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Mostrando postagens de Março, 2010

QUEM FOI QUE NÃO

Quem foi que não teve, certo dia, uma certa tia de nome Ruth, Dirce ou Ester que fazia compota de goiaba como ninguém, e que vendia o muito que não consumia a 16 o quilo pela vizinhança? E quem foi que não teve, olhando a compota, a impressão de serem orelhas de anão em calda de açúcar ou céus da boca vítreos? Quem foi que não teve certo carro, de marca incerta com o passar dos anos, mas que levava todos a toda parte em tempo suficiente? E quem foi que não teve, dentro desse carro, o enjoo de criança no banco de trás, a caminho da montanha que no fim das contas não levava a nada que valesse a pena guardar na lembrança? Quem foi que não teve certa veia torta, que palpitava de nervoso no pescoço ao ver passar o amor eterno que durou dois meses e depois mudou-se sabe Deus pra onde? E quem foi que não teve, desse amor não consumado, o desejo que tivesse sido – ainda que sem jeito e no meio do mato? Quem foi que não teve certo desconforto de sentir-se ausente no meio da missa de sétimo dia…

BUMBUM ASSASSINO

Estávamos em meados de fevereiro do ano passado quando disse-me meu amigo, em reserva, que considerava suas nádegas de uma formosura extrema e inigualável, bem mais vistosas, fornidas e desejáveis que a média dos assentos das moças da sua idade. Concordei por concordar, sem muita convicção e sem saber que aquela observação picante era o começo de um caminho sem volta, o primeiro capítulo de uma novela de trágico final.

Não exagero. Este amigo, que prefiro não citar o nome, acabou indo parar no hospício por sua causa. Ou, melhor dizendo, por culpa de sua região glútea. Um pouco antes de ganhar camisa de força, era triste vê-lo ao telefone rabiscando indecorosamente o seu traseiro num bloco de anotações enquanto conversava com a mãe, que do outro lado da linha, em João Pessoa, jamais poderia imaginar a compulsão que assolava o filho. O seu popô, minha cara, era invariavelmente o assunto único, da mesa de trabalho à mesa de bar, passando pela arquibancada do estádio, pelas conversas no ôn…

CHEGA DE SAUDADE, COPACABANA

Aconteceu num sábado de quaresma. O primeiro achado das escavações foi sendo içado lentamente de sob a areia de Copacabana. O ébano dos sustenidos e bemóis ganhava a superfície refletindo o sol da manhãzinha, depois as teclas de marfim e em seguida todo o piano de cauda. Na banqueta, um tanto estreita para duas pessoas, Villa lobos e Ernesto Nazareth tocavam a 4 mãos, ambos de fraque e sorrindo um para o outro. O charuto de Villa incomodou Elizeth, que passava de maiô e com o LP “Canção do Amor Demais” embaixo do braço. Aproveitava o mar enquanto não chegava a hora de brilhar no palco de uma boate da zona norte do Rio. Muito além da rebentação, e com a água já pelo pescoço, Vinícius contava os peixinhos a nadar no mar para saber se eram menos que os beijinhos que dera há pouco na boca da amada. E o guindaste abria alas puxando uma Chiquinha Gonzaga meio sem jeito e assustada, violão numa mão e arrastando Caymmi pela outra, um Dorival ranzinza a reivindicar que aquela não era a areia d…

ASSIM NÃO. MELHOR ASSADO.

(A RESPOSTA DELA AO POST ANTERIOR)

É, melhor assado. Melhor vê-lo assado numa travessa de prata e com uma maçã na boca do que vivo, como um ser humano normal. Alguém que se esconde como você, atrás de um avatar sem graça e de baixa resolução, não merece mesmo sair do anonimato. Ou quem sabe tenha motivos escusos para insistir em mantê-lo, o que me parece ainda mais assustador e deprimente. À sua sugestão de um “escaneia, mulata, escaneia” na casinha de pau a pixel eu respondo com a boa e velha Clementina e seu “ensaboa, mulata, ensaboa” no meu vinil e na minha vitrola de átomos de verdade. Cercada por minhas paredes de sólida alvenaria, que mesmo com a pintura descascando, valem mais e me fazem mais proveitosa companhia do que você, cybercovarde.

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Fique o senhor sabendo de pelo menos uma parte do estrago que fez. Meu tio-avô Anacleto estava nas últimas lá em Carazinho e arribou do seu leito de morte quando soube que eu tinha arrumado um pretendente. Minha mãe já acomodou o enxova…