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PORCOS MARCADOS COM BATOM


Havia um certo desconforto, sim, ali na cabine da máquina do tempo. Mas os cockpits dos F1 também são duros e apertados, e nem por isso deixam de levar seus ocupantes a uma realidade privilegiada – pensava ele, com o indicador direito pronto para acionar a data da aventura. O ano, o mês e o dia exato que escolhesse para ir para trás ou adiante do presente. Em segundos se desintegraria para se reintegrar em outra dimensão, quem sabe num lugar onde a morte não fosse tão definitiva ou talvez tivesse sucumbido à morte de si mesma.

Uma questão não resolvida, e à qual só teria resposta fazendo uma primeira experiência, era se manteria a forma e a idade do presente para onde quer que fosse. Poderia ser mais velho, mais novo ou permanecer nos 32. Trazia os bolsos cheios das coisas de agora, utensílios contemporâneos para embasbacar os do passado ou fazer rir os do futuro. O mais difícil já estava resolvido: a engenhoca teoricamente estava pronta pra funcionar. Foram 9 longos anos de cálculos e recálculos, que esperava recuperar com a recompensa de domar o tempo.

Tudo estaria muito bem não fosse a aparição de uma freira, vindo ofegante em sua direção.
- Você não sabe quem sou mas estou vindo de lá, para onde você foi e atrapalhou tudo. Viajei também no tempo e estou aqui para evitar sua ida.
Confuso com a intervenção, argumentou:
- Como pode provar que fui se não tenho lembrança de onde estive e, pra falar a verdade, nem escolhi ainda pra onde vou?
- Aposto que este revólver, aqui no bolso do meu hábito, também não lhe diz nada porque neste momento você não tem como saber o que já fez, mas o que fez ainda pode deixar de ser feito. Isso se você me permitir agir rápido e não fizer muitas perguntas.
- Mas se deixar de fazer o que está pra ser feito você nunca poderia estar aqui, porque o que foi feito não teria ocorrido e, portanto, não teria motivado sua vinda até aqui pra me impedir de fazer seja lá o que for. Consequentemente, eu tenho que fazer o que penso em fazer. Caso contrário você é uma alucinação, alguma brincadeira do Amílcar, o único cara que sabe que eu estava construindo a máquina.
- Se você me deixar explicar, tudo pode ficar mais fácil.
- Bom, já que você quer explicar, me diga como é que você veio pra cá com a máquina do tempo se a máquina está aqui? Por acaso a irmã desenvolveu uma réplica lá no seu convento?
- “Porcos marcados com batom”, talvez se lembre de algo assim...
- Irmã, meta-se com seu tempo que eu cuido do meu. Seja você do passado, do futuro ou muito pelo contrário. Até porque pra mim você é do presente mesmo, alguma conhecida do Amílcar fantasiada de freira.
Nem acabou de dizer isso quando viu aproximar-se alguém que deveria ser ele próprio, uns quarenta anos mais velho, careca e de barba grisalha, alertando:
- Ignore a freira, idiota. Ignore! “Porcos marcados com batom” é a senha para...

Nisso a freira sacou o revólver e disparou quase à queima-roupa naquele que parecia ser ele depois do derrame. Enquanto pensava no que faria, apareceu uma biga vindo em sua direção, com um gladiador açoitando ferozmente os dois cavalos. Sentiu o coice violento na cabeça e quando abriu os olhos estava numa cama de hospital. Olhou pela janela e viu Pilatos ao longe, lavando as mãos.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Rosa Pena7:22 AM

    Um conto de suspense. Diferente, mas não menos bom, do que você escreve.
    Gostei e muito
    beijo
    rosa

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  2. João Batista7:24 AM

    Filho, bom dia. Que tudo esteja na paz de Deus em seu lar.
    Gostei da cônica da freira.

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  3. Marcelo,apresenta o Senna para "A Mulher do Viajante do Tempo" que ele não vai mais querer viajar não... :)

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  4. A máquina do tempo, sonho de cientistas e malucos desde que o mundo é mundo, vira "realidade" no passado pela pena do Marcelo, no presente pelas teclas do laptop e no futuro com uma geringonça que transforma voz em caracteres. Um texto não menos bom, mas sem o humor habitual das crônicas de MPS, que mantém a qualidade transitando em vários estilos. Orgulho da Beloca, o rebento do Uirapuru.

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  5. Bárbara10:31 PM

    Isso não esteve na imaginação de quem escreveu por acaso não.
    Seja por retornos da alma em corpos e tempos diferentes, seja por herança genética que também é psicológica, temos sim,um "chip" - mínima máquina do tempo dentro de algum lugar do cérebro que os médicos neuro sabem o nome.
    Intrigante e instigante...

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  6. Até parece um daqueles sonhos tipo "Salvador Dali". Muito louco mesmo!!

    Dá pra fazer até um pequeno curta-metragem...hehehehe

    Abração

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  7. Patrícia Pirajá6:26 AM

    Oi Marcelo,
    Muito boa!!!!!

    bjo

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  8. Eduardo Lara Resende12:46 PM

    Muito bom este conto, Marcelo! Escrito com competencia e autoridade de ficcionista de categoria.

    Abraço grande.

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  9. Evelyne12:47 PM

    Viajei na máquina do tempo e em seu texto desde o título inspiradissimo. Tive a impressão de estar sonhando. É sempre muito bom ler você, Marcelo! Beijos e parabéns, amigo.

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  10. Ana Maria2:23 PM

    Eu queria uma máquina desta, mudaria muita coisa não, Marcelo!

    Beijo!

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  11. Ana Christina Victorelli11:07 PM

    suuuuper legal, me deu até um pouco de meeedoo, bjs boa semana

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