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O JEITO ERA JÂNIO


Embate político é jogo de vida ou morte. Mas ao que tudo indica, no tempo em que o Jânio Quadros fazia campanha para Presidente a coisa era bem mais tranquila, pelo menos no quesito comes e bebes. O homem chegava ao raio-que-o-parta num fusca caindo aos pedaços, terno com calça pula-brejo e mordiscando pão amanhecido com banana nanica. Um pouco antes de descer do carro, um assessor providencialmente polvilhava-lhe uma caspa de araque nos ombros, deixando o ilustre autor de dicionário exalando a Zé-Povinho.

Este ritual diário – quando não várias vezes num só dia – devia ser enfadonho para o célebre proibidor de brigas de galo. Mas pelo menos era seguro, o script não variava. O sanduíche de banana que empunhava era o salvo-conduto do homem da vassourinha para livrar-se de banquetes de Clotildes, até porque deduzia-se estar com o bucho a meio reservatório.

Com o tempo, a acolhida aos futuros representantes do povo com leitões, bobós e cozidos foi se tornando praxe como forma de externar apoio às candidaturas. E ai daquele que não limpasse o prato: em remotos rincões eleitorais de Minas, repetir menos de três vezes a galinha ao molho pardo era desfeita a exigir reparação no cano da garrucha. Famoso tornou-se, em meados dos anos 50, o caso Edivair Belenzinho. Disposto a qualquer sacrifício por uma cadeira no Legislativo, foi habitar o campo santo antes do pleito, tamanho o desarranjo advindo num outubro de sol quente em Três Corações, onde passou por uma gincana de cuscuz, rosquinhas de nata e um bolo salgado com cinco generosas camadas de recheio muito, mas muito pra lá de suspeito.

Patês de salmonela disfarçados de maionese também têm a fama de conduzir candidatos à presença de Jesus antes da hora, resultado igualmente atribuído às empadas de pupunha densamente povoadas de coliformes. Políticos mais experimentados, em geral postulantes à reeleição, reservam boa parte de sua verba à contratação de provadores – pagos para degustar todo e qualquer acepipe de associação comercial antes que cheguem a suas virginais boquinhas, mais afeitas aos canapés de foie gras de Brasília.

Outros, menos endinheirados, põem em prática um velho truque armado com seus guarda-costas. Ao perceberem o poder letal de certas coxinhas ou bolas de rum, chamam o fiel escudeiro para um cochicho ao pé do ouvido. Este achega-se ao patrão já abrindo o bolso do paletó, para onde discretamente escorrega a sinistra iguaria, capaz de levar um SUS inteiro a óbito. Assim, o guarda-costas transforma-se em guarda-comida.

Já dos pasteis de feira e das vacas atoladas o escape é bem mais complicado. No caso dos pasteis, em função da luz do dia, das câmeras de TV muito próximas e pelo fato da outra mão já estar, via de regra, ocupada segurando o guri de alguém da distinta freguesia. A vaca atolada, por sua vez, permite pouca ou nenhuma portabilidade para que ganhe o lixo mais próximo, e o volume que toma no prato impossibilita qualquer manobra discreta que a faça desaparecer.

Possível saída honrosa é declarar-se de antemão vegetariano, ainda que não seja e se farte o candidato de filé com fritas após os comícios do dia. Mas o risco de verduras, legumes e frutas mal lavadas, oferecidos às baciadas pela vereança correligionária, não tornam esta alternativa muito recomendável. Certo estava o velho Jânio. Aos sanduíches de banana!

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Engraçado!
    rs
    O jeito era Jânio mesmo... rs
    Bjs

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  2. Marcelo, que Mario Covas era um devorador incorrigível dos gordurosos pastéis de boteco, é inegável. Reza a lenda, que dona Lila Covas em épocas de campanha, quando as oportunidades pastelísticas apareciam aos milhares, incumbia um assessor para policiar o marido nos abusos calóricos. No finado Bar Canecão aqui em Sanja, eu vi o Covas sucumbindo ao pastel de carne do Jorge. Se esteticamente seu texto continua irreparável, devo fazer um apontamento de ordem conceitual ao brutal ataque aos acepipes de campanha: o que é um pequeno desarranjo comparado ao gigante prazer do petisco dos rincões e tabernas?
    abs.

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  3. Político sofre..., mas desconta!

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  4. Rafael Paiva Silva11:35 AM

    Bom dia Marcelão!

    Excelente essa sua nova pérola... agora tá explicado por que tanto políticos nos dão diarréia!!!

    Obrigado também pelos parabéns pelo meu aniversário. 42 primaveras, é mole? Com a barba embranquecendo, tá ficando difícil enganar as pessoas... hehehe

    Um ótimo final de semana pra você!

    Abração,

    Rafa

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  5. Jorge Cortás Sader Filho11:36 AM

    Foi distraída, Marcelo!
    Abraço, não esqueça, por favor do http://aduraregradojogo24x7.blogspot.com

    Jorge

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  6. Zezinha Sousa11:38 AM

    Olá, Marcelo,
    adorei seus escritos, obrigada pela oportunidade de conhecê-los.
    Mesmo com estilos totalmente diferentes, o humor presente no seu texto de hoje ( o que o torna ainda mais gostoso de ler) me fez lembrar Jessier Quirino, um paraibano cujas obras estão voltadas para a cultura popular nordestina, dando destaque à política da região de uma forma muito divertida.

    Um abraço
    Zezinha

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  7. Alba Morandini6:36 PM

    Muito obrigada pelo presente. Bom saber que tenho várias crônicas disponíveis para serem lidas devagarzinho. A maionese de salmonela é pouco para nossos políticos(argh!) . Mas é uma senhora idéia. Quanta limpeza poderia ser feita. Disfarçadamente. Do mesmo modo que eles fazem conosco (Já chegou para Você o email sobre a demissão do Garcia na Globo?). Quanto aos neutrons, protons e eletrons de hoje, publicada no Municipio, foi muita criatividade. Parabéns!!!Um grande abraço a todos os seus, particularmente e carinhosamente à Dna. Glorinha.

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  8. Waldimir Diniras Martins7:36 PM

    Boa noite, caro Marcelo Sguassabia.

    Lembranças a todos os seus, com muita saudade de meu saudoso e inesquecível amigo João Sguassabia.

    Um forte abraço e boa sorte em seus objetivos.

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  9. Marco Antonio Rossi2:20 AM

    CARO AMIGO MARCELO

    PARA CURAR TODAS ESSAS COMIDAS, SÓ AQUELA FAMOSA PINGA COM COBRA DENTRO........
    POLITICO FOGE, MAS SEUS GUARDAS COSTAS NAO.
    ABRAÇO
    ROSSI

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  10. Marcelo,
    Esse banquete é digno de pilantras. Eles merecem. Ótimo texto, parabéns!

    Abraço

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  11. E ainda pensamos que vida de político, tanto em campanha, como ´depois de eleito é fácil. Enganar o povo é uma tarefa árdua; se apropriar do dinheiro público, não deve ser nada fácil... E se livrar das iguarias oferecidas?! Haja jogo de cintura para os homens do colarinho branco. Coitadinhos! Parabéns pelo texto.

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  12. Olá, Marcelo! O banquete está ótimo. Esses pratos todos aí, que vc. preparou podem ser servidos,sem problema algum, em todos os comícios, que já estão empipocando em todas as cidades.

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  13. É dando que se recebe.

    Ágil e leve. Certeiro.

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  14. Cindy8:43 AM

    'Com certeza sua esperteza o livrava de muitos desarranjos intestinais,mas a sua competência era notória... que falta faz ao país homens a la janio, político dedicado de fato as causas a que se dedicava,varria o que não servia(hoje com certeza teria varrido tantos corruptos fosse da cueca, das meias , etc e não alegaria desconhecimento de causa NUNCA),quanto ao argumento do pão com banana era mais uma de suas inteligentes saídas , bem como a sua saída do planalto bem a tempo.Gostei do que li e foi muito bom lembrar do famoso presidente Janio.'

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  15. Miriam Sales8:44 AM

    Hilário! Depois te conto a estória da salada de frutas. rsss Abração

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  16. Sem comentários, Marcelo! Uma postagem que fala tudo diante desta dantesca corrida pela cadeira presidencial. Parabéns! Parabéns! Abraços Malu

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  17. Evelyne Furtado8:46 AM

    Vale a pena correr o risco da campanha para desfrutar o foie gras em Brasília? Ai,ai,ai...De certo só o sabor do seu texto, Marcelo! Adorei! Beijos

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  18. Geralda Dias8:47 AM

    Adorei! Mas que excelente ideia pra matar candidato ruim e se sair bem. Como não tive uma ideia dessas antes? Bem, antes tarde que nunca. Parabéns pelo texto.

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  19. Jorge Cortás Sader Filho8:48 AM

    Hehe! Sem erro, Marcelo. Candidato em comícios têm que se cuidar. Pão com banana? Comi muito, em excursões na Serra dos Órgãos. Não dá nenhum problema. Você lembrou do Jânio. Escondido, ele não dispensava uma boa talagada de destilado. Haja vista a adega encontrada nos porões do Planalto. Vai numa buchadinha de bode? Aquele abraço, Jorge

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  20. Clotilde - Tupã8:49 AM

    Chorei de tanto rir, na verdade à "bandeiras despregadas", como se falava naquele tempo. Mas fala sério, que esse povo todo candidato ai podia bem descer inteiro pela descarga, nénão?

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  21. Gina Júlia Soares8:50 AM

    Tive a oportunidade em meu trabalho, de visitar interiores com o Presidente da instituição federal para a qual estava cedida, e o "Chefe" era visto como um ídolo, todos querendo "homenageá-lo".... Serviram um bolo com um garfo espetado ao centro.. Na primeira garfada, meu estômago enrolou, tão forte o cheiro de ovo que ele exalava.... deixei tudo em um cantinho, coberto com um guardanapo. Evitei de ir para a "galinhada" oferecida... A boa vontade de agradar é grande, mas a qualidade dos acepipes servidos, bastante duvidosas... Ótimo texto!

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  22. Ana Maria4:29 PM

    Delícia de texto,Marcelo! Uma iguaria!

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  23. Marcos Bolacha4:29 PM

    Marcelão, Show de texto...Estou encaminhando aos políticos amigos...Abs.

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  24. Celi Estrada4:31 PM

    Gosto das suas crônicas.
    Celi

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  25. Pelo menos eles se compenetram muito bem em seus papéis de personagens risíveis! Quem disse que não fazem bom trabalho?
    Ótimo texto.
    Abraços

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  26. Mirze Souza12:56 AM

    Ah! Marcelo!

    Uma cena quase Rodriguiana, essa eu gostaria de ver. Direito à caspinhas e sanduiche de banana para garantir o estômago!

    O "Zé-Povinho" continua o mesmo dos tempos de Jânio. Os políticos mudaram sua forma de abordagem, a comida ou os "comes e bebes" agora estão mais requintados, não necessáriamente mais saudáveis. Alguns políticos distribuem "santinhos" no lugar de panfletos, os ataques ao eleitor se fazem via e-mail, facebook e twitter...enfim, preserve-se o patê de salmonella, para alguns pois, já que não conseguimos a democracia com o voto não obrigatório, alguns precisam ser infectados.

    Os provadores desses rega-bofes, devem exigir um salário à altura, uma vez que são os primeiros a provarem o possível "veneno" que está dentro do político e nao nos quitutes.


    Ao mesmo tempo que seu texto, rico em detalhes, despertaria no povo, no mínimo a tão famosa "fome". Não há regras, apenas exemplos como o que citou, do Jânio. Deve ser por isto que eles não mudam os hábitos!

    Fantástico o texto, além de mostrar um lado que quase ninguém conhece.

    Um forte abraço!

    Mirze

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  27. Sensacional!! Bem oportuna sua crônica, Marcelo. Perfeita!
    Aqui no Rio, lá pelos anos 80, um famoso político "populista" quando visitava algumas comunidades levava sempre, guardadinhos no bolso do paletó,um "sanduíche de mortadela" e um ovo cozido. Naquela época a mortadela não havia ganho ainda o "status" de hoje.[rs] Ninguém me contou. Cansei de ver esse "engodo". Não é "gordo" não, viu? Engodo mesmo.[rs]

    Parabéns, Marcelo. É sempre um prazer te ler!
    Um beijo, escritor.

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  28. Sueli - São Paulo4:16 PM

    Adorei o "sanduiche de salmonela". Agora, com relação a declarar-se vegetariano, eu adoraria poder servir "capim" para um monte deles... rs. Abração!

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  29. Oi Marcelo... Que bom ler você!!! Lembrei que cmentavam aqui no meu bairro que Janio usava "tamancas" ao visitar os hospitais públicos da região para verificar se estavam atendendo direitinho o povão...kkkk...Moro na Vila Maria, reduto do Janio...rsss...Quanto ao seu texto, conduziu muito bem, e como sempre foi hilário... Amei te ler...beijoooooooo

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  30. Mas não?? Já dizia minha vó que o lanchinho levado de casa é sempre mais saudável...

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  31. Belvedere Bruno4:28 PM

    Depois das maratonas tem que se tomar muito vermífugos.....rsssssssssss

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  32. Mara Narciso12:06 AM

    Crônica deliciosa e não perecível. Perdeu quem não a leu. E quem leu e não comentou, também cometeu grosseria, embora tenha se coçado para comentar.
    Lembrou-me meus conselhos aos candidatos portadores de diabetes, que ficam numa situação de difícil defesa: como rejeitar o café de Dona Maria, lotado de açúcar? Se não beber nada é orgulhoso, pois tem nojo de colocar a boca onde os demais o fazem. Recomendo dizer, diante da perigosa oferenda: ACEITO ÁGUA!!!

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  33. Carmo Vasconcelos - Lisboa4:24 PM

    Lendo e apreciando a criatividade e o humor!
    Dois ingredientes que me entram pelos olhos e me fazem sair risos pela boca. (com perdão pela redundância)
    Adorei... e guardei na sua pastinha de colaborador da eisFluências!!!!!!!!!!

    Abraço e carinho
    Carmo Vasconcelos

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