Pular para o conteúdo principal

ASSIM NÃO. MELHOR ASSADO.


(A RESPOSTA DELA AO POST ANTERIOR)

É, melhor assado. Melhor vê-lo assado numa travessa de prata e com uma maçã na boca do que vivo, como um ser humano normal. Alguém que se esconde como você, atrás de um avatar sem graça e de baixa resolução, não merece mesmo sair do anonimato. Ou quem sabe tenha motivos escusos para insistir em mantê-lo, o que me parece ainda mais assustador e deprimente. À sua sugestão de um “escaneia, mulata, escaneia” na casinha de pau a pixel eu respondo com a boa e velha Clementina e seu “ensaboa, mulata, ensaboa” no meu vinil e na minha vitrola de átomos de verdade. Cercada por minhas paredes de sólida alvenaria, que mesmo com a pintura descascando, valem mais e me fazem mais proveitosa companhia do que você, cybercovarde.

********

Fique o senhor sabendo de pelo menos uma parte do estrago que fez. Meu tio-avô Anacleto estava nas últimas lá em Carazinho e arribou do seu leito de morte quando soube que eu tinha arrumado um pretendente. Minha mãe já acomodou o enxoval na charrete e tá com a buchada de bode no fogo, só esperando que dê o ar da graça e peça minha mão ao mano Juvêncio, pois meu pai é falecido de barriga d’água desde 1997. O que é que eu vou falar pra eles? Tem mais: faz duas semanas que pedi as contas da firma e tranquei a matrícula do curso de secretariado, me fiando em sua promessa de encher a casa de meninos tão logo tivéssemos a benção da Santa Madre Igreja. Meninos com ranho escorrendo, cascão atrás das orelhas e estilingue na mão atrás de pardal. Guris de sangue nas veias, meu caro embusteiro virtual, que nos acordassem de noite com seu choro e enchessem de pocinhas o assoalho com seu mijo. Mas a vida assim, do jeito ela é, passa longe da sua retórica internética e do chiqueiro que decerto o senhor ocupa em Farmville. Fique com seu Windows que eu fico aqui sonhando com janelas de venezianas largas, onde o sol bata de manhã e o vento fresco sopre de tarde, estofando o voal como se fosse um véu de noiva. Noiva que você, seu vírus destruidor de HD, jurou que logo eu seria.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Paulo Braga Silveira Junior7:01 AM

    Muito bom, Marcelo.... Parabéns!

    ResponderExcluir
  2. João8:13 AM

    Gostei muito de sua crônica e de ter trans
    mitido ao Carlini o seu agradecimento. Valeu. Feliz fim de
    sema.

    ResponderExcluir
  3. Quer que a vingança seja maligna? Fala para ela fazer uso lá embaixo do "Deletador de saudades - Manual do Usuário" enquanto liquida ele no Mafia Wars... Melhor Assim!

    ResponderExcluir
  4. "Fique com seu Windows que eu fico aqui sonhando com janelas de venezianas largas..." Cybercrítica em embalagem lírica... de novo, again, mandou mais do que bem...

    ResponderExcluir
  5. Ana Maria Pereira3:32 PM

    Seu texto me lembrou Graciliano Ramos!

    ResponderExcluir
  6. Marco Antonio Rossi7:12 AM

    melhor ainda se for acompanhado de batatas ao forno.....
    abç
    Rossi

    ResponderExcluir
  7. Regina Costa11:54 PM

    olá Marcelo,os dois últimos textos são insuperáveis, vc cada vez mais mais com seu hardcore altamente criativo!bj

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…