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CITRUS



Deu-se o fato, como das outras vezes, ao sol quase posto das seis da tarde, e foi como se uma mão de força irreconhecível me empurrasse para o pomar das laranjas descascadas. Firmes, doces, sem sementes nem fiapos a se entranhar entre os dentes. Laranjas de Hollywood. Cenográficas, escolhidas e livres de suas cascas, sem um machucado de faca. Todas estranhamente dispostas em seus galhos de nascença, à mercê da humanidade preguiçosa. As melhores não necessariamente se apanhavam nos ramos mais altos das árvores, como nos pomares comuns e para tristeza dos meninos mirradinhos. Muitas das mais suculentas ficavam nas saias das laranjeiras, quase tocando a terra e ao alcance do casal de anões. Fartavam-se ambos, sorvendo até secarem os bagaços, naquele “chup-chup” a lembrarem porcos. Pus-me ali sem querer assustar, e ao verem-me ao seu lado não manifestaram outra coisa senão uma silenciosa indiferença. Ali éramos, somente, sem definido propósito. Dois anões e um intruso de outro tempo, a observar sem compreender, talvez despido das cascas da lógica, do senso de necessária causa e consequência para tudo que exista sob o sol – já praticamente lua, àquela altura do dia 18 de novembro de 1942.
Direitos Reservados

Comentários

  1. Paulo Braga Silveira Junior10:33 AM

    Bom desfrutar deste fruto, Marcelo... Como sempre, muito saboroso.

    Acesse: http://espiritoeverdade-braga.blogspot.com

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  2. Marcos Loures1:38 PM

    marcelo, gostaria de te mandar alguns sonetos, espero que gostes abraços fraternos marcos


    http://alamedadaesperanca.blogspot.com/


    http://valmarloumann.blogspot.com/



    www.marcosloures.com

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  3. Carmo Vasconcelos1:40 PM

    Prezado escritor Marcelo Sguassábia,

    Visitei seu blog e gostei dos seus textos! Parabéns!

    Somos a Revista eisFluências. É uma Revista voltada para a Cultura em todas as suas facetas. Devidamente registada na Biblioteca Nacional e já portadora do ISSN,
    é publicada via Net em PDF, difundida para mais de 4 000 e-mails e com cerca de 100 exemplares distribuidos em papel para diversos Orgãos Oficiais e de Cultura.
    Anexo, mando-lhe os 3 últimos números para que a identifique. Como pode ver é uma Revista bimestral e a próxima edição será em 15 de Agosto.
    É publicada via Net em PDF, difundida para mais de 4 000 e-mails e com cerca de 100 exemplares distribuidos em papel para diversos Orgãos Oficiais e de Cultura.

    Agora o Convite:

    Convidamos o prezado amigo a dar-nos a honra de participar dela como autor convidado, dentro do sistema rotativo que usamos para levar ao público a maior qualidade
    dentro da maior diversidade.

    Caso seja de sua vontade, mande-nos um texto, uma pequena biografia e uma foto, bem como link's dos seus sítios pessoais. Sempre publicamos esses itens na primeira
    publicação do autor.

    Agradecemos resposta breve, pois estamos compondo já a próxima edição.

    Aguardando a sua estimada resposta, aceite a nossa admiração e respeitáveis cumprimentos,

    P'la Revista eisFluências,
    Carmo Vasconcelos
    (Directora Cultural)
    http://carmovasconcelos.spaces.live.com

    ResponderExcluir
  4. Seus textos são maravilhosos! Parabéns!!!

    http://celebresanonimos.blogspot.com/

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  5. Nada tão bom quanto ser, somente, sem propósito definido.
    Nesses momentos tocamos a fímbria de uma verdade.

    ResponderExcluir
  6. Olá, Marcelo,deliciosa de ler a sua crônica, mas não com o sabor da laranja que já vem pronta, onde sequer precisamos pensar para degustá-la, mas com o sabor daquela laranja bonita que se encontra na ponta de um galho alto e que no mínimo precisaríamos de uma vara enorme ou de voltar a ser aquela criança mirradinha para poder alcançá-la e deliciar-se com o seu suco. Obrigada pela oportunidade de conhecer os seus escritos.

    Um abraço com carinho.
    Zezinha

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  7. Gina Soares7:40 AM

    Marcelo, bom dia!!

    Parabéns pelo blog!!!
    Estarei acompanhando você!!

    Sds,

    Gina Júlia Soares

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  8. Lucimara8:28 AM

    Obrigada pelo prazer que a leitura pôde me oferecer!
    Grande abraço,
    Conto tamtém com sua visita:
    www.textos-e-reflexoes.bçogspot.com

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  9. Jorge Sader Filho8:29 AM

    Laranjas, maçãs, bananas, melão. Escolha seu desjejum. Ou todas e um café depois, ou torradas e o líquido quente. Tão simples o prazer! Abraços, Marcelo. Jorge

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  10. Marco Antonio Rossi12:25 PM

    MEU CARO AMIGO MARCELO

    DELÍCIA DE LARANJA! PERA, CRAVO OU BAIA??????
    MAS BAO MESMO, É QUEIMAR A CASCA SECA PARA ESPANTAR OS MOSQUITOS NO CALOR...........
    ABRAÇO
    ROSSI

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  11. Madalena Krug1:53 PM

    ....estou me acostumando de ler seus escritos....e gosto muito.....sou quase fã. madá.

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  12. O amigo de lavra sumarenta nos serviu sua cítrica crônica no desjejum domingueiro. Juntei com meus ovos mexidos, um naco de pão francês lambuzado com manteiga caseira e vou terminando o fim de semana intrigado com alguma mensagem oculta nas suas linhas.

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  13. Caro Marcelo, gostei muito do que li. Um texto um tanto quanto enigmático, o qual nos leva a diversas interpretações.Eu, particularmente, não gostaria de visitar este pomar das laranjas descascadas, sem nenhum ferimento, sem nenhuma dificuldade em apanhar as mais suculentas, sem os fiapos para ficar entre meus dentes. Prefiro o pomar convencional, meu amigo.Tal pomarmencionado por você nos induz a fazer diversas reflexões... Quanto a data ao final do texto, fiquei pensando(penso logo existo)com tamanha facilidade pela qual caminha a humanidade devido ao grande desenvolvimento tecnológico; tal data poderia ser substituída por 18 de novembro de 2015?

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  14. Ah como é bom rancar as cascas negativas em busca de sermos melhores! Amei me desfrutar desse texto, muito belo.
    Abraços.

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  15. Evelyne4:31 PM

    O prazer ao alcance de qualquer estatura e mais um texto seu nos surpreendendo. Parabéns e beijos, Marcelo!

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  16. Romério Rômulo4:32 PM

    vim me entender com este espaço, marcelo. volto. um abraço. romério http://romerioromulo.wordpress.com

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  17. Rosana4:32 PM

    Caro poeta escritor Marcelo...Estar num mundo fora do seu tempo já é uma façanha incrível, ainda mais sem as cascas da da lógica, do senso de necessária causa e consequência para tudo que exista sob o sol... Nunca imaginei algo tão incrível reunido num contexto tão bem escrito...AMEI!!!

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  18. Mara Narciso4:33 PM

    A engenharia genética e os programas governamentais de reposição do Hormônio de Crescimento quase acabaram com os anões, que hoje, só aparecem na literatura. No caso o esquisitão era o chegante, e a bizarrice é dele, e não do casal de anões que estavam em seu habitat. Aos vencedores as laranjas!

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  19. Clotilde - Tupã4:34 PM

    Esse é o grande problema da humanidade Marcelo, não querem tirar a casca, querem que tudo venha pronto, nesse passo, chegará época em que nasceremos com uma sonda nazogástrica para não termos nem o trabalho de engolir... Muito interessante o texto (como sempre).

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  20. Maria Teresa Hellmeister4:34 PM

    Marcelo: Encontrei-me diante de uma alegoria do mundo contemporâneo, sedento de progresso travestido de coisa natural, abraçando o homem minúsculo em sua mediocridade e frieza, típicas de seu comodismo. Grande texto! Abraços, Maria Teresa http://mteresahf.blogspot.com

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  21. Luísa - Portugal4:35 PM

    E assim um citrino inspira a pena do poeta! Beijinho terno!

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  22. Oi Marcelo, que delícia te ler. Tão gostoso como degustar laranjas. Genial,seu texto!
    Muitas vezes necessitamos jogar as cascas da lógica bem looonge... Essas não poluem o meio ambiente...[rs]

    Um beijo, amigo talentoso!

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  23. Mirze Souza3:01 AM

    Marcelo!

    Excelente texto, onde as laranjas passeiam pelo tempo. Tempo de amadurecer o que há de cítrico na laranja.

    Por acaso, laranjas de hollywod (madeira sagrada), livres de cascas, suculentas a se exibir em toda a árvore, como se soubesse da existência do tempo e das circunstâncias.

    As mais suculentas, na bela imagem poética, das "saias das laranjeiras". Para a humanidade, nem sempre o fruto assim se oferece. As de mais difícil acesso, são as mais apreciadas.

    "Dois anões e um intruso de outro tempo." Aqui o leitor, ou eu leitora, me remeti ao espaço dentro do nosso tempo atual.

    Para se despir da casca da lógica, só mesmo tendo a necessidade da criança, que desconhece tais princípios.

    No final, a surpresa da data: novembro de 1942. Nesta época Hollywood, ainda não tinha exibido seus frutos, sem cascas e suculentos, como num filme. Nessa época a associação de cores e sabores, sequer era percebida. A humanidade, possuía a necessidade em primeiro lugar. O fato de saciar a fome pela beleza do fruto.

    Anões, eram uma espécie tida quase como amaldiçoada pela natureza. Mas aceita pelo olhar infantil e puro. Hoje damos o nome de "anões", à países que não somam as qualidades dos outros mais desenvolvidos; à pessoas que não atingem dentro do tempo, o quoeficiente de inteligência exigido pelos gigantes, ou adultos ou ainda os que possuem mais.

    Enfim, um texto reflexivo e sério.
    Particularmente apreciei muito a forma aqui descrita de uma cena que poderia ser comum, mas que foi desvendada por palavras estética, modo e conteúdo de forma rica e bela!

    Parabéns!

    Um forte abraço!

    Mirze

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