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REFÉNS


Poderia apertar aquele parafusinho minúsculo e a coisa voltaria a funcionar perfeitamente. Bastaria um quarto de volta em sentido horário, com uma chave philips e pronto. Problema de mau contato. Mas olhei pra cara da freguesa e vi que ela devia usar Lancôme da testa à unha do pé, e que só aquele solitário na mão direita valia mais que a minha oficina inteira. Então pintei a coisa bem preta para valorizar o serviço. Pelo menos três dias na bancada, para testes no voltímetro. Provavelmente era o diodo do transistor com o relê de amperagem em corrente descontínua, e pra trocar a pecinha só substituindo a placa toda – importada do Japão. Seria uma das hipóteses, mas para ter certeza, só abrindo tudo e aferindo cada um dos componentes na oficina.

- Olha, dona, por enquanto a senhora acerta comigo a visita técnica. Pode ficar tranquila que só toco o serviço com a aprovação do orçamento. Mas se for isso mesmo que estou pensando, melhor vender como sucata e comprar outro. Também não vale a pena levar à Autorizada, eles vão querer cobrar umas três vezes mais da senhora. Mas olha, pode ficar à vontade, pelo amor de Deus, não estou querendo forçar nada, faça como quiser...

Daí a três dias ela liga perguntando se o orçamento está pronto. Valorizo um pouco mais, digo que tenho que baixar o manual de especificações atualizadas do produto no site do fabricante e peço que ligue de novo depois de amanhã, mas que provavelmente é aquilo que lhe disse. Ela torna a ligar no sábado às nove, eu prometo para segunda. Na segunda eu confirmo a morte prematura de todo o circuito impresso. Ela vende para mim mesmo o aparelho ainda na caixa por R$14,50 e já pede que eu encomende um novo. Falo com aquele meu brother da Santa Ifigênia, e combinamos 350% em cima do preço de custo. A título de honorários. Aperto o parafuso da belezinha que me caiu no colo por R$14,50 e passo pra frente pelo preço do novo, para outro cliente.


********


Está tudo esquematizado, Lontra. A gente começa falando em possibilidade de apendicite - pela alta ingestão de milho verde na véspera associada à estafa física causada por 16 voltas ininterruptas no pedalinho do lago municipal, conforme relatado pelo próprio paciente.

Mas vamos devagar para não assustar a família, até porque a gente sabe que o cara não tem nada. Se começar a meter muito medo, eles vão atrás de uma segunda opinião e aí a gente se encrenca.

Ratazana libera os trâmites necessários para os exames preliminares, os raios X e os laboratoriais de rotina. Esquema quinze/quinze/quinze pra cada um dos três, como acertado. Golfinho, homem de confiança do Pantera, coordena todo o processo de diagnóstico por imagem (lembrando que aí o esquema é sessenta/dez/dez/dez/dez e que é indispensável a rubrica do Potranca, para a perícia não pegar).

Daí pra frente a gente coloca o infeliz num tomógrafo e diz que o milho verde do quiosque reagiu quimicamente no duodeno e seus grãos transmutaram-se em quistos, um caso incomum mas não propriamente raro nos anais da medicina. Aí a gente diz que é necessária uma ressonância para sacramentar o diagnóstico. Como todos sabem, este exame ter de ser no cash. Mas tudo bem, sondei a ficha e vi que o infeliz é fazendeiro em Palmas. Quanto aos honorários fica 50% para mim e a outra metade para dividir com o zoológico, conforme organograma. Peço que o Avestruz envie cópia deste aos demais envolvidos, que deverão deletar esta mensagem assim que lida. Bom trabalho a todos.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. E assim caminha o mundo, em todos os sentidos.
    Bem conduzido, Marcelo! Explorou bem a credibilidade dos inocentes e a argúcia dos safados, permita o termo, que estão dominando o mundo.

    Abraços,
    Jorge

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  2. Marcelo, sua leitura é agradável.
    Abraços.

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  3. Miriam de Sales Oliveira11:14 AM

    E nas oficinas de automóveis,hein? Abração

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  4. Essa da área de saúde é bem parecida com a que tentaram passar pra gente, há alguns anos. E assim caminha a humanidade, pra fora dos trilhos. Bo mesmo, Marcelo.
    Abraço pra você.

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  5. Rafael Paiva Silva2:52 PM

    Marcelo,


    Pra variar, um prazer ler suas crônicas.

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  6. Gercio4:23 PM

    Muito bem explorado o assunto, faz parte do cotidiano do brasileiro, que pelo seu comodismo prefere sempre acreditar na boa fé das pessoas.

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  7. Quuer dizer, não só 'agradável'!
    É bem mais que isso!
    Vc captou a cara de pau, a tranquilidade, a inscrupulosidade, a indiferença (quase maldosa eu diria, e é!), que alguns demostram ter para com as pessoas em geral.
    Uma tristeza... Mas, admirável, captar esss sentimentos como vc o fez.

    Falo, não de cátedra, pois não sou assim tão sacana, mas, já abriguei este tipo de comportamento.

    Parabéns!!

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  8. Obrigada pelo e-mail.

    Julgar os outros por si mesmo, dá nisso! Por isso, sempre peço até uma quarta opinião antes de fazer qualquer coisa.

    Infelizmente é a pura realidade!

    Teu blog é muito interessante!

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  9. Roseana Maria Dutra7:27 AM

    É isso mesmo, Marcelo, somos reféns da falta de ética, da ambição e da ganância.

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  10. Profa. Rosana2:47 PM

    Oi...boa tarde...
    Amei o texto...Preciso dizer o motivo??

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  11. Heloisa2:49 PM

    :)))))))))))))))))) muito bom, Marcelo! Fico imaginando de onde você tira esses nomes... q imaginação!!!! adorei!!

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  12. Você exercita sua pena talentosa e ainda pega em cheio nos arautos da Lei de Gerson... sei que a intenção maior é a lavra cheia de humor, mas de lambuja ganhamos uma crítica de costumes... abs.

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  13. Marco Antonio Rossi8:37 AM

    Ë MEU AMIGO, ESSA FILOSOFIA DOS PRESTADORES DE SERVIÇOS,PRINCIPALMENTE OS RESIDENCIAIS, ESTA PRESENTE EM TODOS ELES.....
    ABRAÇO
    ROSSI

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  14. O que me conforta é saber e crer que tudo nessa vida tem um preço. A cobrança é certa e sempre pega a pessoa desprevinida.
    Por isso é bom sempre rever as contas que estamos fazendo para pagar no futuro...
    Abraço

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  15. Ana Maria8:18 AM

    Impecável, como sempre marcelo. Abração! Ana

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  16. Uma foto digital da saúde no nosso país. E com isso surge a ponte de safena feita em artéria errada, rim saudável retirado no lugar do órgão doente, fraturas não detectadas (meu caso)...Sem contar as notas superfaturadas de materiais cirúrgicos. Muitos deles não são utilizados nos pacientes, como "stents coronários" e "pinos", mas faturados...e como. Esses fatos foram denunciados há poucos meses no Rio. Lamentável. Somos também reféns da impunidade, não é Marcelo?
    Um beijo amigo e meus parabéns por mais esse belo texto!

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  17. Alejandra Barbery5:23 AM

    Me gusta tu blog. Saludos y salud!

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  18. Mara Narciso1:48 AM

    Não duvido desses expedientes, pois já fui vítima deles. Em todos os casos há desconfiança, mas no médico, embora esteja em queda livre, a população confia um pouco mais.

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  19. E depois botam os nomes desses aí nas cédulas eletrônicas e não temos escolha entre um ou outro. Até o branco e o nulo acabam sendo duvidosos. Depois... só daqui a quatro anos, isso se não se reelegerem!

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  20. Mirze Souza3:18 AM

    Marcelo!

    Excelente texto e atualíssimo!

    Somos reféns em qualquer lugar. Às vezes me pergunto quando e onde começou isto. Não era assim no tempo em que meu pai tinha farmácia. Meus valores são outros e repudio essa nova teoria de enganar e levar vantagem. Money and Kidnap.

    É preciso que haja uma revolução por baixo na cultura, nos valores. A televisão passa essa imagem, o que não acontece com os jornais. Leio o jornal e formo uma opinião baseada em meus princípios morais. A televisão hipnotiza e manipula opiniões em massa.

    Há cinco anos estou com diverticulite no duodeno. O meu clínico, quando diagnosticou, chorou. Passou para mim o exame, e disse: "faça o que for possível", mas não opere, nem permita que lhe operem, pois o óbito é imediato.

    Passo de médico em médico e uma opinião cirúrgica foi-me indicada. Logo depois veio uma ordem do hospital negando o procedimento, pois não poderia macular o nome do hospital que perde pontos dependendo do número de óbitos.

    Enfim continuo doente, perdi todos os meus empregos, e comecei a escrever. Sempre ao lado da cama, pois não posso ficar muito tempo sentada, nem em pé, nem deitada. A alimentação foi reduzida ao mínimo. E eu me pergunto: a medicina avançou mas não tem sucesso em coisas mínimas.

    Até quando seremos reféns: Quem levantará essa bandeira, se ninguém reage. às vezes penso que estamos como as vítimas do holocausto. Porque eles não reagiam, se eram em número muito maior. Não temos líderes. Não existe mais moral, e os valores são esses que você tão bem deixou explícito neste excelente artigo.

    Parabéns, Marcelo!

    Espero que o seu grito ecoe.

    Beijos

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  21. Tudo nesse país tem mutretagem, nesse mundo. A parafuseta do ferro a vapor ou uma operação de apendicite. Muito bom o texto, assim como todos os outros! Seu blog é mais um dos que sigo e leio com prazer!
    Abraços e boa semana!

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  22. Evelyne9:58 AM

    Somos reféns da ausência da ética em setores diversos. Na medicina esse “vale tudo” é um pecado mortal. Torço para que o quadro mude. Excelente texto, Marcelo! Parabéns e beijos.

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  23. Malu - Cabreuva9:59 AM

    Eh! Marcelo, é bem assim que as coisas vêm acontecendo há muito tempo. Todos querem levar seu pedacinho. Texti intrigante! Gostei. Um abraço

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  24. O LETRAEME, como um bom blog de trabalhos de propaganda Iinstitucional também), bem que poderia ter caixa de comentário, e adesão...

    Abrçs.

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