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ZEUS ASSIM O QUIS


(Pequeno exercício de escrita automática)

Zeus, num raro acesso de generosidade, resolveu dar permissão. Sim, o barbudão de pouca prosa e nenhum riso, imagine. Licença concedida, abrimos a golpe de faca o compartimento estanque, guardado a segredo de cofre e venerado feito sudário. De cara um fusca 74 nos esperava além de longe, desde meados de nunca. E esperava inerte qual relógio da matriz velha, com os dois ponteiros soldados pelo zinabre dos anos, aqueles da antitristeza das balas de coco geladas, da bola nova cheirando a couro e com a etiqueta de preço, do chenile do sofá na sala imensa de estar e ser, e estando lá, permanecer até o findar da tarde e o chegar do sono. A vizinhança toda em seu rodar de carrossel, natais se anunciando desde outubro com seus piscas, torresmos defumando vinte alqueires de sertões. E você lá, branca das parafinas de crisma e de primeira comunhão, crescendo a cinco centímetros por hora e tomada do desejo de correr países outros de fronteiras bambas, montada em bicho de zanga - belo e premiado produtor de estrume azul, uma coisa quase que da estimação do mundo de tão lindo que era. Aproveitamos a chance enquanto Zeus deixava. E Zeus deixou mais um pouquinho, porém não mais que o estritamente necessário.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Bravo, meu caro Marcelo! Chenile no sofá, natais se anunciando desde outubro.... Nostalgia boa e bem expressa.

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  2. Verdadeiro exercício livre de prosa, um improviso assemelhado aos que fazem os músicos, pricipalmente de jazz. Muito bom!

    Abraços
    Jorge

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  3. Excelente, Marcelo!!!!

    Crescer centímetros por hora...branca, alvura de crismas e eucaristias.

    Fantástico! Não fosse Zeus, e deixasse mais que o estritamente necessário, a graça, sucumbiria.


    Bravíssimo!

    Parabéns!

    Beijos

    Mirze

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  4. Marcelo,

    Que linda época, natais, vizinhança, primeira eucaristia, carnes defumadas; saudade boa da infância e doces lembranças da felicidade ingênua.
    Fico a imaginar que momento mágico o inspirou a escrever esse lindo texto.
    Abraço,
    Angela

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  5. Ana Christina Victorelli6:12 PM

    Adorei !!!!! Lindo !!!! Bjos e uma ótima semana p/ vc !!!

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  6. Mary Maia12:11 AM

    Olá, meu amigo querido!
    Estou acompanhando tudo na nova página, viu? E adorando!
    Cá entre nós, vai ter ideia boa pra escrever assim lá na EPTV, hein? Quantos temas legais.
    Bom, sou lá de Santa Rita do Passa Quatro, você sabe, né? Qual mesmo o título da música finalista? - Texto sobre o Dedé...rsss
    Te gosto muito!
    Fique sempre bem e feliz - e esrevendo dessa forma tão incrível - Que "Zeus" assim sempre queira. Amém!
    Beijos
    Mary

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  7. Maria Célia Marcondes12:01 PM

    Muito bom!!!
    Gostei!!!

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  8. ...esta é a arte de escrever
    e escrever bem.

    escrever com a alma é coisa
    para poucos!

    que Zeus te permita mais do
    que o necessário, e assim
    pegamos carona na emoção!

    bj

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  9. Olá...Marcelo, que Zeus te abençoe. e que mantenha seu "automático" reguladíssimo, no ponto, como já está. Genial!!!
    Adorei!!!

    Beijosss

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  10. Curto. Intenso. Um golpe breve, poético. Uma raridade tal qual o estrume azul.

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  11. Carrossel Mental.
    Fronteiras Líquidas.
    Navegação segura do leme.

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  12. Marcelo,

    Texto enigmático e poético. Que Zeus sempre nos permita!

    bjs.

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  13. Marco Antonio Rossi9:07 AM

    bOM DIA MEU AMIGO.

    ACHO QUE NÃO ERA FUSCA E SIM UM DKV.
    ABÇ
    ROSSI

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  14. Evelyne9:30 AM

    Um belo exercício, Marcelo! Bom para ler e reler enquanto Zeus permite! Adorei! Bjs e ótima semana, amigo!

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  15. Bruja del aire - Santa Cruz de la Sierra9:31 AM

    Disfruté la lectura

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  16. Mara Narciso11:35 PM

    Qualquer episódio é desculpa para montarmos na máquina do tempo e viajarmos para um lugar que nos espera. Zeus deixando, até os quadrúpedes evacuam na cor azul.

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