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QUEM FOI QUE NÃO


Quem foi que não teve, certo dia, uma certa tia de nome Ruth, Dirce ou Ester que fazia compota de goiaba como ninguém, e que vendia o muito que não consumia a 16 o quilo pela vizinhança? E quem foi que não teve, olhando a compota, a impressão de serem orelhas de anão em calda de açúcar ou céus da boca vítreos? Quem foi que não teve certo carro, de marca incerta com o passar dos anos, mas que levava todos a toda parte em tempo suficiente? E quem foi que não teve, dentro desse carro, o enjoo de criança no banco de trás, a caminho da montanha que no fim das contas não levava a nada que valesse a pena guardar na lembrança? Quem foi que não teve certa veia torta, que palpitava de nervoso no pescoço ao ver passar o amor eterno que durou dois meses e depois mudou-se sabe Deus pra onde? E quem foi que não teve, desse amor não consumado, o desejo que tivesse sido – ainda que sem jeito e no meio do mato? Quem foi que não teve certo desconforto de sentir-se ausente no meio da missa de sétimo dia do tio-avô do primo do amigo distante? E quem foi que não teve, no canto do ofertório, um olhar sacrílego e mal intencionado no decote enorme da filha da mãe daquela sirigaita? Quem foi que não teve certa calculadora, daquelas pesadas, que mal calculava a obsolescência que se aproximava? E quem foi que não teve, na soma de tudo, zeros à esquerda dos zeros à esquerda dos zeros à esquerda bem depois da vírgula? Quem foi que não teve certa camiseta, com emblema da escola, toda autografada com velhos amigos hoje desbotados? E quem foi que não teve, vestindo a camisa, uma vontade louca e irremediável de matar a aula, mesmo sendo a última de todas as aulas? Quem foi que não teve certo resfriado que cobriu de mantas, de caldos e pílulas seu impulso insano de ganhar o mundo pela cachoeira fria e cristalina por onde desciam nove mil canoas? E quem foi que não teve, estando gripado, o colo materno que jamais supunha o que se passava pelos seus miolos na febre que ardia? Pergunto: sim, quem foi que não?

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Comentários

  1. Nilza Amaral9:04 AM

    Sua sirigaita me inspirou,Marcelo!

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  2. ATPROL - Atitude em Prol da Sustentabilidade do Planeta9:07 AM

    Quem não teve uma tia mais nova que a mão que olhava o sobrinho e dizia para quem quizesse ouvir que " As tias que deviam acabar com a virgindade dos sobrinhos";

    Quem não teve duas primas que quando iam para a casa da avó eram colocadas para dormir num colchão enorme junto ao primo;

    Quem não tem um pai que tinha um pé de bode carroceria que nos fins de semana levava a família no campo para colher gabirobas;

    Quem não teve uma amiga mais velha que pedia para voce guardar o baseado dela;


    As coisas que nós tivemos foram únicas para nós, apesar de serem comuns .

    ATPROL
    Atitude em Prol da Sustentabilidade do Planeta -

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  3. Quem foi que não teve um íntimo prazer ao acordar febril numa segunda-feira, matar aula, ser paparicado com suquinhos e sopinhas e passar a manhã deitado no sofá assistindo desenho... muito legal, meu caro...

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  4. Marco Antonio Rossi5:07 AM

    caro amigo

    quem foi que não teve um amigo que nos trouxe as lembranças do nosso dia a dia como se olhassemos no espelho?
    obrigado mais uma vez pela bela crônica que nos leva a refletir....
    Abç
    Rossi

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  5. Ana Maria5:09 AM

    muito legal! Marcelo!!!

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  6. Giovani8:09 AM

    oi, marcelo,
    já viu o convite?

    ois, amigos.

    por ocasião do aniversário de cinquenta anos Brasília em 21 de abril de 2010, o Bar do Escritor (www.bardoescritor.net) homenageará a capital com uma rodada especial do ezine. a surpresa ficará por conta do editor, que será o maior e melhor poeta brasiliense, o candango que engoliu braxília: NICOLAS BEHR.
    para tanto, peço a todos que se aventuram nas letras para enviarem seus textos tratando da capital para:
    editor.bde@gmail.com
    até o dia 10/04/2010. podem ser contos, crônicas e poesias, preferencialmente de tamanho reduzido e acompanhadas por uma minibiografia do autor e um link para contato.
    participe. divulgue.

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  7. Virei hoje a esquina - que viro todos os dias - e dei de cara com a veia torta, a calculadora pesada e os zeros a esquerda... saí em busca da canoa... mas de tanto que choveu, o mar virou e a canoa não saiu...ainda bem que não rolou uma febre tipo dengue para completar o quadro! rs

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  8. Luiz Eduardo Andrade Vilela8:11 AM

    Marcelo,
    boa noite!

    Vc não consegue imaginar como suas palavras não formam sopa de letrinhas qdo as devoro . . .
    Formam estórias, lembranças, coisas boas!
    Parabéns,
    continue.
    Luiz Eduardo - Porecatu - PR

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  9. Mildred8:02 AM

    Já lí o último, e continuo sendo sua fã!!! Bjs, primo, tudo de bom!!!

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