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Mostrando postagens de Janeiro, 2010

PROVADOR NO ANALISTA

O PROVADOR
O emergente nicho de provadores é um mundo à parte. Muito à parte. Imune às oscilações do mercado de trabalho, ao desempenho dos fundos de renda fixa e ao terremoto do Haiti, não consta até hoje nem nas Delegacias Regionais do Trabalho nem na Caixa Econômica um único pedido de seguro-desemprego dessa categoria profissional. Ultraespecializados, sua sensibilidade peculiar em um dos cinco sentidos lhes garante a chamada jornada 8 x 4 – oito meses de trabalho e quatro de Club Med em sistema All Inclusive.

A habilidade inata para uma coisa só os torna, não raro, insensíveis a todas as outras. O resultado é uma autoestima exacerbada que fatalmente desencadeia algum distúrbio emocional ou neurológico. Basta citar as multidões de provadores de cerveja, vinho, perfume e sopa de cebola nos consultórios dos psicanalistas, alguns deles pagando fortunas por um encaixe emergencial na quarta-feira às 12h30.

À parte o egoísmo natural ou adquirido, são extremamente sociáveis. Entre eles, bem…

PORCOS MARCADOS COM BATOM

Havia um certo desconforto, sim, ali na cabine da máquina do tempo. Mas os cockpits dos F1 também são duros e apertados, e nem por isso deixam de levar seus ocupantes a uma realidade privilegiada – pensava ele, com o indicador direito pronto para acionar a data da aventura. O ano, o mês e o dia exato que escolhesse para ir para trás ou adiante do presente. Em segundos se desintegraria para se reintegrar em outra dimensão, quem sabe num lugar onde a morte não fosse tão definitiva ou talvez tivesse sucumbido à morte de si mesma.

Uma questão não resolvida, e à qual só teria resposta fazendo uma primeira experiência, era se manteria a forma e a idade do presente para onde quer que fosse. Poderia ser mais velho, mais novo ou permanecer nos 32. Trazia os bolsos cheios das coisas de agora, utensílios contemporâneos para embasbacar os do passado ou fazer rir os do futuro. O mais difícil já estava resolvido: a engenhoca teoricamente estava pronta pra funcionar. Foram 9 longos anos de cálculos e…

INVIOLÁVEL

Ali, todo oferecido, o buraco de fechadura a se devassar a quem se dispusesse. Mais que suspeitos, os ruídos lá de dentro entregavam a indecência que nenhum dos dois (seriam só dois?) se preocupava em abafar. O certo é que por aquela fresta ninguém veria nem borboletas voando nem fiéis em novena, mas quem do lado de cá para o gesto condenável, para curvar a espinha e confirmar que não eram mesmo nem novenas, nem borboletas?
À porta, juntava gente. Curioso, alguém desce à recepção e confere a lista de hóspedes. Ninguém naquele quarto. Já agora os uivos do sexo bruto são gritos de guerra civil. Crianças que vomitam ao cuspe das metralhadoras. No 306B, com suíte, sacada e vista para a praça, se encerra o mundo de quem não se tem ideia. E a guerra de há pouco vira algo próximo de pregão da Bolsa, depois de programa e auditório, em seguida de previsão do tempo e enfim de coral de igreja.
- Arrombemos, arrombemos – dizem os alguéns vários em uníssono.
Lá dentro, a TV ligada e um cão. Com o con…

OCORRÊNCIAS POLICIAIS DA PROVÍNCIA - PARTE II

Por Laudilene Elizandra, da Reportagem LocalUm prato raso de fios de ovos e uma porção de lasanha à bolonhesa por pouco não levam à morte dois dos nossos mais respeitáveis munícipes – o Dr. Draconiano de Campos Pimentel, chefe do Posto de Arrecadação Tributária local, e o conhecido “Ditinho Puxa-Uma-Perna”, dono da fábrica de gatilhos.
Após chegarem às vias de fato em plena Praça da Matriz, por motivos até aquele momento não elucidados, as partes beligerantes dirigiram-se engalfinhadas à sede da “Tribuna Varonil” e transformaram em ringue a redação deste matutino. Os sopapos e insultos de baixo calão comeram soltos até a chegada o cabo Edélcio, que convertido ao islamismo tentava apaziguar os ânimos segurando numa das mãos o Corão (pela capa dura e espessura do volume, era quase um escudo à prova de balas) e na outra um par de algemas em aço temperado de marca Alcatraz.
Acender velas e entoar ladainhas talvez pouco valesse nessa hora de fúria cega e juras de morte, mas ainda assim se te…