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ALTAMENTE MAIS OU MENOS


COMO É QUE O SENHOR RESUME A SUA TEORIA?
É simples: a felicidade está na mediocridade – entendendo-se mediocridade como patamar médio, não como algo de qualidade sofrível. O ideal é sempre a média, é nela que residem o equilíbrio e a harmonia. Para aprovar ou reprovar um aluno, não tira-se a média de suas notas? E as fileiras do meio, não são as mais disputadas no cinema? Voltando à comparação com o universo escolar: o chatinho de óculos da primeira carteira, que uns chamam de cheira-bunda e outros de lustra-maçã, é um nerd insuportável. O da turma do fundão coloca tachinha na cadeira do professor. E ambos são repulsivos.

EXPLIQUE MELHOR.
Vou dar um exemplo: imagine uma maratona ou uma corrida de Fórmula 1. Nada como correr e terminar a prova no pelotão intermediário – nem na tropa de elite, nem no lodo dos retardatários. Os que estão no imenso cordão mediano correm numa boa, porque uma corrida precisa dos que estão no meio para que existam os que acabam nas pontas. É o pessoal que faz número, são os menos cobrados e ao mesmo tempo absolutamente indispensáveis.

SIM, MAS...
Os últimos recebem o desprezo e a chacota. Os primeiros, a inveja e a responsabilidade por um desempenho cada vez melhor. Um expoente em qualquer coisa é tão discriminado quanto um retardado naquela mesma coisa. Lembre-se, meu caro: o filé do peixe é aquela parte que fica entre a cabeça e o rabo.

SÓ QUE É A CABEÇA QUE COMANDA O PEIXE PARA BUSCAR ALIMENTO, E O RABO É QUEM O IMPULSIONA PARA CHEGAR ATÉ ELE.
Sim, e para quê? Para nutrir o resto do corpo e nos legar o seu filé, aquela parte que fica bem no meio... xeque-mate, senhor repórter!

ESTA É UMA FORMA UM TANTO QUANTO CONFORMISTA DE ENCARAR A VIDA, NÃO ACHA?
Pode ser para você, um sujeito visivelmente contaminado pela competitividade capitalista. Que segura trêmulo este microfone na minha cara, olhando a toda hora para o relógio e preocupado em ser o primeiro a levar esta minha entrevista às bancas amanhã. Não é isso mesmo?

SE EU NÃO FIZER ISSO, SOU MANDADO EMBORA. MAS, CONTINUANDO: EM DECLARAÇÕES RECENTES, O SENHOR AFIRMA QUE SUA TEORIA TAMBÉM SE APLICA ÀS RELAÇÕES FAMILIARES.
Evidente. O primeiro filho é sempre vítima de uma criação cheia de cuidados excessivos, de bajulações desnecessárias da parte dos pais e dos avós, o que acaba por estragar o indivíduo e torná-lo um parasita sem vontade própria, com traumas que farão as delícias e o sustento dos analistas. Já com o caçula, via de regra ocorre o oposto: a família já está tão de saco cheio de tantos filhos que cria o coitado de qualquer jeito. A vantagem fica com os filhos do meio, que herdam as roupas e brinquedos do primogênito e deixam a sucata para o mais novo da prole. Além disso, eles ficam livres da vigilância ostensiva dos pais – que estão mais ocupados em limpar o cocô do pequenininho e ficar procurando droga na mochila do mais velho. Pode reparar, é sempre assim.

FINALIZANDO, O QUE ACHOU DESSA ENTREVISTA?
Mais ou menos. Você não me entupiu de perguntas bestas, nem eu me alonguei muito nas respostas. E estando mais ou menos, para mim está ótimo.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Mais ou menos verdade, Marcelo. Mas o texto é ótimo :D

    Abraço e ótimo fim de semana.

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  2. 10!
    Existem aí certas particularidades dos extremos. Mas no geral, tá bom!
    Tá ótemo, na verdade!

    bom fim de smana!

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  3. Boa noite, Marcelo querido!
    Vim ler as novidades
    e desejar um excelente final de semana!
    Muita paz e alegrias no seu coração!
    "Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos." Miguel Unamuno
    Beijocas carinhosas!!

    SÔNIA SILVINO'S BLOGS

    Vários temas & um só coração!

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  4. Desculpa pela demora em corresponde-lo! to meio ausente pelo mundo do blog ultimamente.

    Interessante, essa teoria me fez lembrar de uma realidade social, (falando de forma superficial) os que ficam em suas zonas de conforto em frente a injustiça alheia são os que contribuem de forma bem medíocre para que os da frente, ou os poderosos, mandem em tudo e os de trás, ou os pobres continuem excluídos...

    como os do meio são a maioria, "o pessoal que faz numero", eles são o povão! alienados que fazem a maior parte do elenco disso tudo, e que fazem o negocio funcionar!

    abraço!

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  5. Mirze Souza3:01 AM

    Marcelo!

    Altamente Mais ou Menos, é o canto por excelência dos grandes pensadores.

    É tão claro e óbvio, que difícil me imaginar num topo.

    Tive o privilégio de ser exatamente a filha do meio, que todos pensam merecer o desprezo. Absolutamente! Além de seguir as regras ditadas por meus pais, ouvia o raciocínio e as atitudes dos meus irmãos mais velhos, mas podia ter um espaço amplo para raciocinar e ser eu mesma, sem interferências de terceiros.

    No esporte, uma vez primeiro, será sempre cobrado. Imprensa, câmeras, e todo esse arsenal o impedirão a partir deste momento de chegar ao pódio que não seja entre os três primeiros. Perderá a privacidade, será um ser humano público, passível de críticas a qualquer fala, mesmo no comportamento social.

    Os últimos, terão o incentivo dos mais velhos para no mínimo chegarem ao meio. Se usarem a inteligência, ali permanecerão. Terão a oportunidade de escolher ser o primeiro, mas já terão observado causa e consequencia.
    Vivem melhor, são menos cobrados.

    Veja os hotéis: Uma vez cinco estrelas, terão que manter esse nível sob o infortúnio da opinião pública.

    Até mesmo o exemplo citado, "o peixe", a cabeça e a cauda é que darão o sumo mais nutritivo para produzir o que é consumido; Com este suco depois de fervido, e formando um molho, até o filé será regado.

    Portanto. excelente raciocínio!

    Parabéns, Marcelo!

    Excelente texto - entrevista.

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  6. Querido Marcelo,
    Como sempre, seus textos garantem o riso inteligente, que nos diverte e faz pensar.
    Achei interessante a teoria a cerca das vantagens do "relativismo mediano"...alguns místicos ou filósofos defensores do "caminho do meio" lhe dariam plena razão...rsss.
    Beijos,
    Genny

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  7. Nunca antes na história deste país um texto do Marcelo foi tão tucano, tão de centro... espectros políticos de lado, taí uma reflexão boa para o conforto do mediano, do medíocre. abs.

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  8. Miriam de Sales Oliveira1:59 PM

    Puxa,gostei demais do Consoantes Reticentes.
    Abração

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  9. Diego Cosmo2:00 PM

    vlw pelo texto!

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  10. Sônia Silvino2:01 PM

    Oi, querido!
    Visite os meus blogs quando tiver um tempinho. Ficarei muito feliz!
    Bom final de semana!
    Bjs!

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  11. Jorge Sader Filho2:03 PM

    Marcelo, houve algo errado.
    Respondi a primeira vez. Nenhuma resposta.
    Repeti. Outra vez sem resposta...

    Abraço.
    Jorge

    ResponderExcluir
  12. Ana Lucia Finazzi2:05 PM

    Oi

    Crônica escrita com propriedade por um filho "do meio".
    Como está a tia Glorinha? Já voltou para Pirassununga? Mande-nos notícias da família.
    Minha mãe teve uma trombose da veia femural e o médico queria uma hospitalização para tratamento. Mas você conhece os Sguassábia, ela disse que não iria para o hospital, só se fosse em coma. Está em tratamento em casa mesmo, com medicação anti-coagulante, o que exige um cuidado extremo para evitar quedas, pancadas ou cortes, que segundo o médico, seriam fatais.
    Fiquem com Deus. Nós os amamos muito.
    beijos
    Prima

    ResponderExcluir
  13. Carlos Galvão2:06 PM

    CARO MARCELO===ESTOU CADA VEZ MAIS ACOMPANHANDO SEU AMADURECIMENTO LITERÁRIO.NÃO SEI SE É A IDADE OU OS FATOS DA VIDA,SO SEI QUE GOSTO.CONTINUE ASSIM. EM PALAVRA PERDIDA IDENTIFIQUEI-ME COMPLETAMENTE COM O ARTIGO.QUE PROFUNDIDADE!! OUTRO DIA FUI À MINHA VISITA SEMANAL AOS SEBOS AQUI DE TATUI E COMPREI A COLEÇAO DE DICIONARIO ETMOLOGICO (11 VOLUMES) E SAI CARREGANDO O PACOTE DE LIVROS QDO. ENCONTRO UM RODA DE AMIGOS QUE AO SABEREM DA MINHA NOVA AQUISIÇÃO,DISSERAM QUE EU ESTAVA FICANDO LOUCO,OU QUE IA ENCHER MINHA CASA DE CUPIM,ETC...EM SEGUIDA DESPEDI-ME E SEGUI PENSANDO EXATAMENTE SOBRE O VALOR DAS PALAVRAS,NUM MUNDO TOTALMENTE DESCARTÁVEL.ACHO QUE ELES NUNCA VÃO SABER QUE TUDO ISSO ERA POR QUE AINDA ACREDITO NO SER HUMANO E QUE OS AMAVA DEMAIS.PENA.=====QUANTO AO SEU PAI,VC ESTA FAZENDO A UNICA COISA QUE ELE QUER QUE VC FAÇA.GRITARRRRRRRRRRR.ELE ESTA CONTENTE PODES CRER.-----ABCS CARLOS GALVÃO

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  14. Salvio - Senha Comunicação2:07 PM

    Muito bom. Parabéns.

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  15. Gercio2:11 PM

    É uma constatação muito racional da sua parte. Se todos tentassem viver de forma mediana por certo o mundo seria bem menos estressante.

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  16. Marco Antonio Rossi5:54 AM

    BOM DIA...
    SERIA MUITO BOM FICAR NO ALTAMENTE MAIS OU MENOS NUM BOLO DE NOTAS DE 100 REAIS........
    ABRAÇO
    ROSSI

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  17. Ah! Mas esses nossos amigos não fogem do alto e do pico da curva normal, por mais que queiram...

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  18. É da turma do meio. Convicto! Veja só: "E estando mais ou menos, para mim está ótimo."
    É equilibrista de muros m,uitos altos.
    Ótimo, Marcelo!

    Abraço,
    Jorge

    ResponderExcluir
  19. Celi Gustafson Estrada2:51 PM

    E verdade, mais ou menos é o que vale!...em tudo, não?
    Abraço,
    Celi

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  20. Jusciney Carvalho5:01 PM

    Concordo mais ou menos...risos...Bj

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  21. Belvedere Bruno5:01 PM

    Sempre criativo. Parabéns

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  22. Sandra8:09 AM

    Marcelo, grande cara. Você está longe da mediocridade, em amnos os sentidos, então pode se dar ao luxo de fazer graça com o texto. Um grande abraço desta amiga, filha do meio de uma família de 9.

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  23. Bernadete Valadares8:13 AM

    Olá,Marcelo! A entrevista é criativa; a abordagem,100%...as respostas inusitadas, mas a teoria é mesmo mais ou menos!... A ilustração é altamente pertinente!(humm!...a rima foi mal, ou tá mais ou menos!?) Já que mais ou menos tá ótimo, vou enviar o comentário assim mesmo!...rsrsrs. Bjão! Bernadete Valadares.

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  24. Evelyne Furtado8:15 AM

    Não é confortável estar nas pontas, realmente, mas graças a Deus temos corajosos como você que não temem ocupar a frente. Mais um texto delicioso, Marcelo! Beijos e ótimo fim de semana, amigo.

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  25. Marcelo,
    Parabéns pelo texto! A vida tem sido assim mesmo, mediana.
    Abraço

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  26. Clotilde Fascioni8:09 AM

    Isso é a justificativa dos que estão sempre "em cima do muro", nénão? Quando tiver tempo e curiosidade leia o meu blog super despretencioso, apenas um blog a mais...Assim como você me convida a visitar o seu eu lhe convido a visitar o meu, mas já fique sabendo que eu faço parte da "fila do meio", que só são visto se pedirem por favor para serem lidos, como agora, hahaha.. http://www.espiritodeescritora.blogspot.com

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  27. Mara Narciso8:15 AM

    Marcelo, você sempre me arranca pelo menos um sorriso, o que é memorável, pois eu não tenho nem um décimo do seu bom-humor. Assim, pode se considerar um escritor de ponta. Faço parte do grupo intermediário para que haja os de primeira linha como você. Não se encabule com a minha aparente bajulação explícita. Meu elogio é sincero.

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  28. Este comentário foi removido pelo autor.

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  29. Sayonara Lino8:16 AM

    Marcelo, o texto está excelente, longe de ser mais ou menos! Muito criativo! Adorei! Abraço!

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  30. Ah, poeta!!! Que texto delicioso!! Cheio de verdades e com um humor inigualável...Me fez refletir novamente...e sorrir muito. Amei!!!

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  31. Este comentário foi removido pelo autor.

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  32. Excelente texto; o entrevistado, provavelmente um filósofo e/ou psicólogo autor da teoria do "mais ou menos" fundamenta muito bem sua teoria com exemplos que fazem parte do nosso dia a dia.Isso devido o fato de o entrevistador fazer perguntas bem pertinentes. Quanta sagacidade de sua parte Marcelo, parabéns. Entretanto,seu texto não está de acordo com a teoria do personagem em questão, vez que é excelente, nota 10.

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  33. Ficou perfeito!
    Sou a filha do meio - e a única mulher... rs
    bjs

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