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FILHO DA MÃE


Começando do começo: sou eu a mãe daquele filho da mãe. E chamam-no assim de forma caluniosa e sem motivo aparente – embora o fato de ser filho da mãe, por si só, implique na constatação óbvia dele possuir uma genitora, coisa que qualquer ser humano tem ou teve um dia.

Mas vocês sabem muito bem do que estou falando, em se tratando do meu famoso e difamado filho, que começou no futebol de várzea e hoje honra os quadros da FIFA. Ao longo do tempo regulamentar o filho da mãe acaba virando filho de outra coisa, conforme os ânimos na arquibancada se acirram e a cerveja faça o seu maldito efeito.

Não é possível que essa injustiça se perpetue impunemente. É preciso que entendam que o que ele faz ou deixa de fazer dentro daquelas linhas brancas é problema dele, e não culpa minha. Meu filho é maior, vacinado e age de acordo com suas convicções, abalizadas logicamente pelas regras do esporte bretão. Só que existe uma coisa chamada julgamento subjetivo, e para isso inventaram o árbitro. Sua decisão é soberana, e se esta deve ser respeitada, por mais controversa que seja, porque não também a reputação de sua mãe, que nada tem a ver com a história e nem em campo está?

É engraçado e revoltante. O irmão caçula dele também é juiz, só que de Direito. Nunca, ao anunciar uma sentença, alguém no tribunal se levantou para, aos berros, questionar a conduta moral e sexual desta que vos fala. Até porque, se o fizesse, seria metido imediatamente atrás das grades por desacato à autoridade. Mas o destino, com seus caprichos insondáveis, quis que eu fosse ao mesmo tempo meretriz e mãe de meritíssimo. Vai entender.

Domingo, dia 9, tem jogo. E ouvi dizer que o meu filho, em minha homenagem, combinou com a emissora de TV que vai cantar antes da partida aquela musiquinha que fala do “avental todo sujo de ovo”. Já estou até vendo, vai ser mais ovo em cima de mim. Chega. Pelo amor de suas mãezinhas, trégua!

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Marcelo!

    Recebi sua postagem por e-mail.

    Sempre quis ler algo assim. Não tenho filho juíz, mas tenho filhos que já me deram cartão vermelho e não são juízes (as) de futebol.

    Muito boa sua postagem, estarei lhe seguindo!

    Forte abraço

    Mirze

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  2. Olá, Marcelo. Amei o seu texto.Aliás, se hoje me chamarem de "Mãe de juíz de futebol", ficarei ofendida. Melhor que me xinguem de outra forma, pelo menos a torcida do Corinthians não fica sabendo.
    Grande abraço. Continue me enviando suas postagens.Fico feliz com o carinho.
    Obrigada
    Rita

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  3. Miriam de Sales Oliveira6:50 AM

    Marcelo,vc é DEMAIS,meu caro! Que crônica extraordinária.
    Quando eu crescer quero escrever como vc. rsss bjks

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  4. Oi, Marcelo!
    Que coisa bem feita!...
    Adoro "jogo" de palavras, até porque nesse campo não há ofensas e sim "licenças...
    Abração!!!
    Acho que preciso crescer muito para escrever como você!...rsrs
    Bernadete Valadares-Felixlândia-MG.

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  5. Olá Marcelo,confesso que fiquei "reticente" quando li o título.[rs]
    Olha...GENIAL sua crônica.
    Muitos, mas muitos "parabéns".
    Lembrei daquela sabedoria popular:

    “Todo pai sonha em ver o filho dentro de um campo de futebol. Toda mãe reza para que não seja como juiz.”[rs]

    Não paro de falar, culpa da sua bela crônica. Quanto ao juiz de direito, do jeito que a nossa "justiça" vai, sei não...[rs]
    Um beijo

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  6. George Lee8:39 AM

    Muito bem colocada a sua cronica. O que as mães têm a ver com o que os filhos fazem? Apesar do seu humor tradicional, há de se refletir no texto como cometemos injustiças àquelas que se tornam o bode espiatório das desavenças humanas.
    Abração

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  7. É como dizem. Juízes de futebol têm duas mães; uma preocupa-se com o filho, equanto a outra, fictícia. está saindo do prostíbulo.
    E não adianta chiar! Muito bom texto, Marcelo.

    Abraços
    Jorge

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  8. Caro Marcelo,
    Toda mãe reza pelo sucesso dos filhos...mas alguns sucessos amargam o seu preço...no caso dos árbitros de futebol quem paga o preço são as mães...rss.
    Parabéns pela leveza e humor do seu texto. Já estou a seguir seu blog.
    Apareça também no meu "baú" de palavras que se guardam...será bem-vindo.
    Um abraço,
    Genny

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  9. As "santas" das arquibancadas vão levar essa sua oração nas bolsas. Já há rumores que o Arnaldo "a regra é clara" vai ler a sua crônica na próxima jornada esportiva global. Apitos vigorosos do fã.

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  10. Oi Marcelo,genial!Porém,a mãe do juiz não precisa se ofender porque nós temos três mães,uma é a mãe do céu,a outra é realmente a própria e a terceira são as vagabas que por venturas o nosso pai conguista por aí.
    Essas são as verdadeiras f.p. e muito mais.

    Abraços,Lúcia
    08/05/010

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  11. Anônimo5:35 AM

    oi marcelo adorei saiu do convencional foi o bom dia das mães mais lega que recebi.

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  12. Ana Christina Victorelli6:28 AM

    Muito bom, coitadas destas maezinhas, né???
    Sempre tão lembradas aos domingos..., bjos

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  13. Elizete Lee1:24 PM

    Deus abençoe a sua mãe, por ter gerado uma pessoa tão criativa como você. Abração e bom domingo

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  14. Sonia Alcalde1:25 PM

    Começando do começo: sou eu, a leitora fã que também é mãe. Como és filho da mãe, sem sentido futebolístico, transmita àquela que te gerou, onde quer que ela esteja, o carinho da cariucha. Abração, bom domingo.

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  15. Perfeito, meu caro. Muito bom o texto, como sempre. Parabéns pelo blog por aqui.
    Grande abraço.

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  16. Mis saludos desde Santiago de CHILE, un gusto mirar-leer su espacio de comunicación y cultura,

    abrazo grande,

    Leo Lobos

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  17. Marco Antonio Rossi8:24 AM

    é meu amigo, apesar de tudo isso, o futebol vai continuar a depender do juiz, bem como os jornalistas para discutirem as ações tomadas por eles durante a partida........é o IBOPE que manda...portanto álguém tem que ser sacrificado em nome do jornal do dia....
    abraço
    Rossi

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  18. Eliane Gonçalves8:30 AM

    Olá amigo!
    Estive em viagem, visitando a minha mãe.
    Obrigada pelo envio dessa mensagem tão especial pelo Dia das Mães.
    Que Deus continue abençoando a sua vida.
    Um beijinho
    Eliane

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  19. Billy Shears2:36 PM

    Esse carinha é um tremendo filho da mãe na arte de saber usar as palavras. Parabéns amigo, Deus te proteja sempre!!!!!!!!! Abraços

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  20. Celi Gustafson Estrada4:28 PM

    Obrigada Marcelo por dividir comigo a emoção dos seus textos.

    Celi

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  21. Eduardo Lara Resende4:46 PM

    Excelente como sempre, meu caro Marcelo! O avental todo sujo de ovo, então... Nostálgico! Da gema (sem trocadilho)!
    Abraço grande.

    Eduardo

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  22. Domingo de dia das mães com jogo, tenho pena da mãe dos tais filhos no almoço que não deve ter ocorrido... só ovo!!!! rs

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  23. Evelyne8:13 AM

    Que bom que você deu voz - e que voz!- à mãe do filho, tão injustiçada, coitada! Que bom ler você, Marcelo! Beijoj e boa semana, amigo.

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  24. Marcelo,
    Mto bom o seu texto, gostei mto. Voltarei mais vezes.
    Perdoe-me por não ter podido atender ao seu convite antes.
    Obrigada,
    Abraço

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  25. Ana Lucia Finazzi4:41 PM

    Oi Primo
    Muito bom, outra vez. Sinto-me particularmente comovida pela aboradgem do tema, na condição de mãe de boleiro. Eu não sei porque o povo insiste em xingar a mãe dos outros, pois os filhos de hoje em dia já nem ligam mais pra coisa. Se querem ofender, deviam xingar as mocinhas do Big Brother. Ofenderia mais.
    Quanto à música a que você se referiu, mencionei em uma recente palestra para os jovens de minha igreja. A ironia de que ela era uma rainha com um chinelo como cetro e um avental sujo de ovo como vestes reais, é pra constranger as mulheres de Atenas!

    beijão
    Prima

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  26. Belvedere12:01 AM

    Mas vocês sabem muito bem do que estou falando, em se tratando do meu famoso e difamado filho, que começou no futebol de várzea e hoje honra os quadros da FIFA. Ao longo do tempo regulamentar o filho da mãe acaba virando filho de outra coisa, conforme os ânimos na arquibancada se acirram e a cerveja faça o seu maldito efeito.

    Aí a coisa pega mesmo!
    Bjssssssssss

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  27. Mara Narciso12:15 PM

    " O avental todo sujo de ovo" entrou nessa música igual ao Pilatos no credo: não tem nada a ver. Caso não rimasse, lá não estaria.Francamente, mesmo quando menina, não gostava dessa mãe descaprichosa.
    Destaco: " filho de outra coisa, conforme os ânimos na arquibancada se acirram e a cerveja faça o seu maldito efeito."

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