Pular para o conteúdo principal

QUEM QUISER QUE CONTE OUTRA


Num reino muito distante vivia Branca de Neve, que, já beirando os 50, entraria com uma denúncia no Procon ao constatar que não seria feliz para sempre coisíssima nenhuma, conforme prometera o estúdio de animação. Frustrada com o casamento, enganaria rotineiramente o príncipe sem maiores dramas de consciência, cada dia da semana com um anãozinho – mas sempre com camisinha. No caso, camisinhazinha.

O príncipe, ao cavalgar pelos arredores do reino enquanto era corneado, avistou um dia a casa de Prático, o mais esperto dos três porquinhos. Papo vai, papo vem e o futuro monarca convenceu o suíno a firmar sociedade com ele num frigorífico para produção de bacon sem colesterol e 0% de calorias. Mas Prático não foi esperto o suficiente para desconfiar que ele entraria com o bacon. Pensava que sua participação se restringiria à gestão estratégica do empreendimento, por conhecer a fundo o produto desde leitãozinho.

Emitido o atestado de óbito – e de burrice, o príncipe contrata o marceneiro Geppeto para fazer o caixão de Prático, cujo velório se realizaria após a missa de porco presente. Foi quando Pinóquio resolveu meter o nariz na história: “Meu faro diz que esse negócio de bacon light é muito promissor”, comentou ele com o napolitano vovozinho.

“Sou o sócio que todo empreendedor pediu ao Sebrae”, argumentou Pinóquio ao visitar o príncipe em sua fabriqueta de toucinho. “Se mentir ou tentar enganá-lo, meu nariz me denunciará”. Mais que convincente, o argumento era irresistível. Tinha à sua frente o sócio ideal: um sujeito compulsoriamente honesto!

Mas se associar empresarialmente ao príncipe não significava garantia de recursos fartos. A arrecadação de impostos no reino se resumia a umas poucas patacas, graças à inoperância da máquina administrativa. O jeito era arrumar um terceiro sócio – o capitalista. De imediato Pinóquio lembrou-se de Dona Baratinha, a que tem fita no cabelo mas jamais deixaria o dinheiro na caixinha: todos sabiam que aplicara tudo, incluindo o espólio de João Ratão, num fundo de investimento agressivo para ter lucro rápido e desbaratinar, pegando onda em Saquarema. (A título de curiosidade, João Ratão empanturrou-se até a morte com o bacon de Prático, um dos muitos pertences da substancial feijoada da Senhora Baratinha).

Ao ser consultado para aceitar a proposta, o famoso inseto da família dos blatídeos esquivou-se, alegando os planos de desbaratinamento acima citados e que já estava de malas prontas para a paradisíaca cidade fluminense. Mas indicou o Gato de Botas como parceiro no projeto, embora o felino tivesse sido um perseguidor implacável do seu amado João Ratão, nos porões de uma repartição pública.

Longe há muitos anos da burocracia estatal, o Gato de Botas andava agora de rabo preso ao jogo do bicho. Com as patas sobre a mesa do seu bunker e cofiando calmamente seus bigodes, recusou com polidez a oferta de Pinóquio e do príncipe: “O convite é tentador, mas não é zoológico abandonar nesse momento os meus negócios. Já falaram com o Shrek? Também ouvi dizer que a Cinderela, com aquela carinha de santa, tem cem mil contos de fada depositados na Suíça. Aposto que não sabiam disso, né. Um verdadeiro golpe de mestre...”

- Mestre... claro, o anão! Como não pensamos nele antes? Bem debaixo das minhas barbas! – retrucou o príncipe.

- E do meu nariz!, complementou Pinóquio. Com o trabalho nas minas, deve ter muito dinheiro guardado, o bastante para fazer do Diet Bacon um fenômeno nas gôndolas. Vamos já para o seu reino, príncipe.

Como a Lei de Murphy impera sempre, inclusive no mundo do faz-de-conta, aquele era o dia do Mestre dividir os lençóis com a insaciável Branca. Ou melhor, os maus lençóis: o príncipe e Pinóquio flagraram Branca de Neve no sofá, em sensuais preliminares com o Mestre, o Patinho Feio e a Bela Adormecida, que na ocasião parecia mais acordada que nunca.

Gritos, pancadas, tiros, golpes de espada, sangue derramado.

Até que chegou o soldadinho de chumbo, dando voz de prisão a todo mundo.

(continua qualquer dia desses)


© Direitos Reservados

Comentários

  1. A responsabilidade do criador, no caso Walt Disney, se comparado ao criador do homem, dá no mesmo.

    Todos, sem exceção, trazem uma mensagem oculta. Nelson Rodrigues, quando fez Branca de Neve e os sete anões, chocou a cabeça de muitos adolescentes. Eu mesma me questionei da proibição da peça, se Branca de Neve, em minha mente ainda continuava jovem, vítima e linda a servir seu amado príncipe ajudada pelos "SETE" anões, que continham em cada, a sabedoria que o nome lhe remetia. Ainda criança, percebi que SETE é um número cabalístico.
    Sete muralhas, sete maravilhas do mundo etc...

    O criador Disney não previu o envelhecimento dos personagens, nem a maldade que o mundo alcançaria.

    A tropa de Elite seria o ideal para encaixar cada personagem.
    Os números [como falam!] 171, entre tantos colocaria códigos e interrogações na cabeça do criador.

    Em resumo, a criação gera consequencias, caso não se tenha uma visão além do tempo.

    O pica-pau, estaria enquadrado dentro das leis do IBAMA como destruidor do meio ambiente. Save the enviroment.!

    Adorei, Marcelo!

    Grande criatividade!

    Beijos

    Mirze

    ResponderExcluir
  2. Rico, muito rico o seu texto. Sabe, Marcelo, tenho muita prudêcia quando me deparo com fortes realidades.
    Parabéns!

    Abraço,
    Jorge

    ResponderExcluir
  3. E agora, Marcelo?...
    Tal qual Drummond,eu interrogo curiosa e reticente!...
    Será o apocalipse da ficção?!
    A modernidade invadiu os contos de fada, acompanhada da competição e ga ganância.
    O Prático já pagou seu preço.Salve-se quem puder!
    Quisera ser Sherazade para salvar da morte minha própria fantasia!...
    Quem quiser(ou puder!)que conte outra. Eu prefiro aguardar o próximo capítulo!...

    Muito bom!Fez-me relembrar que a vida não se repete, nem permanece como antes...
    Beijos!
    Bernadete Valadares -Felixlândia -MG.

    ResponderExcluir
  4. Ficou muoit bom e nos faz pensar!Adorei ler!abraços,obrigado por me enviar!chica

    ResponderExcluir
  5. Estela - RJ1:59 PM

    Perfeita a sua narrativa, cheia de imaginação e realidade. Parabéns. Abraços. Estela

    ResponderExcluir
  6. Clotilde Fascioni2:00 PM

    Adorei!!! Maravilha!!! Parabéns.

    ResponderExcluir
  7. Rafael Paiva4:10 PM

    Marcelo,

    "Ofensas" à Disney à parte, dei muita risada com esse texto... aguardo a continuação!

    Abraço e bom final de semana!

    Rafa

    ResponderExcluir
  8. Marcelo, o texto é espetacular, muito interessante mesmo, estou aguardando ansiosa a continuação.

    um abraço

    ResponderExcluir
  9. Maria Bonfá10:10 AM

    adorei sua historia.. uma mistura de personagens adoravel e muito espirutuosa..parabens.. agora quero a continuação

    ResponderExcluir
  10. Olá Marcelo,

    kkkkkk....eu não tenho como mandar essas camisas pra vc, são apenas virtuais, mas estou pensando em mandar fazer uma pra mim...queria mesmo ter uma dessas para distribuir.

    Um abraço

    ResponderExcluir
  11. Parabéns! Bela, hilária e inteligente história. Ri mto com toda essa fábula e esses personagens que viraram reais tão bem conhecidos entre nós por suas tramóias.
    Abraço

    ResponderExcluir
  12. Anna Paula8:24 AM

    muito bom o seu texto!
    Meu blog: http://annapaulabarp.blogspot.com

    ResponderExcluir
  13. Marco Antonio Rossi8:25 AM

    CARO AMIGO MARCELO

    UMA VERDADEIRA BIBLIOTECA INFANTIL. MUITO BEM BOLADO!
    aBÇ
    ROSSI

    ResponderExcluir
  14. Nice Pinheiro4:59 PM

    Adorei! rsrsrs....Ô imaginação! Estou em cólicas para saber o que aconteceu após a ordem de prisão do soldadinho de chumbo...rsrsrs. bjs

    ResponderExcluir
  15. Cissa Oliveira8:31 AM

    Gostei muito. É como num sonho onde tudo é possível, sem tempo nem espaço - e nem lugar! A lógica é emendar realidade e imaginação, e pronto. abraço, Cissa

    ResponderExcluir
  16. Evelyne8:33 AM

    Golpe de mestre, Marcelo! Você deu um toque meio rodrigueano aos personagens dos contos de fadas sem abandonar seu especial senso de humor. Parabéns, amigo! Beijos.

    ResponderExcluir
  17. Todos esses personagens dos contos de fadas "crescidos" fizeram-me lembrar o Cupido, menino, sempre menino...
    Abraços

    ResponderExcluir
  18. Marcelo, você faria enorme sucesso lá no blog do jornalista Edward de Souza e seus amigos (http://artigosedwardsouza.blogspot.com)
    Abs
    João Batista Gregório

    ResponderExcluir
  19. Mara Narciso2:18 AM

    Pois é, Marcelo, você colocou no chinelo o "Samba do crioulo doido" e com uma pitada de sexo e bizarrice. Lembrei-me de uma pornochanchada chamada "Histórias que nossas babás não contavam", da década de oitenta. Aguardo os acontecimentos.

    ResponderExcluir
  20. Mara Narciso2:19 AM

    Pois é, Marcelo, você colocou no chinelo o "Samba do crioulo doido" e com uma pitada de sexo e bizarrice. Lembrei-me de uma pornochanchada chamada "Histórias que nossas babás não contavam", da década de oitenta. Aguardo os acontecimentos.

    ResponderExcluir
  21. !!!!!!!!! Marcelo, meu caro, esse mix de fábulas com grossas pitadas de pimenta é pra rir aos borbotões. Suas lavras se superam a cada semana. Ansioso, espero a continuação. E dá-lhe exclamação !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    ResponderExcluir
  22. Osvandir12:56 AM

    Caro Blogueiro e Escritor, Gostei da maneira como escreve, a crítica mordaz, a sátira, a gozação, tudo nomeio da realidade falsificada. Também trabalho na mesma linha em contos crônicas. Abraços, Manoel http://osvandir.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  23. Não resisti e brinquei de terminar a história.Boas risadas. Gostei do consoantes reticentes, vou colocá-lo na lista amiga do meu blog,
    abraços da companheira publicitária

    ResponderExcluir
  24. Caro poeta...Lendo os teus textos e admirando cada vez mais...Parabéns...Este, particularmente, me fez sonhar vários finais...rss...AMEI!!!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…