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PEDRÃO SOLTA O VERBO


Pobres infelizes, até parece que vão conseguir alguma coisa a mais comigo por conta desse foguetório todo. Não posso falar pelo Antonio e pelo João, menos turrões e mais misericordiosos, mas da parte do Pedrão aqui podem tirar o cavalinho da chuva e esquecer qualquer ajuda extra. Além do mais, ninguém lembra de verdade da gente, servimos mais pra dar nome à efeméride do que pra qualquer outra coisa. Ultimamente, nem isso: é festa junina pra cá, festa julina pra lá e o santo homenageado fica de sonso na história, batizando um rega-bofe que compromete seriamente a sua honrada biografia.

Tem coisas que só dando risada. O que eles chamam de pau-de-sebo, este eucalipto toscamente besuntado e com a minha figura lá em cima, para mim só pode ser efeito desse friozinho de inverno sobre o cérebro, façam-me o favor. Que cheguem a mim pela caridade, pela oração e não por essa escalada anti-higiênica, que aos vencedores rende um prato de pé-de-moleque amanhecido ou prenda ainda mais reles, jamais o reino dos céus.

Deviam aproveitar essa fogueira enorme armada aí embaixo para queimar os hereges dessa pândega sacrílega. E como há gente, com esses inocentes vestidinhos de chita, calças de grife falsamente remendadas e dente pintado de preto, que merecia uma inquisiçãozinha daquelas, ao melhor estilo medieval. Não exagero, não. Eu é que sei como é que a coisa termina, eu é que vejo o ritual nada católico atrás da tulha do rancho e cafezal adentro, sob efeito do quentão e da vitamina E do amendoim torrado. Já vi um casalzinho – o padre e a noiva da quadrilha, por sinal – que findo o arrasta-pé fez o que tinha que ser feito escorado no já citado pau-de-sebo, sendo que o sebo acabou servindo para um expediente que nem estando nos fundos dos infernos eu ousaria narrar. Pelas túnicas de Barnabé!

Vejo pais de família e gente de moral insuspeita furtando paçoca, desviando rojões para soltá-los no próximo jogo do seu time, superfaturando cachê de sanfoneiro. Em tudo quanto é quermesse vejo barracas da pesca com anzóis viciados (sei por experiência própria porque de pesca eu entendo), envelopinhos de correio elegante com cocaína dentro – tudo em nome da devoção a este que vos fala. Fora as calúnias envolvendo minha pessoa que entoam abertamente por toda parte, dizendo que eu fugi com a noiva na hora de ir pro altar. Brincadeira inconsequente com o sacramento do matrimônio! E ainda falam que a dita cuja era filha do João, com quem o Antonio ia se casar. Aí já é demais, me poupem. São Pedro cobiçando a mulher do próximo, sendo que o próximo é outro santo!!!

Pergunto: que tem tudo isso a ver com este velho Pedro que andou com o Mestre sobre as águas, que infortunadamente o negou por três vezes, que tem as chaves do céu? Milho verde, pipoca, canjica, lá na Galileia nunca teve nada disso. E o delírio prossegue com mais uns outros termos sem pé nem cabeça, que um sujeito fica entoando no microfone enquanto os caipiras de fachada saracoteiam aos pares: caminho da roça, balancê, a ponte quebrou, olha a cobra...

Vou é fechar o tempo e mandar uma chuva pra acabar com tudo.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. João Batista1:40 PM

    Gostei da crônica "Solta o Verbo". Muito boa. Um beijo
    e feliz fim de semana. Seu pai.

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  2. Jurema - Revista A Cigarra5:40 PM

    Olá Marcelo: Muito bom.Tô com Pedro.Tema muito bem desenvolvido. Ri muito. Fique lembrando que estamos no século 21 e aparecem na coluna social fotos do pessoal nas festas juninas dos clubes, coisa mais tosca. Abração.Jurema

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  3. Marco Antonio Rossi5:55 AM

    muito bom!!!!
    VIVA SAO PEDRO, SAO JOAO E SANTO ANTONIO!!!!!!
    QUE ELES NOS ABENÇOEM A ENFRENTAR O NOSSO DIA A DIA E AS SURPRESAS DA VIDA!!!
    UM GRANDE ABRAÇO
    ROSSI

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  4. Regina Costa8:51 AM

    Olá, Marcelo
    Tenho lido sempre seus lindos textos. O de hoje quase vesti caipira, tomei quentão e comi bolo de fubá para entrar no clima!
    Bjs e boa semana

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  5. Amigo Marcelo estou visitando, parabéns pelo belissimo trabalho, excelente. Quem segue acompanhado de um amigo vai mais longe, muito além...
    Compartilho o texto a seguir
    “A amizade é assim:
    É sentir o carinho,
    É ouvir o chamado.
    É saber o momento
    de ficar calado.
    Amizade é somar
    alegrias, dividir tristeza.
    É respeitar o espaço,
    silenciar o segredo.
    È a certeza
    da mão estendida.
    A cumplicidade que
    não se explica,
    Apenas vive!”
    Olavio Roberto
    Grato de coração por sua atenção e gentileza. Deixo votos de um fim de semana repleto de muitas alegrias, muitas bênçãos e que reine a paz, saúde e proteção, brilhe sempre! Fique com Deus. Encontrar-nos-emos sempre por aqui. Felicidades.
    Valdemir Reis

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  6. Willian Alves - RAC1:37 PM

    Maravilha seu Marcelo. Boa tarde

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  7. Ana Maria4:45 PM

    um texto saboroso, Marcelo rí a valer!!!!

    bjs.

    Ana Maria

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  8. Olha a chuva...., não ..não não é
    é UMA TORMENTA...

    E num É que ela caiu aqui que nem uma tormenta na hora da grandiosa festa "JUNINAPOPMEGACAIPIRA" de Caçapava!
    Menino, acho até que seu texto foi feita prá ela...ráráhehehe

    Boa semana amigo!

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  9. Chuva é pouco, tinha que dar uma tromba dagua para acabar com essas malfadadas festas bizarras.

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  10. Marcelaço, além da sua mais que incensada capacidade de manejar o verbo para divertir o leitorado, é impressonante a sua facilidade de lavrar linkado com as quenturas sazonais. É oportunismo no melhor sentido da palavra. abç

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  11. Sandra Nogueira4:22 PM

    que delícia, Marcelo. Dar voz a São Pedro foi o máximo. E se ele gostar e o eleger Porta Voz do Porta chaves? Ele lá em cima e você aqui embaixo traduzindo os desejos e as loucuras climáticas..... seria divertido hein?
    beijão
    Sandra

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  12. Com minha filha ninguém foge! rsrs
    JOÃO

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  13. Eh, Marcelo! Leu o suplemento de quarta-feira? Orgulho meu por estar ao teu lado e de meu amigo Laurão!
    Abraços
    João

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  14. Felipe Dumont8:15 AM

    texto bacana, Marcelo.
    Bem explicado. rs
    Abraço.

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  15. Belvedere Bruno3:03 PM

    Muito boa, adorei!!!!!!!!!!!

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