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VOCÊ ERA


Você era uma lacuna. Toneladas de vazio se ergueram nos arredores, demarcando seu lugar. Por essa fenda a alargar-se, um cão vaga até hoje em inanição a farejar seu rasto e a vasculhar arestas.

Você era uma borracha. Das verdinhas e macias, que a gente levava no estojo, quando nem me passava pela cabeça te tirar para dançar. O fato é que um belo dia, sozinha a ouvir Rubber Soul, você apagou o meu rosto no caderno de espiral. E exultou, ainda por cima, rindo-se do meu sumiço.

Você era um exaustor. Sugou o ar carregado de vagabundagem e os restos de festa que haviam. Lançou para fora do apê todas as cinzas e cacos, que devem jazer amorfos em algum bueiro da pólis. O que sobrou, se sobrou, respira com a ajuda de aparelhos.

Você era uma pílula de placebo com validade vencida. E eu a sentir seus efeitos me fiando no seu rótulo. Depois veio a rebordosa, que deixou tudo mais seco que verso de João Cabral.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Elizete Lee5:30 AM

    Ainda bem que ERA. O que não presta prá gente tem que acabar!

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  2. Ana Victorelli2:15 PM

    muuuitoo bom !!!! parabéns!!!! o último verso, então... os cabides...

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  3. Marco Antonio Rossi2:16 PM

    AI MEU COTOVELO!!!!!!!!!!
    QUE SAUDADES...O CORAÇÃO SEMPRE FALA MAIS ALTO!
    ABÇ
    ROSSI

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  4. Esse cão que vaga é fogo.

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  5. "Você era a borracha..." ;-) Amei isso! Minhas borrachas sempre são verdinhas. Não gosto das outras cores.


    Beijos.

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  6. Maria Ester Rodrigues Esteves10:44 AM

    Super bonito! Ester.

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  7. Belvedere Bruno4:19 PM

    Contundente, né?
    Bjs

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  8. Jorge Eduardo Magalhães4:20 PM

    Entre em meu blog e deixe um comentário: www.jemagalhaes.blogspot.com

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  9. Zeza Amaral5:22 PM

    Sensacional a crônica, Marcelo. Vou postá-la no meu blog e dela arrancar umas ideias para fazer algumas canções. Foi um banho de imagens, meu caro!
    Abraços de pomares para ti.
    Zeza

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