dará uma vaga no céu, no inferno ou noutro paradeiro não catalogado pela Bíblia. Faltou, por enquanto, o que sempre disseram que havia: o túnel luminoso que puxa irreversivelmente o recém-presunto, os parentes que já se foram aguardando com bolo, guaraná e faixa de boas-vindas, a vida do lado da carne passando como um filme rápido enquanto desligam as máquinas e decretam morte cerebral.

Ao invés disso, eis-me aqui a poucos metros de quem fui, quase à altura do teto, feito astronauta num treino sem gravidade, sem noção precisa do que sucedeu e muito menos do que está por vir. Bóio no corpo, se é que assim ainda posso chamá-lo, e no entendimento. Vai acontecer o que está fadado e que não me cabe saber, embora sinta o…

DELIBERAÇÃO

Tendo em vista que:

De acordo com os pressupostos da numerologia, John Lennon e Paul McCartney jamais teriam se cruzado nas ruas de Liverpool caso se chamassem John McCartney e Paul Lennon;

A leitura incessante de listas telefônicas, na forma como é comumente praticada pelos tocadores de zabumba, é considerada procedimento enfadonho pela maioria absoluta da humanidade;

A grosso modo, não se deve julgar quem quer que seja pela aparência, salvo em se tratando de concurso de beleza;

É perfeitamente plausível haver, entre o si e o dó, um intervalo musical não captado pela audição humana, mas sim pela dos gafanhotos;

Mestre Duña há de voltar para a redenção do empirismo em sua plenitude, consolidando o método da tentativa e erro como sustentáculo da ciência em seus variados ramos;

A falta de quórum para aprovação da lei que estabelece mudanças na concessão do auxílio-paletó acarretará em nova sessão plenária, em data ainda a ser determinada por instrução normativa;

Desde os tempos de Leogivildo, …

Uma piscada mais lenta que o normal, um micro-cochilo em meio à reta que teimava em inacabar e dou por mim com o carro quase ralando o guard-rail. Quanto em segundos durou o descuido é tão incerto quanto o que me fez acordar a tempo.

Estou indo para o abrigo tão antigo e permanente como o firmamento e o sentimento de dever cumprido após a missa. Lá ainda se trocam cartas e há mais que um ou outro de chapéu pelas ladeiras. A preguiça tem função e é exercida ritualmente, pede-se a benção e sente-se a mão de pai e de mãe com força de viga e de lei. É âncora de respeito, o que pai falou não se questiona. Da mesma forma ninguém desdiga o que mãe diz para ser feito, ainda que lhe falte uma beira de razão pelo avançado da idade.

Acelero para o oco do tempo atrasado, onde o asfalto dessa pista ainda não passou perto, meca dos centros de mesa de crochê, cucos e bolinhos de chuva, onde as mágoas da véspera saem na água do banho sem maiores dramas. Não levo nada além desta carcaça em descuido a pe…