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À JANELA


São sortidos e peculiares os flagrantes vistos daqui, deste camuflado e geograficamente estratégico terceiro andar. Quase sete da manhã e nada nem ninguém deterá que a cópula bissemanal no apartamento à frente se dê de forma clínica e burocrática, com a resignação de quem paga uma promessa. A silhueta dos dois denuncia a posição de missionário. Três minutos, quando muito, e resolvido. Ao banheiro para a ducha, à mesa para o café, ao beijo na testa das crianças e pronto – estão ambos devolvidos à faina esmagadora das repartições e a seus amantes fixos e eventuais, com quem exercitam prazerosamente todas as variações do bem-bom.

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O que vem nas sequência é não menos previsível: “Pizzicato Polka” e o prelúdio de “Tristão e Isolda”. Até hoje custa-me entender como um mesmo gosto acolhe peças esteticamente tão inconciliáveis. E a música surge de ponto impreciso, não dá para identificar se o epicentro é na rua ou na cobertura do prédio. Não é impossível que brote espontaneamente dos arredores, composição do asfalto em parceria com os semáforos, trilha sonora por excelência daquele trecho de city.

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Nada de anormal ou suspeito lá embaixo, na lida dos homens-formigas com suas pastas de documentos e protocolos. Ainda assim me ocorreu fazer um instantâneo deste nada para a posteridade, retrato comum de momento neutro, tão desinteressante quanto esta pastilha solta no parapeito da janela - indício seguro que há anos a faxineira não passa um paninho com Veja Multiuso por aqui. Se passasse ela despencaria e talvez caísse no capô do fusca amarelo-gema do Nelson, porteiro do prédio. Mas isso também não traria consequência que alterasse esse arrastão de coisa alguma, nem seria o caso de acionar o condomínio para saldar a conta do Martelinho de Ouro.

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A TV ligada no canal do senado alça o demônio a anjo, arquivando a montanha de processos que pesa sobre sua figura repulsiva e recendendo a putaria. Velhacão experimentado, tão ou mais hipócrita que o casal do prédio em frente na posição de missionário. Violo a sepultura das velhas aulas de Educação Moral e Cívica para exigir reparação e ressarcimento de tempo perdido, ao som de um carro de bombeiros que dobra a esquina com a sirene a toda. Pode ser um trote. Este país é um trote. Porém o sujeito que liga para os bombeiros alardeando fogo falso não é mais criminoso que esses engravatados que ganham por fora para que o meu dinheiro seja usado na compra de mais um naco do Maranhão ou para pagar o salário do Secreta (parte dele, bem entendido).

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Se é possível em tese viajar para o futuro, como comprovou Einstein, em algum ponto do espaço o filho do casal que copulou agorinha já é longínquo e esquecido tataravô de alguém. Este prédio já ruiu, com pastilha solta e tudo, há centenas de anos. O impune senado da república terá sido condenado necessariamente ao pó, com seus cadáveres de esquerda, direita e centro formando camadas fósseis, que hão de jorrar petróleo. Mas, para que jorre caudaloso, já avisam antecipadamente: só com um agradinho de 10%. E em espécie.

© Direitos Reservados


Comentários

  1. Eduardo Lara Resende11:51 AM

    Brilhante, Marcelo! Veja Multiuso nesse seu texto o faria menos multi. Continuo na sua pista, mais que nunca.

    Abraço grande.

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  2. Clauduarte Sá12:04 PM

    Oi Marcelo,

    Eu sou um musico e moro em Miami, FL se voce tiver algum poema por favor envia-me que eu posso tentar musica-lo, caso voce se interesse.
    Um grande abraco, saude, sucesso
    ClauduArte Sa

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  3. A pena que deleita dá pinceladas na nojenta cena política atual. Cidadania com entretenimento. na veia: divertido e crítico. abs

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  4. João1:27 PM

    Gostei de sua crônica "A Janela".Parabens!
    Feliz fim de semana para todos..Um beijo de seu pai.

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  5. Celi Gustafson Estrada1:06 AM

    Original, agradável!

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  6. Ana Maria5:15 AM

    muito verdadeiro< Marcelo.

    Um abraço!

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  7. Nelson Tangerini5:17 AM

    Marcelo:
    Sua crônica À janela
    foi publicada no jornal POLEGAR,
    de Novo Hamburgo, RS.

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  8. Racine Fontenele5:18 AM

    Marcelo, gosto muito de seus artigos. Leio e logo repasso para os Colegas e Familiares.

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  9. Sandra Nogueira7:28 AM

    Um observador imaginativo como você é um perigo para quem se esconde atrás das janelas. Que show, Marcelo, passeando do sexo à política você é imbatível.
    abração

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  10. Marco Antonio Rossi7:55 AM

    O cenário parace do COPAM -SP, então o escritor estava hospedado no Hotel logo à frente......
    quanto à comssão, no mau sentido, do governo, acho que jamais desaparecerá, independente dos cadáveres.....
    Abç
    Rossi

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  11. Evelyne8:58 AM

    tomara que seu olhar crítico e inspirado continue assim, mas lhe desejo melhores visões. Excelente! Bjs e boa semana , Marcelo!

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  12. Regina4:27 PM

    Ola, Marcelo,
    Escrevo hoje num computador que nao me e conhecido e com teclado em grego: nao sei onde esta um so acento. Isso me dificulta o pensamento, pois sou do tempo da escola de D. Joao VI onde as palavras eram devidamente acentuadas com o risco de nao sair para o recreo ou ir conversar com Mere Althina na secretaria.
    Mas como nao preciso dos acentos para ler seus textos, estou aqui para lhe dizer que nao tenho perdido um so deles, e como sempre, me divertido muito .No mes de outubro parto para outra viagem:desta vez irei rezar no muro das lamentaçoes (o pais esta precisando)e depois irei ver o por-do-sol em Veneza. Mas ate la a gente vai se falando, lendo, escrevendo...bj e boa semana

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