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EXÍLIO DE ZOÓLOGO



Eu queria lhe contar das brigas que não ando tendo com ninguém mais, por não ter mais ninguém ao lado com quem implicar de forma assídua e enriquecedora, como devem ser as Implicações de verdade, com “I” maiúsculo.

Nem tente dimensionar o quanto é gratificante essa opção que fiz de conviver com os pinguins e dedicar-me com afinco à minha variada e já até esquecida biblioteca itinerante. Pois é, eu que vivia correndo atrás do rabo, assumo o almejado posto de rato de livros, vocação que sufoquei por longas décadas. Tempo agora não me falta para, entre um içar de velas e uma ancoragem num cais de gelo, devorar de orelha a orelha “Os mecanismos de defesa imunológica do macaco-prego”, em edição revista e atualizada, “Focas não voam porque não têm asas”, “O pelo do hamster do vizinho é sempre mais liso que o nosso (digo, do nosso hamster)” e outros tantos volumes preciosos da moderna zoologia capixaba.

Não obstante tão fenomenal conteúdo a fazer-me prazerosa companhia, fica um vazio que busquei e do qual andava mesmo muito precisado. E digo que esse vazio inclui (se é que é possível o vazio conter alguma coisa) a ausência de cigarras de dia, de grilos à noite e até mesmo das quase inaudíveis pegadas de um suposto abominável homem das neves – que alguns juram vagar por essas redondezas muito abaixo de zero.


Mas deixemos um pouco de lado o reino dos insetos e dos seres de existência duvidosa. O fato é que estar aqui, no seio branco da madrasta Antártida, é “marolinha”, como diz o presidente que larguei aí com você e sua turma, no país dos Simonais que submergem e vêm à tona conforme os caprichos da mídia. Difícil mesmo vai ser quando acabarem os tocos de vela e as poucas folhas de papel pardo que restam na improvisada escrivaninha da embarcação. Aí não poderei mais lhe escrever, mesmo sabendo remota a possibilidade de vir a receber esses garranchos, já que muito provavelmente o derradeiro dos 17 pombos-correio que trouxe comigo não aguentará a jornada até a Terra de Santa Cruz. E ainda que chegue não terá fôlego para trazer a resposta, o que torna esta narrativa um enfadonho monólogo por escrito.

Você, amiga íntima dos meus desafetos, sempre me teve na conta de sujeito de raciocínio um tanto quanto ornitorríntico, de acordo com suas próprias palavras. Saiba que me é impossível atinar com a razão dessa blasfêmia. Exceção se faça, contudo, ao meu vício de imitar gansos cansados, coisa da época em que nos implicávamos, e que de fato poderia sugerir um distúrbio neurológico latente a quem não me conhecesse suficientemente bem. Sempre primei por deixar transparecer uma imagem de sujeito simples e dócil no trato, tão fácil de lidar quanto um lhama da Cordilheira dos Andes. E disso todos os dálmatas do quarteirão eram fidedignas testemunhas. Mas, tudo bem, seja ou não feita justiça à minha pessoa, não estou aqui por sua causa e nem lhe peço satisfações de qualquer ordem. Fique aí ao calor dos trópicos, abusando dos decotes e arrastando no seu cio todas as espécies da sua raça. De minha parte, enquanto houver alguma condição de sobrevivência, vou ficando por aqui, entre os pinguins.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Bom dia, querido Marcelo.

    As vezes me sinto um bicho estranho no meio de tantas bealdades da natureza.
    Como se adaptar as várias personalidades que nos cercam que nos determinam como ver e sentir o mundo?
    Me lembrou o filme da Gaivota em sua procura por algo significativo e real.
    Abração

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  2. A metáfora de um isolamento... É bem assim que muitas vezes nos sentimos nessa sociedade perdida e nesse país incoerente....

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  3. Filipe Moretzsohn8:37 AM

    Marcelo Amir Klink

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  4. Paulo Ludmer9:17 AM

    Marcelo

    bom cronista, parabéns.

    creio somente que ainda seja possível maior concisão. Independentemente de minha preferêrncia, está ótimo.

    avante.

    abraço fraterno
    Paulo Ludmer

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  5. José Carlos Carneiro9:31 AM

    Meu caro, você cada vez mais se supera, nos limites que não vejo em tanta imaginação criativa. Posso parecer pretencioso, e não gosto de me dar a comparações, ainda mais com alguém do seu calibre. Mas acho que temos em comum uma certa queda para nossas elocubrações mentais, pela maneira de escolher o tema e a forma de dar acabamento ao texto; uma certa "sintonia" onde, ao escrever, parece caber de tudo um pouco, sem faltar a lógica do começo, meio e fim. Amanhã enviarei para você a última crônica que fiz, ontem. Entre o seu "Exílio no zoológico" e a minha, seguimos rumos diferentes, mas me parece que o fim desejado, cada qual na sua seara, tem um quê de semelhança.
    Um ótomo fim de semana para você!
    Em tempo: Excelente sua crônica feita especialmente para o aniversário de São João.

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  6. Amigo, animalescamente interessante a sua crônica. Cheio de remissões. Todos nós, por vezes, desejamos um exílio. Uma fuga de certos insanos aspectos da vida moderna. abç

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  7. Ana Maria6:10 PM

    sabe Marcelo, as vezes tenho vontade de ficar junto aos pinguins também!
    deve ser a idade.

    abração!

    Ana Maria

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  8. Jorge Eduardo Magalhães9:04 AM

    Entre em meu blog www.jemagalhaes.blogspot.com

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  9. Marco Antonio Rossi10:27 AM

    nada como ser um ORNITORRINCO.....
    Um grande abraço
    Rossi

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  10. Celi Gustafson Estrada3:13 PM

    Abrir corações!
    Celi

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  11. Evelyne Furtado9:16 AM

    De vez em quando o exílio é bem vindo, Marcelo. O seu traz um vazio de encher os olhos ( e ouvidos) de quem lê. Um desabafo com sua marca. Adorei! Parabéns e beijos, meu amigo.
    Evelyne

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  12. Leopoldo5:10 PM

    Pergunta que não cala :



    Onde será que o irmão foi buscar inspiração pra escrever como uma fria

    e ornitorríntica lhama macho, que adora o Simonal e desdenha os decotes?

    ResponderExcluir
  13. Navegar é preciso...e isolamento, silêncio, nunca foi sinal de debilidade.
    Continue que ainda vais descobrir muito...

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  14. João Proteti4:41 PM

    Sguassabia,
    como está?

    Faz tempo que não te falo: que bom que é ler você!
    Esta de hoje...merece uma joalheria.
    Abraço e obrigado.
    Proteti

    ResponderExcluir
  15. Belvedere2:57 PM

    Muito boa!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Bjs
    Bel

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