Pular para o conteúdo principal

JOHN IN THE SKY


Que me perdoem a demora, mas só agora, depois de tantos anos, me autorizaram uma comunicação. Tenho pouco tempo e terei que ser breve e incisivo, como as letras das minhas canções após o fim do conjunto.

Sabe Yoko, Deus é testemunha do quanto eu queria encontrar alguém cabeça feita, com os olhos puxados e cabelos caindo pela cintura, que me lembrasse seu layout nos sixties e me fizesse companhia enquanto você não chega. Mas os japoneses são longevos e os mortos vêm pra cá com a aparência que tinham no desencarne. Então torço para que você bata as botas o quanto antes,de forma a chegar aqui em condições desfrutáveis. O que me deixa apreensivo é que você já passou dos 70 e eu continuo com meus quarentinha recém-completados, you know?

Eu queria dizer algo a respeito daquele mosaico que fizeram em minha homenagem no Central Park, com a palavra “Imagine”. Acho que a intenção foi boa mas o resultado estético ficou aquém da intenção. Por favor, destruam aquilo a picaretas e peçam a Yoko para que crie algo ao seu estilo, como nos velhos tempos. Ela conhece meu gosto e sabe o que quero dizer. Sou crítico e perfeccionista, sempre fui. Perguntem ao George Martin e ele confirmará que, por mim, regravaria a obra inteira dos Beatles, desde “Love me do”. Inclusive “Love me do”. Principalmente “Love me do”. Aliás, onde estávamos com a cabeça quando fizemos “Love me do”?

Há muita lenda envolvendo meu nome, e elas só cresceram de 1980 para cá. A história de que o comercial de cereal na TV inspirou “Good Morning” tem fundamento, mas quanto à balela de que “Lucy in the Sky with Diamonds” não queria dizer LSD, de que foi só uma coincidência, ora vamos, come on... Eu precisaria estar muito drogado para inventar aquela história do desenho que o Julian fez na escola, e devo admitir que estava! Ah, e como estava.

Para dar um basta definitivo aos boatos que persistem até hoje, o Paul não está morto coisa nenhuma. Caso contrário ele já teria incorporado não só um médium, mas toda uma assessoria de imprensa mediúnica para um ghost-pronunciamento em rede mundial, com posterior lançamento em CD, DVD e Blu-Ray. E Elvis, acreditem, também não está morto, a menos que tenha ido para o inferno e esteja por lá devorando seus sanduíches de pasta de amendoim.

Rebatizem, por favor, o Aeroporto de Liverpool – que leva o meu nome e tem como slogan “Above us only sky”. Nem morto eu compactuaria com isso.

Parem de peregrinar por Abbey Road e cruzar a faixa de pedestres. Outro dia um sujeito ficou olhando demais para a câmera na hora de tirar a foto e meia hora depois estava me pedindo autógrafo aqui em cima. Sério, guys. Procurem pela massa de tomate ainda fresca debaixo do ônibus Route 139. O nome da vítima é Thomas Allen Silverstone, veio de Denver para uns dias de turismo em Londres e mexia com seguros.

Também aproveito para fazer, desta vez além-túmulo, o mea culpa sobre aquela declaração que dei em 66, dizendo que éramos mais populares que Jesus Cristo. Tenho por aqui uma legião razoável de fãs, mas uma disputa com o filho do Homem seria ridícula. Mesmo na época em que eu tinha aquela barba comprida.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Cezar Lopes9:14 AM

    Boa tarde!

    Estou, com muita satisfação, publicando seu trabalho em meu blog.
    Segue o link para conferência: http://cezarlopes.blogspot.com/

    Cezar Lopes.

    ResponderExcluir
  2. Luiz Cichetto9:15 AM

    Marcelo: Muito legal esse texto, me deu o toque de humor necessário ao sábado. Está publicado. Abrazzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
    http://www.abarata.com.br/Colunas_MarceloSguassabia_Detalhe.asp?Codigo=129

    ResponderExcluir
  3. É a mistura do cronista fantástico com o beatlemaníaco ardoroso. Esse mix só podia dar coisa "desfrutável", coisa que a Yoko foi nos sixties só para John. abs

    ResponderExcluir
  4. Ana Christina Victorelli9:10 PM

    Maravilha, adorei !!!!! Bjos e boa semana !!!!

    ResponderExcluir
  5. Ana Maria9:48 AM

    muito bom, my little boy!

    ResponderExcluir
  6. Marco Antonio Rossi3:03 PM

    CARO mARCELO.

    OS BEATLES REALMENTE FORAM......UM POUCO E TUDO.....
    VIVA OS QUATRO REPRESENTANTES DESSE CONJUNTO QUE EMBALOU MUITOS BAILINHOS DE MINHA ÉPOCA......

    ResponderExcluir
  7. Patrícia6:14 AM

    Adorei, ainda mais por que acabei de ler o livro!

    ResponderExcluir
  8. Evelyne6:56 AM

    A irreverência de John sob a criatividade inesgotável de Marcelo. Sempre um prazer ler você, amigo. Beijos e ótima semana.

    ResponderExcluir
  9. Sandra Nogueira6:57 AM

    Marcelo, meu amigo, tenho por mim que você realmente falou com John, em sonho premonitório ou psicografia. O texto tem tudo a ver com o jeitão dele. Aliás, também me ajoelhei no mosaico do Central Park e me deixei fotografar com cara de fã abandonada. Ele deve ficar invocado mesmo com isso.
    Abração
    Sandra

    ResponderExcluir
  10. Leopoldo Gonzaga7:08 AM

    Muito legal irmão!

    ResponderExcluir
  11. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  12. Cristina Siqueira12:43 PM

    Oi Marcelo,

    Adorei!
    Você viajou com Lucy.IMAGINE!
    Te espero lá no www.cristinasiqueira.blogspot.com

    Beijos,

    Cris

    ResponderExcluir
  13. Belvedere Bruno2:04 PM

    show! espetaculosa!!!!!!!!!!!!!!Amei!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…