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MUROS


Se é preciso existir muros, que sejam de preferência cobertos de musgo espesso, góticos, úmidos e solenes, como que saídos de um filme de Tim Burton. Muros de hera, infiltrações e descascados, menos delimitadores e de alguma forma mais humanos, mesmo sendo muros. Possa o seu reboco ser bem mole e esfarelento, e aceite de bom grado o nome de quem se ama pichado ou em baixo relevo – o que for mais fácil e menos perigoso, antes que alguém chegue e transforme a ocorrência em boletim. Que escore o amasso dos amantes e acolha as lamentações se houver pranto a pôr pra fora, desde que esse pranto seja sereno e silencioso a ponto de não assustar as crianças que brincam lá do outro lado. Lá, onde o muro é de outra cor e testemunha histórias outras. Natural que o muro faça divisas, pois para isso foi erguido, mas que não cause divisões e sirva mais para proteger homens, cachorros e roupas no varal que para demarcar feudos de Mefisto. Não deixe que estraguem o muro tornando o muro trincheira, com cacos de vidro e arames farpados. O muro é propriedade do mundo e de ninguém em particular, muros devem ser muros pelo direito dos muros existirem e mais nada. Se há os que prendem há também os que são lousas de poema, e é triste que os primeiros sejam tão menos raros que os segundos. Os muros que se prezam têm buracos de um lado a outro, são comunicantes para as trocas de receitas, fofocas e gemidos comprometedores. Mantenha, por favor, esses buracos largos o bastante para que a vida alheia se devasse e se escancare, fazendo a delícia dos vizinhos. E para que a maledicência, esse defeito de fabricação da raça, possa se espalhar insidiosa pelo quarteirão.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Meu caro Marcelo, o seu texto é inspirador e é poético. Mas permita-me: sobre muros há que ter cacos de vidro. É modo de impedir que caminhem ou permaneçam em cima deles.
    Abraço amigo.

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  2. Marcelo,
    que descrição mais reflexiva sobre a utilidade dos muros nos dias atuais.

    Pude delinear na imaginação o cenário. Estive nas próprias cenas do Tim dando de frente com Johnny Deep e seu par romântico.

    Quanto aos cacos de vidro, bem, quem já viu uma criança ser mastigadas por eles por conta de uma pipa que caiu no quintal do vizinho, só pode abominá-los.

    Não são eles que impedirão os invasores.

    Um grande abraço

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  3. Marcelo:
    Ontem mesmo passei por um muro onde havia esta inscrição: "Você já leu poesia hoje?". Fico então pensando que aquele deve ser o muro que inspirou seu texto sobre muros, de cuja sensibilidade nem os muros se sabiam portadores.
    Abraços

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  4. Marcelo!

    Esses MURUS atualmente servem para tudo. Alguns oos usam de forma apropriada, como você e o Profeta Gentileza.

    Outros uns erguem muros sem razão, como o Muro das lamentações, na minha visão.

    Há muros invisíveis ao olhar: Muros de silêncio mais forte que o aço. Neste não ha brechas, nem como escapar.

    Perfeito!

    Parabéns!

    Beijos

    Mirze Souza

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  5. Gosto de muros velhos que mostram a passagem do tempo.
    Acompsnhsrsm s história do lgar e das pessoas.
    Quando coberto por musgo, ficam patinados qual pintura. Cobertos de hera, são elegantes em trajes de eterna festa...

    Abraços, Marcelo
    Jorge

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  6. É um alívio perceber que há quem pense assim, ou nem pense, que muro não pode ser arrolado entre conceitos filosóficos. Mas uma filosofia que leva a esse texto só pode ser benévola e cheia de doçura.
    Enfim.

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  7. Miriam de Sales Oliveira9:59 AM

    Marcelo,como sempre seus textos são encantadores.
    Vc me permitiria colocar no meu blog literário,juntamente c/ o anúncio dos seus sites?
    Mais pessoas precisam conhecer essas maravilhas construidas com as palavras.
    Ando muito ocupada c/ entrevistas e palestras e c/o lançamento próximo do meu 5º livro
    "A Bahia de Outrora",por isso ainda n/ fiz uma visita mais constante a os sites.
    abração

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  8. ...traigo
    sangre
    de
    la
    tarde
    herida
    en
    la
    mano
    y
    una
    vela
    de
    mi
    corazón
    para
    invitarte
    y
    darte
    este
    alma
    que
    viene
    para
    compartir
    contigo
    tu
    bello
    blog
    con
    un
    ramillete
    de
    oro
    y
    claveles
    dentro...


    desde mis
    HORAS ROTAS
    Y AULA DE PAZ


    TE SIGO TU BLOG




    CON saludos de la luna al
    reflejarse en el mar de la
    poesía...


    AFECTUOSAMENTE
    MARCELO


    ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE BLADE RUUNER ,CHOCOLATE, EL NAZARENO- LOVE STORY,- Y- CABALLO, .

    José
    ramón...

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  9. Oi.Meu muro,é o muro da poesia,do recado de amor e da conversa com o vizinho;sem vidro,sem arame.Meu muro é um muro do amor.
    Adorei o texto.

    Abraços,Lúcia

    05/06/010

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  10. O teu "Inviolável", lá embaixo??? Achastes os muros perfeitos para o buraco da fechadura.

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  11. Achastes não, corrijo - achaste.

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  12. Olá Marcelo,
    irreverente forma de
    idealizar o muro.
    Lindo!
    Terno beijo...

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  13. Celi Gustafson Estrada11:54 PM

    Obrigada Marcelo, você é dez! - Amei o texto sobre os muros. _ Ah! Não se esqueça: Quero conhecer o Dedé! _ CVVSV! _ Muito original o texto sobre “filho da mãe”. _ Agora, o Jobim brincando com Vinicius... Só você mesmo em originalidade!

    Abração

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  14. Adorei sua oração para o muro!
    Irei ter com o meu muro interno, esse que erguemos constantemente para separarmos o eu de nós mesmos. Esse é o pior muro que existe. Nele, não devemos nos encostar para lamentações.Devemos, pouco a pouco, colocá-lo ao chão.
    Gostei dos seus muros.
    Grande abraço
    Rita

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  15. ELizete Lee7:49 AM

    Sempre achei que os muros tem algo de poetico, e você com sua genialidade consegue transmitir esse sentimento. Quando quis fazer o meu jardim fiz questão que tivesse tijolo aparente e que houve muita hera a sombrear.

    Abração

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  16. Se inevitáveis os muros, assim sejam...

    abrs!

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  17. Tamanha sensibilidade e inteligência para poetizar os muros.
    Apaixonante esse texto e linda serventia para os amantes.
    Que bom ter conhecido seu blog, obrigada, obrigada e obrigada por mais esse deleite.
    Abraço

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  18. Mis saludos desde Santiago de CHILE, gracias y felicitaciones por este espacio, abrazo

    Leo Lobos

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  19. Rosângela Dias2:27 AM

    Legallllllllllll!!!!

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  20. Marcos Bolacha2:39 AM

    "MPS, adorei o texto "Muros". Ótimo como a maioria dos seus textos. Gde abraço!"

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  21. Bia Jacumini4:41 AM

    Ah! ... quanta lembrança do muro lá da casa onde morei a maior parte da minha tão saudosa infância .... Era um muro de tijolos aparentes, caiado, com uma porta de armário velho que me servia de lousa e o melhor ... era recheado de dentinhos de leite que mamãe me fazia guardar em cada buraco com a promessa de receber em troca, dentes melhores. Eu dizia uma rima mais ou menos assim: - Muro, murinho, eu te dou um torto e você me dá um direitinho! Deixo aqui registrado esse momento de alegria. Abraços 1000.

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  22. Ana Maria4:42 AM

    Muito bom texto velho amigo! Que nenhum muro separare a nossa amizade!

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  23. Cissa Oliveira4:43 AM

    Antes de abrir o seu texto, eu fui pensando sobre o que encontraria nele. Muros servem para separar e também para proteger. Mas você disse tudo muito bem e com muita poesiia. Abraço Cissa de Oliveira

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  24. Jeanine12:38 PM

    Sabe Marcelo no decorrer de nossas vidas como já li em alguns lugares, quando partimos deixamos um pouco de nós, levamos um pouco de alguém, ou as vezes simplemente partimos. Fico feliz em ter participado da vida de sua família Cris, Marcela e você claro, e trer trazido um pouco de você como "folgo em vê- la", e ter deixado um pouco de mim. Um forte abraço e quanto ao nossos muros que já devem estar um pouco mole e muito pixado pelos nossos admiradores e amigos. Ainda em tempo parabéns pelo 23 de março. Com admiração sempre Jeanine

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  25. Evelyne12:39 PM

    Um muro construído com seu talento e muito a meu gosto, Marcelo! Adorei tijolo, musgo e as intimidades vizinhas inocentemente compartlihadas. Abraço e boa semana,amigo!

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  26. Cristina Siqueira12:40 PM

    Oi Marcelo, Bom te ler ,sempre é bom. Muros são minha história de vida em um dia que libertei poemas grafando em sua concretude ... Um convite para saber deste trabalho.: www.tatuicidadeternura.blogspot.com E te espero no www.cristinasiqueira.blogspot.com Seu comentário é importante para mim. Com carinho, Cris

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  27. Nubia3:50 PM

    De preferência muros baixos e cercas sem arames farpados.
    Lindo texto Marcelo.
    Abraços

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  28. Sayonara Lino3:51 PM

    Maravilhoso. Parabéns, Marcelo!Abraço!

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  29. Mara Narciso1:56 AM

    Um caso de amor entre você e o muro que poeticamente perde a sua característica principal que é separar, para adquirir nova capacidade de unir. Você abordou tudo que um muro foi, como também o que poderá ser: personalizou o inanimado. Ficou muito gostoso de ler.

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  30. Belvedere2:40 PM

    Que poético, amigo! Adorei! Bjs

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  31. Marcelo,

    com um muro vc foi prá la de filósofo, adorei.

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  32. Parabéns, Marcelo! Fez de um simples muro um grande objeto para folosofarmos sobre tantas coisas corriqueiras da vida! Adorei o texto, de verdade. Continue assim, sempre. Abraços, Marina Toledo.

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  33. Cara, só o seu inesgotável talento pra tirar poesia de um muro. Vi no meu giro nórdico a ausência deles entre as casas. Lendo suas letras vi que a devassidão voluntária tira o mistério e o prazer voyeur. abs.

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  34. Sinceramente...Escrever sobre os muros é algo inovador. Nunca imaginei que existisse tanta poesia num muro. Ou se caberia um muro em tanta poesia. AMEI!!!

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