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PARADA DA INDEPENDÊNCIA


A mãe para o fluxo incessante das memórias dos seus anos de internato, independente do chá de laranjeira a arrastá-la em torvelinho para o pó do giz e o álcool do mimeógrafo. A maçaneta para de levar quem se habilite ao cômodo contíguo, independente de ser ou não este outro cômodo o cenário dos enredos que fascinam. O caqui para de se abrir em seiva doce e reluzente, independente da ressequida goela dos colonos. O instinto de sobrevivência para a imobilidade aleijante, independente de todos os esforços para que nenhum esforço se faça em qualquer sentido que seja. Os segredos maçônicos param de ser segredos e vazam dos iniciados, independente do empenho dos Grão-Mestres em detê-los. Dirce de Oliveira Sales Camarinha para de arquitetar intrigas no seio doméstico, independente da quantia sumida da gaveta apontar como suspeito o arrimo da família, desafeto do cunhado que a nora da sua sogra batizou em Monte Alegre. A chuva para por inadimplência de São Pedro com a Sabesp, independente das inúmeras tentativas de negociação do débito para evitar o corte. O moço que todos juram que é irmão do Wando para de chutar nos testes de múltipla escolha, independente do seu QI recomendar o chute em 100% das ocasiões. A girafa do zoológico de Michael Jackson para de dormir de pé, independente do fato contrariar frontalmente a natureza das girafas. O Rio de Janeiro para na Rocinha de ser lindo, independente da música desde 1969 vir insistindo no contrário. O dono do celular pré-pago para de dar crédito às ofertas da operadora, independente das tarifas imperdíveis e do saldo da promoção “Recarga Premiada”. O santo para de atender os pedidos do dia, independente da urgência do devoto. O carrinho da montanha russa para no meio da descida, independente da força da gravidade funcionar regularmente. O relógio para de marcar os minutos, independente do ponteiro das horas obedecer à trajetória original de fábrica. A megasena para de acumular, independente do último sorteio não ter contemplado ninguém. A vergonha na cara para de ser nenhuma e consegue ser alguma, independente de todas as tentativas, nas três esferas do poder, para que no máximo seja mínima. O Cony para no terceiro parágrafo do texto em busca de uma palavra, independente de não levar mais que oito minutos para concluir suas crônicas. O pastor alemão da polícia militar para no decorrer do desfile e defeca na frente do palanque presidencial, independente do visível constrangimento do capitão e da câmera exclusiva da Globo.

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Comentários

  1. É, Marcelo, o tal do continuismo! Bom feriado - Luciana

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  2. Ana Christina Victorelli12:03 PM

    sensaciona !!!!!! bjos Ana

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  3. Eduardo Lara Resende1:01 PM

    Esse pastor alemão (cachorro) hein?
    Não há como parar de restreá-lo em textos que nos lembram paradas outras. E o Rio, onde as pessoas são as mais felizes, segundo a pesquisa? Assim como a beleza para na entrada da Rocinha, a felicidade... O que acontece com ela? Para também, ou é de lá que ela verte, caudalosa, para toda a cidade?

    Abraço reverente.

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  4. Cezar Lopes12:42 AM

    Já disse e repito, temos um estilo muito semelhante. Por isso, penso, adoro teus textos. Dizem o que eu diria. Expressam o que penso. Embora, segundo a Ione, tu sejas um profissional na àrea em que não passo de mero aprendiz.

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  5. Walter7:07 AM

    Caro Marcelo Sguassabia,



    Bela crônica. Parabéns! Destaque para:



    O moço que todos juram que é irmão do Wando para de chutar nos testes de múltipla escolha, independente do seu QI recomendar o chute em 100% das ocasiões.



    A vergonha na cara para de ser nenhuma e consegue ser alguma, independente de todas as tentativas, nas três esferas do poder, para que no máximo seja mínima.



    Um forte abraço,



    Walter de Brito

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  6. Sergio Maldonado7:43 AM

    Parabéns, Marcelo. Lindo texto.

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  7. Marco Antonio Rossi8:57 AM

    Caro marcelo

    Não poderiaterminar melhor a crônica da INDEPENDÊNCIA DESSE NOSSO???????PAÍS......
    com um cachorro defecando aos pés do presidente.
    PERFEITO!!!!!
    Abraço
    Rossi
    Caro marcelo

    Não poderiaterminar melhor a crônica da INDEPENDÊNCIA DESSE NOSSO???????PAÍS......
    com um cachorro defecando aos pés do presidente.
    PERFEITO!!!!!
    Abraço
    Rossi

    ResponderExcluir
  8. Evelyne1:50 PM

    ...e eu paro independente de ser domingo , véspera de feriado, para ler e (ainda ) me surpreender com Marcelo em seu conceito próprio de parada de independência. Show, meu amigo. Parabéns e bjs.

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  9. Ana Maria9:10 AM

    um texto bem independente, Marcelo!

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  10. Faria um comentário longo, mas, estupefato ante tantas sacadas, paro aqui... abs

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