Pular para o conteúdo principal

NOTHING MAN


Na verdade, o que irritava demais era que o sujeito parecia uma caneta muito gasta e quase seca, de design ultrapassado, tampa mordida e serventia duvidosa até para a própria mãe, os irmãos e os vizinhos da frente que o ajudaram a criar.

Dava aflição e pena só de passar o olho no sempre esticado ser humano, mole ali no sofá mais mole ainda, feito boi na engorda – com a diferença que o quadrúpede, ao contrário dele, costuma passar a maior parte do tempo de pé. E não é mentira dizer que bastava terminar o almoço pro elemento já ir tratando de cavar espaço no bucho pra caber a janta, na adivinhação do que teria à mesa pra se refestelar até que não houvesse mais vaga disponível para um tremoço ou uma mísera azeitona sem caroço.

Com essa vida sem prestança o moço durou pouco sendo moço e logo logo rendeu-se ao definhamento, pelo uso muito continuado de certas partes do corpo e pelo desuso completo de outras. Ficou aquele velho que é ancião de tenra idade, acabado antes da hora, alvo de comentário e exemplo de mau exemplo. Do jornal só lia horóscopo, e nele se fiava mais que nos profetas do Antigo Testamento, mais do que no pronunciamento do presidente do Banco Central sobre a taxa de juros e mais até do que em fofoca de tia viúva – e dessas tinha duas que valiam por dúzias. Ô velhas mexeriqueiras, que quando apareciam com seus tupperwares lotados de biscoitos de nata traziam junto sacolas de injúrias e difamações sobre todo ser vivente da cidade, especialmente a parentada da zona norte. A sorte é que ambas, Aurora e Lélia, só muito de vez em quando surgiam e logo caíam fora após alguns jorros caudalosos de infâmia, deixando-o novamente às voltas com os botões do seu pijama.

“Esse cara aí é herdeiro de cartório”, diziam alguns à primeira vista, vendo aquele monumento à preguiça zapeando a tarde toda entre desenhos animados e alternando o trabalho das mandíbulas entre sacos de balas chita e bolinhos de chuva. E a chuva caía mansa como ele nas paragens que habitava, tão sem vontade de cair que em sua moleza o levava a meditar, pra descansar um pouco do estafante esforço de fazer coisa nenhuma.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Vivas, vivas, mas sem muita empolgação pra não cansar, à crônica que é uma reverência ao Caymmi way of life.

    ResponderExcluir
  2. no comentário aí de cima, leia-se Lauro Senior no lugar de Lauro Rebento.

    ResponderExcluir
  3. Marco Antonio Rossi2:37 PM

    É MEU AMIGO A AUTOMAÇÃO LEVA À PREGUIÇA PLENA E ESTA A UM BICHO PREGUIÇA PLENO.....
    ABÇ
    ROSSI

    ResponderExcluir
  4. Sonia Alcalde4:35 PM

    Oi, Marcelo: Como sempre, bárbaro! E o homem, danado de largado. Lembrando uma poesia do meu marido: A preguiça é.../ ah, como estou cansado/ amanhã continuo. Bom fimde. Abração Sonia

    ResponderExcluir
  5. Ai, que texto bão, meu Senhor, com o perdão da escrita aí, como é bão (de novo) ser ressurpreendida lendo os seus textos inteligentes (hoje tomei liberdades com o português aqui, Camões que me perdoe).

    Então, agora, na linha, para falar corretamente: seu texto tem a força do vento aragano a abrir as janelas da casa do nosso amigo modorrento... inteiro, envolvente e ritmado...

    Bjo, Marcelo, boa semana!

    ResponderExcluir
  6. José Carlos Carneiro5:25 AM

    Frases magníficas e um enfoque de quem sabe observar, como poucos, as facetas de uma certa realidade que somente quem é autêntico voyer de um cotidiano possível consegue captar.

    ResponderExcluir
  7. Evelyne Furtado5:29 AM

    Preguiça, malediicência e gula. Esses pecados ganharam contornos novos em suas palavras, Marcelo! É muito bom ler você! Bjs e boa semana, amigo.

    ResponderExcluir
  8. Maria Inês Prado4:37 PM

    Marcelo, Você retrata, com sátira refinada, a realiidade de boa parcela da humanidade: clicks x comilança. Abraço, Minês

    ResponderExcluir
  9. Nubia4:28 PM

    Uma escolha que não abre espaço
    para arrependimentos, frustrações
    ou medo.
    Pensar e agir? Para quê?
    Respeito sua escolha e lá no fundo
    acho que muita gente queria viver assim...parasitando.
    Ótimo texto

    ResponderExcluir
  10. Mara Narciso8:17 AM

    Gostei bastante da sua avaliação da construção da obesidade. Assunto sério, mas aqui tratado com graça e bom-humor.

    ResponderExcluir
  11. Hoje em dia o que tem gente que prefere em frente de uma TV ou PC, principalmente os nossos jovens que não querem mais saber de nada, almoçam e correm para o PC, pois a TV já nem tanto mais, pois no PC já se pode assistir TV....e a vida passa e quando eles olham para o espelho vão ver como perderam tanto tempo de suas vidas.

    Um abraço

    ResponderExcluir
  12. Oi.Eu conheço uma pessoa assim,TV,biscoitos,doces de banana e procurar nos jornais o que se tem de novidade sobre doenças ou uma nova doença.Se alguém reclamar,ai fica doente.Isso é muito chato.

    Abraços,Lúcia

    08/05/010

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…