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DUELO À FRENTE DE UM PRATO DE COXINHAS


- Tim-tim!
- Saúde!
- Bom, onde é que a gente tinha parado mesmo?
- Sócrates e seus seguidores.
- Ah sim, claro. Numa perspectiva hedonista, é evidente a influência do iluminismo como mola propulsora da morfologia intramolecular...
- Ok, da qual derivou, décadas mais tarde, a hermenêutica mineira contemporânea. Tudo bem, isso é óbvio e incontestável para qualquer guri de 5 anos. Mas daí você generalizar, atribuindo a Cervantes a fundamentação da hidrofobia, vai uma enorme distância...
- Permita-me discordar. Veja por exemplo a exegese adstringente dos sonetos de Petrarca. No estrito sentido do léxico, conjectura-se ser pura fenomenologia endógena, pelo menos numa primeira análise.
- Em termos, em termos. Afinal, Donaldson é quem efetivamente fez a ponte entre o parnasianismo tardio e Paulo Coelho. Isso dentro da retórica fonética do ser, enunciada por Kant com muita propriedade.
- Contanto que fosse uma suposição empírica, comumente compreendida na estética gamaglobulínica.
- Mas as mutações no tecido social sempre prevalecem sobre a silepse antropológica. Silepse que, aliás, tem em Nietzsche seu mais ferrenho defensor. Te peguei, hein. Sai dessa agora!
- Por mais que a ciência lance luz a essas indagações, a ablação cinética do conservadorismo sempre será objeto, na acepção anímica, de um redesenho neo-positivista que age antagonicamente aos receptores de protease. Ficou clara a diferenciação?
- Na realidade, Pound, em toda sua obra, contextualiza a intersecção geomórfica, ainda que de forma veladamente dúbia, se tomarmos como parâmetro o determinismo puramente iconoclasta.
- Veja bem, o que eu defendo, do ponto de vista enunciado por Homero na Ilíada, é que a bissetriz não tangencia a prosódia de Lacan, qualquer que seja a natureza do objeto em questão.
- Alto lá, meu amigo. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Se Hahnemann, ao lançar as bases da homeopatia, não tivesse uma mãozinha do Padre Vieira, como explicar a queda da Bastilha enquanto divisor de águas no estudo das pororocas ? E digo mais: se fôssemos levar essa sua premissa como verdadeira, estaríamos admitindo o Molibdênio e seu número atômico como desencadeadores do efeito estufa. O que, convenhamos, é uma sandice.
- Discordo redondamente.
- É desanimador sentir o colega tão refratário à lógica quântica.
- Não tenho culpa se você é retrógrado e insiste em defender a representação metafórica, que extrai da identidade do objeto racional sua própria subjetividade transcendente. Ou você vai continuar negando que o Recôncavo Baiano na verdade é Reconvexo?
- Sim como aforismo. Jamais como axioma.
- Não, não. Você não entendeu aonde eu quero chegar. Tome, por exemplo, essa coxinha que repousa gordurosa à nossa frente. É uma reles coxinha, que não se sabe coxinha. Não tem a consciência de sua “coxinhicidade”, ou sua essência salgadística, entende? É o eterno conflito entre Eros e Tanatos, Sísifo e Prometeu.
- Deixe de ser simplista. A dicotomia aristotélica não se abstrai assim, num maneirismo niilista de contornos platônicos.
- Então, mas...
- Espera aí, deixa eu só concluir o raciocínio. A ambivalência, no contexto glauberiano, pode e tende a ser congruente. Caso contrário, a catarse sinóptica de Eleonora Duse lançaria por terra essa sua teoria. Ou melhor, sua falácia.
- Sei. De onde se supõe uma retomada da síntese diastólica.
- Então, é justamente esse o ponto. Taí a signagem termo-acústica que não me deixa mentir.
- E que não te deixa raciocinar, pelo jeito.
- Está partindo pra ignorância?
- É. Quem sabe assim você me compreende...
- Olha a baixaria!
- Ora, defenda-se com argumentos. Válidos, racionais, insofismáveis. Ou então, renda-se. Tenha a humildade de abandonar a partida ao antever o cheque-mate.
- Seguirei seu conselho. Tô indo embora.
- Ei, espera aí. A gente combinou de rachar a conta.
- Parafraseando Schopenhauer, te vira Mané. Tchau mesmo.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. desconhecia a tirada manezística do Schopenhauer, caro amigo... o embate intelectual testemunhado pelas coxinhas foi profundo e eivado de lições duñescas...

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  2. E a tal coxinha foi assim abandonada sem mais...

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  3. Jorge Eduardo Magalhães2:15 PM

    Caros amigos
    Meu romance Vagando na noite perdida já está à venda no site da Editora Multifoco. Com certeza vocês vão gostar do romance não vão conseguir parar de ler ´do início ao fim. o site é: http://www.editoramultifoco.com.br/catalogo2.asp?lv=257
    Maiores detalhes sobre meu trabalho em meu blog: www.jemagalhaes.blogspot.com
    Abs
    Jorge Eduardo Magalhães

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  4. Rosa Pena10:09 AM

    Começando a colocar minhas leituras em dia.
    E é sempre ótimo começar por você.
    beijo
    rosa
    www.rosapena.com

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  5. Marco Antonio Rossi10:47 AM

    se tivessem contratado um papibaquígrafo, a Marta Rocha não teria perdido o Miss Universo.....
    Abraço
    Rossi

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  6. Sandra Nogueira1:13 PM

    Marcelo, apesar de não ser fã de coxinhas adoraria ter participado desse papo tresloucado. Não foi daí que se originou o Samba do crioulo doido? abração

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  7. Evelyne1:10 AM

    Eu pago essa conta, Marcelo! Mais uma vez adorei ler você, amigo! Beijos e ótima semana!

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  8. Elizete Lee1:10 AM

    Marcelo, como sempre nos brindando com a sua irreverência. Bem que daria um esquete com os personagens dos Normais. Abração

    ResponderExcluir
  9. Elizete Lee6:30 AM

    Marcelo, como sempre nos brindando com a sua irreverência. Bem que daria um esquete com os personagens dos Normais. Abração

    ResponderExcluir
  10. Nubia8:19 AM

    E as coxinhas impassíveis relegadas
    a sua triste sina, porém prazerosa.
    Delicioso texto.
    Parabéns.
    Abraços

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  11. José Carlos Carneiro4:23 PM

    Putz! Ri às pampas, pelo seu profundo filosofar, penso que lá pra cima da estratosfera. Isso me fez pensar que em outra dessas você provavelmente vá descobrir qual foi a influência do clima do centro-oeste do Azerbaijão na descoberta da quadratura do círculo. Ou nas probabilidades improváveis de que Darwin nunca pensou que sua "A Origem das Espécies" fizesse tamanho rebuliço nas cabeças do Freud e do Jung, do Dalai-Lama, do Confúcio e mais recentemente na do Paulo Coelho. Aguardo a próxima. Ah! A próxima já veio - Nothing Man. Eu é que estou atrasado, pra variar. Um abraço e ótimo fim de week para você e família.

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  12. Nossa esse foi demais...gostaria de ter participado dessa conversa, e pode deixar que eu como a coxinha só não pago a conta...kkkk

    um abraço

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