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É O AMOR




- Tá fazendo 12 graus e esse ar condicionado ligado no extra cool. A ideia é me matar mesmo, docinho de coco?
- Se quisesse te matar de verdade usaria um expediente mais assertivo e de curto prazo, uns três ou quatro comprimidinhos de alta eficácia diluídos no seu Martini das seis e meia ou algo assim. Pra que ter que aguentar você reclamando, balbuciando um discurso patético antes de morrer? Uma pneumonia, se instalada, custaria a te matar. Não, não. Prefiro uma estrebuchada só, sem muito resmungo.
- Bom, se ainda te sobrar um quezinho de cavalheirismo e puder me dar a chance de escolher, espere que eu durma e meta-me de uma vez um tiro no ouvido. Pelo menos é indolor. Li numa reportagem que nesta modalidade não dá tempo do cérebro da vítima ordenar para que o organismo sinta dor. Você se livra de mim mas não me faz sofrer. Tudo bem assim?
- Ok, e você acha que a essa altura da nossa falência afetiva ainda há espaço para direitos humanos? Morrer tem que ser doloroso, pelo menos em se tratando de você. Tem que ser sentido até o estupor dos nervos. Eu quero que a sua derradeira experiência seja vivenciada na plenitude, se é que a morte pode ser vivenciada, entende? Mas também não pode demorar muito, não. Jogo rápido. Eu não agendaria o dia todo pra uma tarefa tão reles.
- O que eu não entendo é porque você se preocupa tanto com os requintes de crueldade. Ainda se eu tivesse um mínimo de importância na sua vida, vá lá, mas não é esse o caso. Você dá a mim uma relevância imerecida. Menos, por favor, menos. Guarde seu ódio pra quem seja digno dele.
- Discordo, amor. Você faz jus a procedimento VIP. Não tente tornar simplório o desfecho de uma relação tão complicada quanto a nossa. O pouco tempo que eu me disponho a perder com o servicinho tem que ser bem aproveitado, a experiência precisa ser gratificante. Consideremos um histórico gran finale, não menos que isso. E depois tem a trabalheira toda em sumir com o corpo, não deixar pistas, tudo isso vai me tomar horas de calculada logística e é razoável que eu seja recompensado de alguma forma. Você precisa entender que a sua morte, pra mim, tem que ser uma grandiosa e inesquecível experiência de vida. São segundinhos preciosos que eu quero saborear como quem degusta um Chateau Petrus num castelo da Normandia. Mas isso tudo estaria em pauta se eu quisesse te matar de verdade, só que por enquanto ainda não cheguei a este extremo.
- Fico sensibilizada, e é pena não poder dizer o mesmo.
- Seja mais explícita.
- A pizza de agora há pouco. Aliche estragado, dependendo do estrago, é fatal. E a minha metade era só de escarola. Fresca e saudável escarola. Sorry.



© Direitos Reservados

Comentários

  1. rs rs esses vegetarianos desembestados... gente radical e perigosa!!!! ;)


    Boa semana, Marcelo, ótima crônica!!

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  2. Paschoal Motta5:13 PM

    Marcelo, aí de meu:

    FALTA

    Paschoal Motta



    a mão amacia aflita
    uma aspereza de pedra

    neste duro afastamento



    amacia a pele no vento

    de um corpo difícil

    neste espaço vazio



    cego, o olhar vigia

    no escuro da espreita

    a luz de sua manhã



    a mão, a sua, acalma,

    descerra a cortina

    neste medo e espanto



    as nossas, separadas,

    tateiam fundos topázios

    nos veios dos desejos



    e surgirá nas mãos

    o fulvo ouro dourado

    de riqueza e oferta

    (Antologia de Poemas Para a Juventude, inédito)

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  3. Cris Gracioli1:12 PM

    E quanto amor!!!

    hahaha

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  4. Que confluência nitroglicerínica de sentimentos... o diálogo é bem Woody Allen com temperos marcantes sguassábicos... o talento a serviço do deleite daqui agora também no Twitter.
    abs

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  5. Sandra Nogueira4:25 PM

    Marcelo, não quero cometer redundância falando do primor que são textos. Mas, você pode até ser contratado como consultor para desvendar mistérios dos amores/desamores doidos que andam por aí. um beijão Sandra

    ResponderExcluir
  6. Alberto5:02 AM

    Muito bom mesmo. Adorei.

    Enviei o link pra alguns amigos meus.

    Abraços, e boa semana

    Atenciosamente,

    Alberto Maffei

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  7. Marco Antonio Rossi5:51 AM

    É REALMENTE O AMOR MATA.......
    ABÇ
    ROSSI

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  8. Evelyne2:21 PM

    Como não me repetir ao me referir aos seus textos, Marcelo? Está excelente! O fim do amor levado ao extremo , porém recheado com humor. Beijo e boa semana!

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  9. Ana Maria9:12 AM

    Que amor!

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  10. Boa, Marcelo!

    Aliche estragado como arma letal!? Parece improvável, mas cai muito bem no contexto.

    Não pude deixar de me lembrar da fatídica torta de salmão no Sentido da Vida.

    Abraços

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