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Uma piscada mais lenta que o normal, um micro-cochilo em meio à reta que teimava em inacabar e dou por mim com o carro quase ralando o guard-rail. Quanto em segundos durou o descuido é tão incerto quanto o que me fez acordar a tempo.

Estou indo para o abrigo tão antigo e permanente como o firmamento e o sentimento de dever cumprido após a missa. Lá ainda se trocam cartas e há mais que um ou outro de chapéu pelas ladeiras. A preguiça tem função e é exercida ritualmente, pede-se a benção e sente-se a mão de pai e de mãe com força de viga e de lei. É âncora de respeito, o que pai falou não se questiona. Da mesma forma ninguém desdiga o que mãe diz para ser feito, ainda que lhe falte uma beira de razão pelo avançado da idade.

Acelero para o oco do tempo atrasado, onde o asfalto dessa pista ainda não passou perto, meca dos centros de mesa de crochê, cucos e bolinhos de chuva, onde as mágoas da véspera saem na água do banho sem maiores dramas. Não levo nada além desta carcaça em descuido a pedir arrego, reza de proteção e cuidados redobrados. Lá ainda lembram de mim como o caçula de meu pai, no corpo novo que fui, e não serei eu a roubar-lhes a ilusão. Se não me reconhecerem, que vejam em mim um sujeito outro e distinto da imagem, agora sépia, de alguém com o cabelo em desalinho e o olhar tolo de quem não tinha noção do que teria de enfrentar.

Lá é um sempre que cismou de sempre ser, os incomodados que se mudassem, corressem para outras freguesias, despencassem dos penhascos e ganhassem rugas por esse mundo além-montanha, de onde nada de proveito haveriam de trazer. Quando muito esses zumbis, dos quais provavelmente eu sou o chefe, retornam trazendo o desespero dos anos idos longe dali e muito mal aproveitados, pois foram anos em lugares outros espelhando nesses lugares outros o casulo de nascença, a cidade das paredes que descascam mas permanecem paredes em seu vigor vitalício.

Limite de município. Falta pouco para o triunfal retorno dos vencidos e mutilados de guerra, aqueles que voltam sem medalha de bravura no pescoço. De soslaio os olhos passam pelo retrovisor, e por um instante os vejo sem papadas e livres da catarata que embaça a vista e o entendimento.

No lugar que não me aguarda com faixas de boas-vindas, vilarejo das coisas que são como se acostumaram, haverá decerto um povo arraigado em seu sossego a rotular-me forasteiro ou desertor, que ficará indiferente ao choro que não segurarei quando de novo embaixo da velha árvore.

Das últimas vezes, nesse trecho, não haviam lombadas no caminho, a bem dizer quase nem caminho havia, nem tantos carros, nem placas que falam de loções cremosas e hambúrgueres. Os velhos de então se foram e o neo-velho que chega encontrará, passado este sinal vermelho, o enigma das gerações que se sucederam sem que pudesse acompanhar. É o preço a ser pago, assistir ao sumiço das quitandas e alfaiates ao mesmo tempo em que se sente a perda de massa dos músculos e o fim como perspectiva próxima.

Engasga o carro. Veja se isso é hora de acabar a gasolina.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Maravilhoso como sempre.

    "Engasga o carro. Veja se isso é hora de acabar a gasolina."

    Sublime esse final, o choro engasgado na garganta... essa foi a minha imagem.

    Belo, amigo!

    Abraço,

    Ana

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  2. Mary Maia2:06 PM

    Marcelo querido...
    A viagem continuou no meu pensamento. Cheguei ali, em Santa Rita do Passa Quatro(SP).
    Emociona. Saudades, sem dúvidas.
    Você! Como eu sempre digo, VOCÊ! Você escrevendo lindo, limpo, sem nenhum fiapo, sem nenhum esgarçamento do tecido da sua alma. Apenas inteiro, limpo, claro e lindo.
    Eu te gosto! E gosto muito.
    Beijos carinhosos.
    Mary
    (Você está bonzinho? Conta pra mim? Eu bem...caminhando e cantando e seguindo a canção...às vezes também choro, mas faz parte)

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  3. Adriano3:58 AM

    Muito bom Velhinho. Belas palavras heim? Se sabe que esta linha de crônica eu gosto muito é não é novidade né? Parabéns. Você sabe misturar muito bem as letrinhas do teclado!!!!!

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  4. Myrthes Spina2:10 PM

    Parabéns!!!! São coisas realmente lindas!!! bjs.

    Myrthes.

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  5. Regina2:11 PM

    Adorei sua crônica. Leio todas. Sempre gosto muito de seus escritos. Um abraço ! Regina Dolfi

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  6. Willian - RAC2:12 PM

    Squassa. Que maravilha

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  7. Maria Inês Prado3:30 PM

    Gostei muito. M.Inês Prado

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  8. Gasolínico sem engasgos, meu caro, texto irreparável, só pra variar... abs

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  9. Marco Antonio Rossi5:02 AM

    SAUDADE DA FAMÍLIA E RESUMO DE UMA VIDA......
    MUITO BOM!
    aBRAÇO
    rOSSI

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  10. Ana Maria5:02 AM

    que verdade mais verdadeira e doída não!beijo!
    Ana Maria

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  11. Regina5:39 PM

    "Lá é um sempre que cismou de sempre ser". LInda frase, obrigada pelo texto nesta manhã outonal de segunda-feira .
    Bjs

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  12. Evelyne5:40 PM

    Uma viagem simbólica , cheia de significados e muito bonita. Bem escrita como sempre,, Marcelo. Beijos e parabéns, meu amigo.

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  13. Sandra5:40 PM

    Marcelo, você possui uma sensibilidade rara, que passeia do dó ao si. O ré, decerto em tom menor para ser mais triste mostra um tempo muito rico em descompasso com a velocidade de hoje, e seres descompassados pela própria sociedade que criaram.
    beijos
    Sandra

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  14. Belvedere Bruno10:13 AM

    Excelente!!!!!!!!!!

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  15. Felipe Dumont4:30 PM

    Terei que ler de novo e encaminhar para meus pais.

    Ah, bonita camisa hein.
    Abraço.

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