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CINE LUXOR


Vinte e quatro quadros por segundo. A ilusão do movimento no seu olhar desiludido, em jogos de luz e sombra. Veio porque é domingo, depois da igreja e do almoço só pode haver o cinema. As manhãs preguiçosas do domingo, as tardes estéreis do domingo, as noites insuportáveis do domingo trazendo o nojo inevitável da segunda.


Ceda. Deixe estar, não há o que possa ser feito. Nada como uma inocente matinê quando o oco da existência se apresenta e toma assento. É, está sentado ao seu lado com aquela cara impassível e pagou meia, o espertinho.


Lá fora o mundo é lesma, um esparramar demoroso. Só o que prossegue é a sessão nesses rincões esquecidos. Uns poucos bem-te-vis pousados nos beirais do palácio branco em frente ao jardim. Num dos quartos alguém decerto faz a sesta reparadora. Passe pelo corredor, pare na sala. Os retratos a óleo simetricamente dispostos, os móveis espanados. Os ricos fartos do seu manjar, seus rostos sentindo agora a felpa dos veludos. Estão em paz com seus corpos e saciados em seus haveres.


Pegada à mansão, a escola. Muda e descorada, descansa solenemente da algazarra dos meninos. Em preto e branco e câmera lenta, um cachorro erguendo a pata e urinando no pneu. Todos na Vila Alva cheios como pneus – do dia que não acaba, das horas que não passam, da notícia que não chega. A rotina sem novidades de qualquer ordem, substancial e definitiva como um paralelepípedo. É o momento em que o olho pede lupa, a alma pede ânimo e cada coisa estática mostra a crueza que tem.


Espere um pouco. Volte ao filme. Rebobine, projecionista. Dez minutos de devaneio e lá se foi o enredo da história. Se alguém perguntar qual filme viu, não saberá responder. Abra uma bala. Chore, chorar faz bem. Nem vão reparar, tão pouca gente aí dentro. Estúdios de animação do mundo todo, uni-vos para animá-lo. Depressa, antes que lhe arrastem mil elencos de fantasmas e vilões. Lanterninha, acuda lançando luz sobre seus olhos marejados.


A perna dorme, o corpo cansa no estreito da cadeira. Cruze os braços, tente entender os diálogos sem olhar as legendas. Durma. Faça como a perna: durma. Tanta gente paga ingresso de cinema para dormir. Jogue-se num triplo mortal ao centro da tela. Deixe-se ser o mocinho desse roteiro caótico. Corta. Câmera abre o enquadramento e faz uma lenta panorâmica por toda extensão do que você foi até agora. Basta de fazer o cartaz do filme alheio. Veja a platéia vendo você dentro da fita, brilhe, acene, dê autógrafos, sinta aos seus pés o tapete vermelho da entrada do Oscar. Perpetue-se no celulóide. Coragem, vá. Queime de uma vez os negativos desses dias: bem-vindo à avant-première de si próprio, em doube surround e pleno de efeitos especiais. A comédia de levezas indizíveis, com o sapateado frenético dos musicais da Metro. Até a bilheteira rói as unhas, torcendo pelo seu final feliz. Se não pela sua vontade, ao menos pela bilheteira seja feliz para sempre. The End.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. E, falando em cinema, meu caro, seus escritos fluentes e agradáveis são a antítese daquelas películas incompreensíveis do leste europeu, tão em voga nas mostras "cabeça" que pululam por aí. Suas crônicas divertem, emocionam e não carecem de anti-ácidos ou cliques no Google no pós-degustação. Mais uma lavra para os anais do cinema, ops!, da crônica tapuia...

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  2. Paulo Ludmer7:27 AM

    Marcelo

    gostei muito muito

    Paulo

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  3. Então, ao final, filmastes tuas crônicas? ;)

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  4. Sandra Nogueira8:05 AM

    Belíssimo Marcelo, como diz o Totó de Cinema Paradiso. Adorei! Final feliz para todos e um The End que não exista de fato.
    beijão
    Sandra

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  5. Marco Antonio Rossi8:41 AM

    que saudades do celuloide, até tampinha de relógio el foi....e depois de usado virava jogo de botão com cada craque.....
    agora para quem frequentou as matinais do cine metro em sp, aos domingos e curtiu muito tom e jerry, valeu a lembrança
    principalmente pq era meu saudoso avô quem me levava.....
    Obrigado mais uma vez por me fazer relembrar aquele tempo bom.....
    Rossi

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  6. Ana Maria8:41 AM

    muito bom, marcelo!

    beijão!

    Ana Maria

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  7. Evelyne4:53 PM

    Espetacular! Foi a palavra que me veio a cabeça depois que li seu texto! Parabéns, Marcelo. Bjs e ótima semana para vc, meu amigo!

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  8. Oi Marcelo!!
    Super legal!!
    Abraço!!

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  9. Seu texto me trouxe a recordação dos cinemas do Centro de São Paulo, o Bristol, o Marabá, o Espacial, o Olido e tantos outros que agora se tornaram "igrejas" ou bingos.
    Sei que até estão tentando recuperar alguns, mas o charme e a magia não mais existe neste mundo doido.
    Obrigada pela viagem!

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  10. Acho que essa fita rolando foi melhor que o filme que fui assisti , ontem, no cinema daqui.
    Para preservar minha integridade pulmonar , evitando que o ar desistisse das minhas narinas diante de tanta monotonia, o pouco que meu cérebro agiu, levou-me para fora daquela sala escura cuja tela estava cheia, cheinha de nada que prestava. Deus nos livre, Marcelo. Acho que estamos ficando exigente no último!

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  11. Cine Marrocos, SPaulo, entre a avenida São João e o edifício do Teatro Municipal. Primeira metade da década de sessenta do século passado. Filme: "King Kong". Grande fila para adquirir o ingresso. Sozinho. Comprei. O filme ainda não, mas já estavam rodando o Jornal do Primo Carbonari quando entrei na grande sala. Luz na tela, mas o salão térreo na escuridão. Primeira vez que entrava naquela casa. Andando por um dos corredores tropecei. Percebi, e assim entendi, que havia caído, sentado, sobre um poltrona. Ali fiquei, e assisti ao filme. O que me incomodava era a falta de um encosto adequado na poltrona. Encerrado o filme, acesas as luzes, percebi, caro amigo Marcelo, que estava sentado num dos degraus existentes naquele corredor/passagem na lateral das poltronas, e coberto por um tapete vermelho de cerca de dois centímetros de espessura. O susto foi maior do que ver o King Kong, no alto de uma torre, segurando uma moça em uma das mãos.

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  12. Olha, o domingo foi chato mesmo. Manhã sem eletricidade, broncas na Ampla, e agora vejo você falando em cinema. Deu vontade de ver "O Poderoso Chefão" pela mil não sei quantas vezes.
    Abraço

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  13. Adriano Neves12:46 PM

    Suas crônicas são campeãs de bilheteria, como sempre!!!

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  14. Marco Antonio Rossi12:48 PM

    Bom dia e otima semana!!!
    Velhos tempos onde o cinema era um local de passeio e divertimento(saudade do pipoqueiro da porta e lanterninha).
    Hoje somos obrigado ao confinamento de casa e shopping.
    Grande abraço
    Rossi

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  15. José Hamilton12:49 PM

    Tá valendo, José Hamilton. Obrigado pela atenção e boa vontade!

    Abraços

    Marcelo

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  16. Claudete Amaral Bueno12:50 PM

    Estou curtindo o domingo descrito....só que sem cinema ....e com chuva! Gostoso?????

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  17. Luciana Sleiman12:54 PM

    Pérola semanal do amigo Marcelo Pirajá Sguassábia. Para os cinéfilos de plantão que lembram das matinês de Domingo da infância e que mesmo passado o tempo ainda se desejam protagonistas de suas histórias.

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  18. Neusa Sleiman12:56 PM

    Realmente, fabulosa essa crônica!

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  19. Clotilde Fascioni12:59 PM

    Cinema; sempre agradáveis momentos. Bom domingo, Marcelo Pirajá Sguassábia.

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  20. Paulo Marsiglio1:00 PM

    Belo!

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  21. Marcio Ketner Sguassabia1:01 PM

    Muito bom meu professor de crônicas

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  22. André Albuquerque1:02 PM

    Antes que a nostalgia e a especulação imobiliária levem tudo, uma bela crônica.Parabéns,Marcelo

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  23. Leda Valéria Suppa Basile1:03 PM

    Estupenda... Me transportei Emoticon heart

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  24. Neusa1:04 PM

    Extremamente belo! Conseguiu captar o sentimento indolente das tardes de domingo quando nos fartamos no tédio da mesmice e ao mesmo tempo mergulhamos no maremoto da ansiedade pela chegada de uma nova segunda-feira!Ah, como detesto a música do Fantástico...É fantástico?

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  25. Mara Narciso2:42 PM

    Alguns filmes são lentos em demasia e neles acontecem menos coisas do que numa tarde de domingo. Aqui na plateia, mais coisas do que lá. Uma maneira diferente de ver uma sessão de matinê.

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