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VESTIBULANDO


Que alívio, crenças e rezas não foram vãs. O além parece existir mesmo, nada indica que isso seja uma alucinação da anestesia.
Do outro lado estou só e nu. Nem asas nem túnicas translúcidas e afins, o que atribuo ao fato de ser noviço na função, prestando um vestibular que me dará uma vaga no céu, no inferno ou noutro paradeiro não catalogado pela Bíblia. Faltou, por enquanto, o que sempre disseram que havia: o túnel luminoso que puxa irreversivelmente o recém-presunto, os parentes que já se foram aguardando com bolo, guaraná e faixa de boas-vindas, a vida do lado da carne passando como um filme rápido enquanto desligam as máquinas e decretam morte cerebral.

Ao invés disso, eis-me aqui a poucos metros de quem fui, quase à altura do teto, feito astronauta num treino sem gravidade, sem noção precisa do que sucedeu e muito menos do que está por vir. Bóio no corpo, se é que assim ainda posso chamá-lo, e no entendimento. Vai acontecer o que está fadado e que não me cabe saber, embora sinta o poder insuspeito do arbítrio mais livre, que me permitiria, se quisesse, fechar os olhos e abri-los um segundo depois na ponte do Brooklin ou em Jacarta. Tão inédita quanto mágica, essa nova faculdade não me seduz como seria de se supor. Prefiro estar aqui em cima e assistir ao que farão de mim e do espólio quase nulo a ser em breve repartido.

A estranha rédea sobre a consciência reforça a desconfiança de que esteja ligado debilmente à minha carcaça, e viva agora um impreciso devaneio de que me livrarei em poucas horas, reassumindo o sujeito com CPF, RG e obrigações a cumprir. Ninguém me assegura que não seja isso, e essa ausência de governo e coordenadas me perturba. Mexem agora num tubo ligado ao meu braço, mas não vejo nenhuma tentativa de ressuscitação. A enfermeira anota alguma coisa na prancheta que nem tento decifrar, os óculos que usava parecem continuar fazendo falta.

Previsíveis providências a serem tomadas nos próximos minutos: avisar a família, preencher os prontuários de rotina, acionar o pessoal da remoção, retirar toda a tripa – inclusa aí a meia portuguesa/meia aliche devorada antes do acidente, completar o vazio das vísceras com algodão embebido em formol, costurar, vestir e meter o infortunado que vos fala (ou vos falava) num modelito clássico de mogno maciço. Cubro o rosto daqui de cima para não ver o rosto de baixo escondido até a testa com o lençol azul. “Near death experience”, uma vez entrei num site que falava sobre isso. Se retornar posso dar meu testemunho, já engrossando as estatísticas dos que quase foram. Mas pelo jeito fui mesmo, embora sem garantias de ter ido ao certo, estando assim até segunda ordem nesse lodo movediço.

A televisão do quarto fala sobre mim, mostrando uma foto antiga em que ainda tinha barba. Ou foi muito feia a causa mortis ou era famoso e não me recordo. A enfermeira cruza minhas mãos sobre o peito e aumenta o volume do aparelho para ouvir a reportagem, ao mesmo tempo em que a imprensa vai invadindo o quarto e disparando flashes.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Ana Maria4:41 PM

    mórbido e engraçado!
    gostoso de ler!

    Um beijo e até!

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  2. Cezar7:46 AM

    Muito bom. Suavemente sarcástico. Adorei.

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  3. João7:48 AM

    Li a sua crônica. Muito bem elaborada, como sempre, mas
    achei meio macábra. Sua mãe está passando bem e aprovei-
    tando bem a estada em nossa terrinha.Feliz fim de semana

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  4. Evelyne Furtado11:11 AM

    Que prova, Marcelo! Aprovado com brilho nas palavras e na ousadia de brincar com esse assunto que a maioria ( me incluoaí) evita. Parabéns, meu amigo! Bjs e boa semana!

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  5. Rosa Pena11:12 AM

    Gosto da forma que descreveu o mais importante vestibular da vida. Passar para a morte sem pieguices é difícil e você conseguiu com louvor. Acho que dá pra fazer futuramente mestrado do além. Vou adorar, como adorei essa.
    beijos meu amigo querido e obrigada pela visita.
    rosa
    ps: vem ao RJ na bienal?

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  6. Valéria Eik11:42 AM

    Muito bom o texto, Marcelo!
    No que vc acredita?

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  7. Rita & Rogério4:25 PM

    Adorei "Vestibulando"!Muito legal!!
    Abraços

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  8. Oi Marcelo!!
    De um jeito, ou, de outro, essa é a única coisa que todos passaremos!
    Bom o texto, como de costume...
    Gde abraço!!

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  9. Sandra Nogueira9:05 AM

    querido amigo Marcelo, tentei responder e apareceu um aviso de falha de windows. Bem, na dúvida ercrevo de novo. Só hoje pude ler com tranquilidade seu magnífico texto. Ainda bem que foi ficção e você está por aqui escrevendo. Mas, você é sensitivo? A descrição da cena é muito realista, muito parecida com o que dizem as pessoas que apagaram por alguns momentos e depois voltaram à vida. Quanto a ser famoso, você sem dúvida é, ao menos para os leitores que te adoram, dentre os quais me incluo.
    abração
    Sandra

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  10. Marco Antonio Rossi9:17 AM

    faltou a cena do crematório e distribuição de cinzas ao mar.........
    abraço
    Rossi

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  11. Toda a morbidez do inicio do penúltimo parágrafo cominada com a citação da derradeira refeição napolitana foi de uma intensidade Bixiga-Jd. Ângela. Azeite e sangue!!!

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  12. Mary Maia1:21 AM

    Dio Santo!!! rsss Quando for a minha vez (bem, primeiro quero ser reprovada várias vezes...rs) só quero ver anjos quando olhar pra cima e, quando olhar pra baixo, moços bonitos, inteligentes, sorridentes, olhos espertos, que sabem escrever lindamente, como, por exemplo, digamos, assim, como eu diria?: Você!
    Beijão, moço bonito!
    Mary

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