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Mostrando postagens de Julho, 2010

O JEITO ERA JÂNIO

Embate político é jogo de vida ou morte. Mas ao que tudo indica, no tempo em que o Jânio Quadros fazia campanha para Presidente a coisa era bem mais tranquila, pelo menos no quesito comes e bebes. O homem chegava ao raio-que-o-parta num fusca caindo aos pedaços, terno com calça pula-brejo e mordiscando pão amanhecido com banana nanica. Um pouco antes de descer do carro, um assessor providencialmente polvilhava-lhe uma caspa de araque nos ombros, deixando o ilustre autor de dicionário exalando a Zé-Povinho.

Este ritual diário – quando não várias vezes num só dia – devia ser enfadonho para o célebre proibidor de brigas de galo. Mas pelo menos era seguro, o script não variava. O sanduíche de banana que empunhava era o salvo-conduto do homem da vassourinha para livrar-se de banquetes de Clotildes, até porque deduzia-se estar com o bucho a meio reservatório.

Com o tempo, a acolhida aos futuros representantes do povo com leitões, bobós e cozidos foi se tornando praxe como forma de externar ap…

CITRUS

Deu-se o fato, como das outras vezes, ao sol quase posto das seis da tarde, e foi como se uma mão de força irreconhecível me empurrasse para o pomar das laranjas descascadas. Firmes, doces, sem sementes nem fiapos a se entranhar entre os dentes. Laranjas de Hollywood. Cenográficas, escolhidas e livres de suas cascas, sem um machucado de faca. Todas estranhamente dispostas em seus galhos de nascença, à mercê da humanidade preguiçosa. As melhores não necessariamente se apanhavam nos ramos mais altos das árvores, como nos pomares comuns e para tristeza dos meninos mirradinhos. Muitas das mais suculentas ficavam nas saias das laranjeiras, quase tocando a terra e ao alcance do casal de anões. Fartavam-se ambos, sorvendo até secarem os bagaços, naquele “chup-chup” a lembrarem porcos. Pus-me ali sem querer assustar, e ao verem-me ao seu lado não manifestaram outra coisa senão uma silenciosa indiferença. Ali éramos, somente, sem definido propósito. Dois anões e um intruso de outro tempo, a ob…

ALTAMENTE MAIS OU MENOS

COMO É QUE O SENHOR RESUME A SUA TEORIA?
É simples: a felicidade está na mediocridade – entendendo-se mediocridade como patamar médio, não como algo de qualidade sofrível. O ideal é sempre a média, é nela que residem o equilíbrio e a harmonia. Para aprovar ou reprovar um aluno, não tira-se a média de suas notas? E as fileiras do meio, não são as mais disputadas no cinema? Voltando à comparação com o universo escolar: o chatinho de óculos da primeira carteira, que uns chamam de cheira-bunda e outros de lustra-maçã, é um nerd insuportável. O da turma do fundão coloca tachinha na cadeira do professor. E ambos são repulsivos.

EXPLIQUE MELHOR.
Vou dar um exemplo: imagine uma maratona ou uma corrida de Fórmula 1. Nada como correr e terminar a prova no pelotão intermediário – nem na tropa de elite, nem no lodo dos retardatários. Os que estão no imenso cordão mediano correm numa boa, porque uma corrida precisa dos que estão no meio para que existam os que acabam nas pontas. É o pessoal que faz n…

REFÉNS

Poderia apertar aquele parafusinho minúsculo e a coisa voltaria a funcionar perfeitamente. Bastaria um quarto de volta em sentido horário, com uma chave philips e pronto. Problema de mau contato. Mas olhei pra cara da freguesa e vi que ela devia usar Lancôme da testa à unha do pé, e que só aquele solitário na mão direita valia mais que a minha oficina inteira. Então pintei a coisa bem preta para valorizar o serviço. Pelo menos três dias na bancada, para testes no voltímetro. Provavelmente era o diodo do transistor com o relê de amperagem em corrente descontínua, e pra trocar a pecinha só substituindo a placa toda – importada do Japão. Seria uma das hipóteses, mas para ter certeza, só abrindo tudo e aferindo cada um dos componentes na oficina.

- Olha, dona, por enquanto a senhora acerta comigo a visita técnica. Pode ficar tranquila que só toco o serviço com a aprovação do orçamento. Mas se for isso mesmo que estou pensando, melhor vender como sucata e comprar outro. Também não vale a pe…

CHEGANÇA

I

Na avidez de dar enfim com o costado no repouso, ele apeou de mala em mãos e um risinho assim assim. Sem mágoa ou quê de remorso, de certo só as incertezas. Tantas, de encher embornal. Arrobas de maus presságios se anunciavam na tez, cheia de pés-de-galinha. Morena em casa não tinha, na tina d’água um cabelo – longo ele era, se via, mas a quem seu pertencer? Caneta tinteiro, umas notas de mil réis, baixela de prata luzia. Luzia, nome de gente, de quem tirava casquinha dia sim, dia não, na casa pegada à quitanda lá no antro de onde vinha. Mas muito sem compromisso, anéis nem mesmo de lata. Pra que sarna a se coçar? Velhas de véu no entorno, e vítrea clareira se inchava pra cima dele, o coitado. Assim passou aquele dia, como passavam-se os outros, no vácuo do haver nadinha. Daquele jeito é que era, melhor que se acostumasse.

II

De tombo em tombo se rala, no umbral de vela apagada e malho intenso de bigorna. Se luz houvesse, bobagem – coisas não resolveria, e alento para as feridas não ha…