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Mostrando postagens de Junho, 2009

PEDRÃO SOLTA O VERBO

Pobres infelizes, até parece que vão conseguir alguma coisa a mais comigo por conta desse foguetório todo. Não posso falar pelo Antonio e pelo João, menos turrões e mais misericordiosos, mas da parte do Pedrão aqui podem tirar o cavalinho da chuva e esquecer qualquer ajuda extra. Além do mais, ninguém lembra de verdade da gente, servimos mais pra dar nome à efeméride do que pra qualquer outra coisa. Ultimamente, nem isso: é festa junina pra cá, festa julina pra lá e o santo homenageado fica de sonso na história, batizando um rega-bofe que compromete seriamente a sua honrada biografia.

Tem coisas que só dando risada. O que eles chamam de pau-de-sebo, este eucalipto toscamente besuntado e com a minha figura lá em cima, para mim só pode ser efeito desse friozinho de inverno sobre o cérebro, façam-me o favor. Que cheguem a mim pela caridade, pela oração e não por essa escalada anti-higiênica, que aos vencedores rende um prato de pé-de-moleque amanhecido ou prenda ainda mais reles, jamais o…

CINE LUXOR

Vinte e quatro quadros por segundo. A ilusão do movimento no seu olhar desiludido, em jogos de luz e sombra. Veio porque é domingo, depois da igreja e do almoço só pode haver o cinema. As manhãs preguiçosas do domingo, as tardes estéreis do domingo, as noites insuportáveis do domingo trazendo o nojo inevitável da segunda.

Ceda. Deixe estar, não há o que possa ser feito. Nada como uma inocente matinê quando o oco da existência se apresenta e toma assento. É, está sentado ao seu lado com aquela cara impassível e pagou meia, o espertinho.

Lá fora o mundo é lesma, um esparramar demoroso. Só o que prossegue é a sessão nesses rincões esquecidos. Uns poucos bem-te-vis pousados nos beirais do palácio branco em frente ao jardim. Num dos quartos alguém decerto faz a sesta reparadora. Passe pelo corredor, pare na sala. Os retratos a óleo simetricamente dispostos, os móveis espanados. Os ricos fartos do seu manjar, seus rostos sentindo agora a felpa dos veludos. Estão em paz com seus corpos e sacia…

MAIS NÃO PEÇO

Eu olho para o seu retrato na carteira, em meio a esse Vietnam particular, e sinto o quanto tem valido a pena voltar para casa tendo morto e debaixo do braço o leão do dia, o troféu que lhe entrego em permuta de um sorriso, o costumeiro, não mais do que aquele protocolarmente aberto junto com as venezianas às sete da matina, sua hora predileta.

Não importa que no decorrer do período me falte o eixo pela pressão baixa e o discernimento para o que quer que esteja a um palmo do meu nariz: o que posso lhe assegurar é que sempre prevalecerá a devoção incondicional e espontânea, oferecida de bom grado para que as coisas continuem simplesmente assim, sendo o que até agora foram, pois mais não peço por não ter direito nem merecimento. Eu me contento com a janta escassa e racionada, uma beirinha que me caiba é o bastante, dá de sobra.

Que eu lhe seja provisoriamente útil como um calço de mesa é ideia a que já me acostumei, não tenho em mim qualquer pretensão além de compor a série B do seu time …

A SAUDADE DA CASA EM QUE NUNCA ENTREI

Ali hoje, e já há tempos, é o Banco do Brasil. Aquele que diz que é o Banco do João, do Carlos, da Helena, da Ritinha, do Zé. Ali ontem foi o palacete da Dona Lucina, a casa dos filhos Francisca, Mariquinha, Felipe, Henrique, Antonio e da penca de netos que alguns loucos ainda juram ouvir a algazarra no salão de jogos.

Ali hoje há filas de gente com a testa franzida e olhar distante, ansiando a campainha que chame por sua senha para amortizarem, com o pouco que pinga, o muito que devem. Ali ontem também havia filas, mas filas de gente com festa no rosto e nas vestes, que se formavam desde suas escadarias de mármore até ganharem as entranhas mais escondidas de São João, na procissão do Divino.

Quem tem um pouco mais de história para contar há de lembrar que bem ali, onde estão aquelas máquinas cuspidoras de dinheiro, a velha matriarca da Fazenda Matão acompanhava aflita a cotação do café no rádio capelinha, uma mão no seletor de estações e outra no terço, rogando forças não para manter a…