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CHEGANÇA


I

Na avidez de dar enfim com o costado no repouso, ele apeou de mala em mãos e um risinho assim assim. Sem mágoa ou quê de remorso, de certo só as incertezas. Tantas, de encher embornal. Arrobas de maus presságios se anunciavam na tez, cheia de pés-de-galinha. Morena em casa não tinha, na tina d’água um cabelo – longo ele era, se via, mas a quem seu pertencer? Caneta tinteiro, umas notas de mil réis, baixela de prata luzia. Luzia, nome de gente, de quem tirava casquinha dia sim, dia não, na casa pegada à quitanda lá no antro de onde vinha. Mas muito sem compromisso, anéis nem mesmo de lata. Pra que sarna a se coçar? Velhas de véu no entorno, e vítrea clareira se inchava pra cima dele, o coitado. Assim passou aquele dia, como passavam-se os outros, no vácuo do haver nadinha. Daquele jeito é que era, melhor que se acostumasse.

II

De tombo em tombo se rala, no umbral de vela apagada e malho intenso de bigorna. Se luz houvesse, bobagem – coisas não resolveria, e alento para as feridas não havia de ter por perto. No poço bem pouca água, nem erva daninha no pasto se dispunha a vicejar. Dom não tinha, voz calava, ardume ardia e, a horas tantas, até o relógio decidiu não trabalhar. Estica as costas e apanha vento encanado de esguelha, e Deus que ajuda a quem apela trouxe uma pena flanando, só pra lembrar (de mansinho) que ao flanar também se pena. Dura lição aprendida em ponta de faca cega, na agrura do verbo errar. Varre esse mal pensamento, dai-me o céu o que fazer. Credo em cruz, que largo hiato sem segundos que se contem. Rogo ao cão: cadê Luzia?

III

Luzia diz que vem de jeito nenhum, que hoje é dia de esfrega e não de pouca vergonha. Casa pegada à quitanda, nem pra semana – só mês que entra, e olhe lá. Espere ou vá se catar.



© Direitos Reservados

Comentários

  1. Eduardo Lara Resende5:10 AM

    Isso é poema, meu caro Marcelo! E dos bons...
    Abraço.

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  2. Eita, prosa poética 'roseana' boa de uma figa, sô! É prazer lê-lo. Parabéns!
    Se tempo tiver, passe lá no meu bloguim.
    Rita Lavoyer

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  3. Prosa de deleitar demais! Cheia de desvelo e de drible com as palavras doutoradas de deslindamentos.
    Abraços

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  4. Marcelo...

    As palavras aqui costuradas com maestria faz brotar com trejeitos de simplicidade conversa boa de se ouvir e contar. Gosto desse ritmo de prosear. Transmite leveza na leitura enquanto de adentra na vida dos personagens.

    Um grande abraço amigo!

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  5. lirismo embriagante, nada piegas, pena elegante e teimosa em agradar...abs.

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  6. Beleza, Marcelo.Gostei da prosa pura e sensual.(moderna)[rs] Luzia está cheia de razão. "Quem vai ao vento perde o assento". [rs]
    Um beijo e parabéns pelo talento!!!

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  7. Paulo Braga Silveira Junior1:09 PM

    Muito bom.... como sempre.

    Me mande notícias da tia Glorinha quando puder, ok?

    um abraço.

    Acesse: http://espiritoeverdade-braga.blogspot.com

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  8. Obrigada por compartilhar prosa tão prosa,delicia de ler neste dia
    de chuvas

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  9. Silvia Ferrante2:12 PM

    Muito bom!
    Abraços
    SF

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  10. Celi Gustafson Estrada4:01 PM

    Gostei muito! Criativo! Obrigada.
    Celi

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  11. Olá, Marcelo!
    O frio convida-nos a um dedo de prosa...seu texto levou-me a minha infância na roça!...
    Mas a vida não se repete nem permanece como antes...
    Vontade de adentrar a velha porteira, de beber café com bolo de fubá,catando os carrapichos da barra da saia!
    Quanta saudade!...
    Parabéns pelo texto! Obrigada por despertar lembranças tão caras!...
    Bernadete Valadares.

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  12. Gosto muito do seu estilo, Marcelo.
    Afinal a Luzia não vem? Acabou de perder o trem...

    Abraço,
    Jorge

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  13. Marco Antonio Rossi8:25 AM

    BOM DIA!
    ATÉ PARECE FILME QUANDO O MASCATE VOLTA PARA VER A AMANTE.......
    ABRAÇO
    ROSSI

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  14. Rosa Pena9:01 AM

    Um conto excelente e o final vem com sua marca ( você me dizia que não tinha, mas tem sim e é ótima!) Um beijo da amiga ..rosa

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  15. Evelyne5:03 AM

    Um jogo mágico de associação de palavras! É sempre é um prazer ler você, meu amigo! Parabéns e bjs.

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  16. Marcelo,
    Mto bom qdo começo a me transportar para o texto, sensacional.
    Abraço

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  17. Clauduarte Sá4:28 PM

    Marcelo que maravilha de textos: Gostei muito muito do que voce fez para o seu pai e mais ainda do Cheganca. Eu gostaria mais uma vez de tentar musicar este. Mas fico com receio de corta-lo em fatias e perder-me do sentido. Ah se voce o reduzisse em poesia!...
    Um grande abraco, saude, felicidade, sucesso,
    ClauduArte Sa

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  18. Mara Narciso8:14 AM

    Luzia com seus significados. Intrigante.

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  19. Mirze Souza7:49 AM

    Fantástico, Marcelo!

    Há dias assim, que chamo "dias de não", onde todo clima é fleumático.

    Mas o conformismo é assustador. Tantas incertezas, compromisso nenhum, sequer com o tempo, ou com Deus. Pessoas que se acomodam com tudo, até com o fato de não ter "dom". Nada buscam a não ser o imediato para sua carência que deposita em alguém, que consiga suportar esse "costado em repouso".

    O texto é riquíssimo e mostra uma tendência comum do ser humano. Se acomodar com o que vem, com o que tem, sem se movimentar para nada.

    O universo em constante movimento e aquele ser ali, parado, esperando que em suas mãos haja provisão para suas necessidades mais ínfimas.

    O relógio tinha que parar!
    O pior é que ele não percebe que o movimento é que faz a vida seguir um rumo diferente.

    Estou aqui me imaginando perto dele e gritando; "MOVE UP".

    Maravilhoso texto que constata a realidade de muitos brasileiros.

    Parabéns, amigo!

    Beijos

    Mirze

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  20. Muito gostoso de ler. Eu amei!!!

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