Pular para o conteúdo principal

A SAUDADE DA CASA EM QUE NUNCA ENTREI


Ali hoje, e já há tempos, é o Banco do Brasil. Aquele que diz que é o Banco do João, do Carlos, da Helena, da Ritinha, do Zé. Ali ontem foi o palacete da Dona Lucina, a casa dos filhos Francisca, Mariquinha, Felipe, Henrique, Antonio e da penca de netos que alguns loucos ainda juram ouvir a algazarra no salão de jogos.

Ali hoje há filas de gente com a testa franzida e olhar distante, ansiando a campainha que chame por sua senha para amortizarem, com o pouco que pinga, o muito que devem. Ali ontem também havia filas, mas filas de gente com festa no rosto e nas vestes, que se formavam desde suas escadarias de mármore até ganharem as entranhas mais escondidas de São João, na procissão do Divino.

Quem tem um pouco mais de história para contar há de lembrar que bem ali, onde estão aquelas máquinas cuspidoras de dinheiro, a velha matriarca da Fazenda Matão acompanhava aflita a cotação do café no rádio capelinha, uma mão no seletor de estações e outra no terço, rogando forças não para manter a fortuna que tinha, mas para continuar dando amparo à vila de colonos que dependia dela.

Os que hoje passam com pressa e indiferença em frente ao prédio de blindex da Praça Armando Sales desconhecem o que se chorou e se riu enquanto ali era um lar, com panelas no fogo e compotas na despensa, lar que continuava lar de afeto e de aconchego a despeito da rica mobília, das desavenças políticas, das pequenas intrigas que cercam quem quer que habite uma mansão de vinte e oito cômodos.

Quem vê a agência bancária moderna, a dominar o quarteirão com todo o aparato de segurança, provavelmente não testemunhou o ranger do portão da frente, em madeira vermelha, que se abria com generosidade idêntica para um mendigo ou para o Juscelino Kubitschek. Nem lembra do Dr. Oscar a clinicar de graça ou recebendo porcos e galinhas em paga de partos, na época em que seu consultório ocupava um dos quartos do casarão.

No banco 24 horas, frio como moeda, já não se tem mais notícia da dama lusa em trajes negros, Dona Lucina para uns e Mandinha para outros, que há muito já estava na igreja enquanto a cidade dormia. A portuguesa que veio dos Açores no século dezenove, jeito austero e sotaque carregado mesmo após décadas de Brasil, só deixava a sua casa pela casa de oração. E embora lá de cima a entristeça ver a estranha metamorfose do cenário da sua vida, às vezes deve abandonar o cantinho de céu a que teve direito para vagar por seus domínios demolidos, zanzando entre um caixa e outro como se estivesse buscando empréstimo para a colheita de café. Talvez ao ler este texto ralhasse por alguma razão comigo, bisneto a quem nem conheceu. Mas ficar brava definitivamente não era do seu feitio. Por maior que fosse a farra das crianças no salão de jogos.


Comentários

  1. Regina Costa11:42 AM

    "A saudade da casa em que nunca entrei" é ternura pura nesta manhã de domingo.
    Obrigada pelo começo suave de um novo dia.
    Bj e boa semana

    ResponderExcluir
  2. Salve! Salve! Salve! A pena universal do amigo lavra reminiscências da província. Marcelo, Sanja, tão orgulhosa dos seus, sentia falta de ser citada nas suas crônicas. Saí ali na varanda e vi que o crepúsculo, mais bonito que nunca, reverencia seu texto. Macaúbas agradecem!!!!!!!!

    ResponderExcluir
  3. Que linda reverência ao seus antepassados!
    Parabéns

    ResponderExcluir
  4. Simplesmente fascinante!

    ResponderExcluir
  5. Fernanda3:43 PM

    acho que conheço essa história, rs

    um beijo, fer

    ResponderExcluir
  6. Fiquei contente em conhecer teu Blog, já que aprecio muito tuas crônicas do "O Município".
    Abraços
    Jõao Batista Gregório

    ResponderExcluir
  7. Ainda criança, tive a oportunidade de conhecer a mansão, por dentro, numa consulta ao Dr.Pirajá (acho que o filho). De D. Lucina, lembro-me vagamente mas, conheço muito de sua estória, bondade e inteligência.Tudo contado pelo meu saudoso amigo Dr. Mazinho (Valdemar J.Ferreira), o qual tinha grande veneração pela avó.
    Abraços
    João

    ResponderExcluir
  8. Marco Antonio Rossi11:44 PM

    Parabéns por nos mostrar a senhora Matriarca e vó.
    Espero um dia poder ter essa virtude e mostrar a minha também,
    Um forte abraço e que ela possa, encontrar novos caminhos para nós e esse nosso Brasil, que foi alicerçado em pessoas como ela, mas que continua sofrendo politicamente.....
    Viva também o Dr. Oscar!!!!!!!!!
    Estou emocionado pelo que vc fez eu lembrar de minhas origens.
    Rossi

    ResponderExcluir
  9. Tereza Abranchez11:46 PM

    Lindo...
    Parabéns!!!!

    ResponderExcluir
  10. Adriano5:17 AM

    Muito bom mesmo. Esse estilo se sabe que é o meu preferido. Coisas que remetem ao passado me fazem viajar sem sair daqui. Ontem mesmo estive com meus pais e enquanto os dois falavam, quantas coisas eu estava vendo passar na minha frente. Vendo meus pais velhos e imaginando que eles nunca envelheceriam.......que eles nunca teriam uma ruga no rosto...............quantas dificuldades eles passaram.....rapaz, isso faz parte da vida, mas como é difícil aceitar isso não?

    Abraço.

    ResponderExcluir
  11. Filipe5:18 AM

    Pa chora de saudade, hein?
    Abrs

    ResponderExcluir
  12. Djalma5:19 AM

    Prezado Marcelo

    Bom Dia

    Ótimo texto.

    Um abraço,

    Djalma

    ResponderExcluir
  13. Marcelo,

    Assim os seguranças do banco não tem chance de impedir tua bem-aventurada invasão - fizestes usucapião de terreno e paredes que te dizem direito e nos convidaste a entrar!
    Estás de super-homem sonhador a ver através do blindex!
    Belíssimo texto!

    ResponderExcluir
  14. Ana Lucia Finazzi8:05 AM

    Querido primo, tudo bem?
    De fato aquela casa jamais deveria ser demolida. Eu entrei algumas poucas vazes, mas me lembro dos vitrais que eram lindos. A parte debaixo, onde seu tio Oscar clinicava, eu conheci bem. Foi uma grande perda para o patrimônio de São João.
    beijo
    Ana Lucia

    ResponderExcluir
  15. Evelyne8:09 AM

    Também tenho uma casa assim cheia de vidas no coração. Quando passo lá vejo uma placa enorme com nome da empresa e estranhos entrando e saindo ; na memória guardo gerações de gente amada. Dona Lucina deve está comovida com a saudade do bisneto.
    Lindo texto,Marcelo! Bjs e ótima semana!

    ResponderExcluir
  16. Ana Maria8:09 AM

    era sua família Marcelo???

    que saudades heim????

    Beijos!

    ResponderExcluir
  17. Muiiiiiiiiiiito bom cara.
    Puta merda, que talento. Vai escrever um livro cacete!

    ResponderExcluir
  18. Sandra Nogueira11:52 AM

    que texto lindo, Marcelo, uma homenagem e tanto. Um abração, meu amigo, e parabéns. Não é nada fácil acertar a mão no tom certo da irreverência sem perder a pitada de ternura que harmoniza tudo.
    Sandra

    ResponderExcluir
  19. Nelson Marchetti4:33 PM

    muito legal Marcelo!!!!!!!

    :)

    abração

    ResponderExcluir
  20. Paulo Marsiglio4:35 PM

    Muito bom, Marcelo.
    Muito familiar.
    É a nossa história.
    Um abração,
    Paulinho.

    ResponderExcluir
  21. Marieta4:36 PM

    OI MANO, NÃO SEI COMO ESTOU CONSEGUINDO DIGITAR,
    POIS AS LÁGRIMAS TEIMAM EM CAIR SOBRE A MÁQUINA.
    SE VC TIVESSE FREQUENTADO AQUELA CASA NÃO PODERIA EXPRIMIR
    MELHOR O QUE ELA SIGNIFICOU
    QUE O ESPÍRITO SANTO DE DEUS CONTINUE SEMPRE A ILUMINA-LO
    BEIJOS...TE AMO
    MARIETA

    ResponderExcluir
  22. Marilene Reis4:37 PM

    QUE LINDO , MARCELO! EU TAMBEM TENHO UMA CASA ASSIM NA MEMÓRIA DA MINHA INFÂNCIA. HOJE ABRIGA O COMANDANTE DA REGIÃO MISSIONEIRA.-RS. MEXEU COMIGO. PARABÉNS! UM ABRAÇO

    ResponderExcluir
  23. Paulo Ludmer4:38 PM

    Marcelo
    avente e avante menino

    toda a força

    Paulo Ludmer

    ResponderExcluir
  24. waddell4:39 PM

    muito bom texto, viajei no tempo.
    valeu. abs
    waddell

    ResponderExcluir
  25. Amigo, a pena é universal, mas as linhas macaúbicas anabolizam os comentários, não?

    ResponderExcluir
  26. Eu tb tennho saudade desta casa e de outras, cuja lembrança remete aos tempos de juventude.

    ResponderExcluir
  27. Belvedere Bruno1:41 PM

    Pois as mais remotas lembranças que tenho é na casa onde viveu minha mãe, que hj é o banco real aqui na rua..... amei o texto!!!!!!!!!!!Eu ia nessa casa e via o campo são bento e muitos bichinhos da janela.....

    ResponderExcluir
  28. ana christina lima ferreira victorelli5:29 PM

    Sou neta da Mariquinhas, também não conheci a casa, ou melhor, não me lembro...era muito criança. Mas gostei muito da sua descrição daquilo tudo que a gente "tanto ouviu falar", mas não viveu!! Valeu, muito bom !!!!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…