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TERRA DE GIGANTES

Ilustração: Marco Fraga


Pimpões, com cara de quem fez e não quer que ninguém fique sabendo, cabelos repartidos e cheirando a sabonete Phebo, pulávamos em nossos pufes. No mesmo quarto em que ficavam os bambis de olhos de vidro - uns de pelúcia curta, malhados de branco e preto, empalhada espécie de duvidoso gosto. Ao menos parecia ser dessa forma que o quadro se definia, já que ninguém tem certeza do que se passa de fato quando se trata de sonho. Fred Flintstone gritava “Wilmaaaaaaaa” entre uma garfada e outra no filé de brontossauro. Tocou a campainha. “Judith de Jesus Bezerra, sua criada” – assim se apresentou aos grandes. E era criada mesmo, pondo-se a espanar os móveis, lustrar com flanela as pratas e agachar-se de um jeito que deixaria os meninos de barba com pensamentos pouco edificantes. Todo dia é dia, toda hora é hora de saber que esse mundo é seu. Pois sucedia que o mundo era posse indiscutivelmente nossa, e nem pensar em dar asilo a estrangeiros de outro quarteirão. O mundo era uma planície de marias-moles e caixinhas de surpresa, que em nada surpreendiam com seus anéis de lata, automovinhos e bichos bobos de plástico. Graça tinha estilingar vidraça, deixar um dos bambis caolhos e mergulhar o órgão extirpado na mousse de maracujá. “Mas quem foi o filho da mãe...” e ninguém era filho de ninguém até que alguém dedurasse, caso tivesse visto. E o sonho corria, e eu me via como se olhasse de uma escotilha vendo o sonho dentro do sonho se estender sem parar mais. O filho do vizinho tocava prato na fanfarra (era mesmo ou só no sonho?) mas tinha que ensaiar para isso, e essa era a pior parte. Raios duplos. Raios triplos. Não quero mais ser pequeno. Um dia ainda tiro carta, aí é que ninguém me pega no meu fusca tala larga. Versão brasileira, Herbert Richers.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Mirze Souza disse...
    Marcelo!

    Terra de Gigantes é um sonho gigante.
    No sonho, tudo é possível. Voltar aos tempos de criança é a melhor parte para alguns, os que tiveram infância.

    A voz de Fred Flinststone, mesmo no sonho, lembra e acorda para o fato da existência da autoridade, que se encontra no grito, na ordem e no fato de ser um "macho" a gritar para alguém, que lhe é subordinado, embora não devesse.

    A criança que sonhava, desperta para o fato da masculinidade e seu poder, ao entrar a "criada" e edificar pensamentos próprios da idade.

    E nesse "transe" vem a parte que considero importante:

    "o mundo era posse indiscutivelmente nossa,".

    Aqui acaba o sonho. O barulho da guitarra do filho da vizinha, raios duplos e triplos acordam qualquer menino, para a constatação da dúvida e do anseio.

    Duvida de ter a posse do mundo, e anseio pelo futuro que vem em passos galopantes, e é preciso crescer rápido e ter uma profissão.

    "Um dia ainda tiro carta, aí é que ninguém me pega no meu fusca tala larga. Versão brasileira, Herbert Richers."

    Versão brasileira: Marcelo Sguassabia!

    Um forte abraço!

    Mirze

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  2. Cara, resgate memórico duca me causou essa sua lavra sonhadora! Dormia olhando apaixonadamente pra minha coleção de carrinhos de ferro sobre a cômoda. E indo para os periféricos agachamentos insinuantes das secretárias domésticas: affe!!!!

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  3. Marcelo, o meu bambi era alaranjado e duro. O anel de lata tinha pedra verde, minha preferida. Fusca? Só conheci e entrei em um quando me casei com o dono dele. Os filhos do dono do fusca, hoje, têm controle remoto.
    Nostalgia faz muito bem ao futuro. Como faz.
    Grande abraço, menino inteligente!

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  4. Com experiência. Marcelo dá um passeio em fatos ocorridos.
    Vizinhos, empregada que endoidecia os pirralhos e até mesmo o velho fusca, com tala larga.
    Faz a gente sentir saudade!

    Abraços,
    Jorge

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  5. Marco Antonio Rossi1:43 AM

    MEU AMIGO
    FALTOU O BRUCUTU DA VW NO FICHÁRIO.......
    GRANDE ABRAÇO E OBRIGado POR ME DEIXAR PARTICIPAR DE SUAS CRONICAS.
    ROSSI

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  6. Bernadete Valadares - Felixlândia3:03 AM

    Oi, Marcelo! A vida não se repete nem permanece como antes!... Ler o seu texto é retroceder no sonho e experimentar o gostinho de ser pequeno e querer crescer!... Bjo grande!

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  7. Dade Amorim - Rio3:04 AM

    Passamos por essas coisas. Nem pensávamos no que vinha depois. Mas o que veio depois tem seus sonhos também, sem bambis de pelúcia, às vezes com ursinhos, é verdade. Importante é que otexto continua ótimo.

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  8. Zezinha Sousa3:05 AM

    Que legal, Marcelo!!!! Lembrei de coisas que eu adorava na minha infância como assistir Fred Flintstone. Muito bom te ler. Parabéns! Muito sucesso, vc merece com toda essa criatividade! Bjos!!

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  9. Oi Marcelo, seu texto me deixou com saudades de mim. Que bom seria poder voltar nem que fosse por um instante à minha infância. Passou um filme agora por minha mente. Obrigada por isso.

    Abraço

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  10. Oi Marcelo,tudo bem? Só um gigante como você pra escrever essa maravilha. Amei!! Conteúdos infantis devem ser guardados. Eles fazem com que sejamos adultos felizes, bem resolvidos, né Marcelo? E essa é a leitura que faço de você, uma pessoa alegre,com uma aura linda. Ai que saudade do fusca, do bambi (o meu era vesgo).[rs]Lembrei também do meu pai.Tadinho... vivia gritando "Lauuuuu".... e não "Vilmaaaa", como o Flintstone.[rs]
    Parabéns!!!!
    Um beijo, amigo talentoso.

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  11. Olá, Sr. Marcelo Sguassábia,

    Aqui é a menina fiscalizadora de emails... Vim fazer a vistoria. rs
    Seu texto me fez sorrir...
    Ando tendo vontade de ser criança para não ter noção do tempo passar... Amanhã estarei de cabelos brancos... Amarei os fios grisalhos, mas será que haverá amor?
    Passado-presente-futuro... tudo se resume ao tempo. Implacável.


    Um beijo de borboleta sem medo de leão.

    =)

    Eu.

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  12. Me deparei com um sonho que já tive. Sonho que assisti de camarote. Ainda sinto cheiro de cera poliflor naquele quarto de tacos, nas sextas-feiras, dia de limpeza na casa da minha mãe. Que sonho bom...E eu não tive o fusca, mas uma brasília laranjinha, das boas...kkk...Pena que eu acreditava que ninguém ia me pegar assim como vc no fusca tala larga...Que saudade...Que sonho lindo...Que vida !!! Pena que eu acordei!!!Amei seu sonho, Marcelo.
    Como sempre, me encantei...Um beijo...

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  13. Marcelo...esse mundo de coisas fantásticas tem cheiro e gosto de Alice. Seu mundo de maravilhas é nosso, tb. Bj

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  14. Muito interessante a forma como você descreve as coisas e as situações; a descrição faz com que mergulhemos em seu texto, vivenciando, vendo cada cena descrita. Li e vi a infância de um menino muito peralta, de certa forma lembrei-me de minha infância, claro que eu não era tão peralta, assim, rsrsr... Grande abraço

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  15. Esses sonhos de nós todos, tão ternos e tão próximos na lonjura do tempo, trazem de volta o frescor e o colorido a esses dias secos e cinzentos, próprios desde mundo de adultos que fingem trancafiá-los para sempre. Perene utopia!
    Abraços

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  16. Evelyne Furtado4:42 PM

    Um recorte com gosto da infância quando todos os sonhos são possíveis... e a vontade de ser, enfim, adulto e "livre? Adorei, Marcelo! Beijos e ótima semana, amigo!

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  17. Luiz de Aquino - Goiânia4:43 PM

    Que bela viagem pelas oníricas estradas e paisagens do tempo! Tenho certeza de que mexeu com intimidades de muitas gerações, Marcelo! Abraços.

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  18. Carmen Moreno - Rio4:43 PM

    Marcelo, obrigada pelo texto. O apreço que você tem pela linguagem me atrai muito. Sua prosa bem cuidada e original é quase rara nos tempos de hoje, em que boa parte do que se lê é para fácil degustação. Abs, Carmen Moreno

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  19. Gina Soares - Belém4:45 PM

    Bons tempos!! Sempre bom matar as saudades do passado, e remexer nas lembranças. Abs

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  20. Cristina Siqueira - Tatuí4:45 PM

    Oi Marcelo, O tal do automovinho e´muito meigo.Lindo! O fusca tala larga " o mundo era posse nossa" Gostei muito Beijos, Cris

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  21. Lídia Maria de Melo4:46 PM

    Se a Terra era de Gigantes, estávamos Perdidos no Espaço. Yabadabadu

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  22. Marcelo,
    Atualmente tenho sentido mta saudade da minha infância junto aos meus pais e esse texto maravilhoso me proporcionou lembranças detalhadas de como foi bom. Eu via meus pais como gigantes e isso era real...
    Mto bom seu texto,ótimo, parabéns com louvor!
    Obrigada pela visita lá no empório,fiquei lisonjeada e envergonhada pela simplicidade e balelas que vez ou outra coloco nas prateleiras empoeiradas pelo desânimo, rsrsrs.
    Abraço

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  23. Ligia Tomarchio4:27 PM

    Olá Marcelo amigo! Texto gostoso de ler... Ficou a imagem e o gosto da infância quase perdida na minha memória... Obrigada pelo envio. Beijinhos mil!!! Ligi@Tomarchio®

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