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A ALÇA, ESTA ESQUECIDA




O publicitário e quase psicólogo Humberto de Almeida, co-autor do consagrado “O moço e seus problemas”, surpreendeu há poucas semanas a comunidade acadêmica com ensaio onde discorre formidavelmente sobre a utilidade do cabo em sua dupla função – quer seja, a de empunhadura e/ou apoio para o manejo dos mais diversos utensílios e ferramentas, da panela à enxada. Uma empreitada de fôlego, em que o insigne estudioso alicerça sua argumentação em torno do cabo e sua descomunal influência sobre a história e o comportamento dos caucasianos, dos aborígenes e dos afrodescendentes. Absorto nestas e noutras considerações tecidas por Almeida, me dei conta da ausência de teses e outras fontes bibliográficas que versassem a respeito de sua prima-irmã, tão vulgarizada no âmbito prático quanto relegada a segundo plano no universo teórico: a alça, este prosaico e seminal artefato.

Assim, ousaria elencar algumas dentre as muitas acepções da alça que se prestariam como riquíssimos objetos para futuras dissertações e estudos de maior envergadura.

. A alça de sacola de feira, suas peculiaridades ergonômicas e sua relevância como agente alavancador especialmente da economia informal, nos grandes e pequenos burgos da América Espanhola;

. A alça de trem de metrô, sua evolução ao longo dos anos e seu papel gregário no contexto do transporte coletivo, haja vista que não raro cada alça é dividida – frequentemente em horários de pico - por duas, três ou até mais mãos que nela se apoiam simultaneamente durante o trajeto;

. A alça de sutiã e a de vestido, entendidas não apenas como elementos de sustentação das citadas peças de vestuário mas também como fetiches que povoam o imaginário masculino deste tempos imemoriais – independente de peso, estatura ou estado civil (não das usuárias das alças, mas dos admiradores das mesmas);

. A derradeira alça, a de caixão. Seu design, material e disposição nas diferentes formas de ataúde espalhadas pelo globo.

Há, contudo, algumas exceções que não se encaixam devidamente à função literal da alça:

. A chamada alça de mira – que, como todos sabem, não tem nem nunca teve a finalidade de alça nas escopetas, carabinas, metralhadoras e pistolas;

. A expressão “mala sem alça”, cunhada originalmente no Reino Unido em meados dos anos 1950 como “Suitcase without handle”, que em geral denomina os doidivanas que pululam à nossa volta e por assim dizer não apresentam serventia para coisa alguma, a não ser aborrecer-nos com sua loquacidade enfadonha e sua avidez perguntativa. Vale enfatizar que o vocábulo “alça” vem caindo em desuso para designar estes estorvos em forma humana, permanecendo apenas a abreviação “mala”;

. O verbo “alçar”, de onde deriva a expressão “alçar voo”, que significa decolar por si mesmo, ou seja, por propulsão própria – não havendo, por conseguinte, a necessidade de uma alça para erguer a ave ou a aeronave do solo;

. A enigmática e quase hieroglífica definição do Dicionário Houaiss para “alça” como termo de marinha: “estropo adaptado à goivadura da caixa de moitões, cadernais ou sapatas”. Quem puder que lance luz...

Por ter atingido os píncaros da glória nas lides freudianas – dedicando-se nos últimos anos tão somente às tardes de autógrafos e às coletivas de imprensa nos simpósios internacionais de que participa, é pouco provável que Almeida consagre à alça a mesma relevância que deu ao cabo em seu antológico tomo. Todavia, fica aqui a sugestão para que outros teóricos de igual quilate arregacem as mangas e se debrucem com o devido afinco a tema tão rico e pouco investigado.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Marcelo!

    A alça está mesmo marchando para o esquecimento. As sacolas e malas, já tem rodinhas e puxa-dores, bem mais confiáveis que o "arrebentar de alças em pleno espaço urbano e as compras caindo pelo chão.

    O silicone usado em massa para seios, estão eliminando os soutiens e as roupas sem alça chamam mais atenção. Inclusive as roupas de praia (não nudistas). Os médicos acham que a sustentação do seio força algumas vértebras e não os mantém naturais. ( não acredito, mas....)

    Se analisarmos os pássaros que alçam voos sem precisar de alças, veremos que as alças do futuro serão simbólica-mente as alças do caixão. Mesmo assim apenas para tirar do suporte ou aparador e colocar no carrinho que o levará pelas mãos de estranhos para o túmulo.

    Há ainda o alçapão, que ainda existe em algumas casas.

    Agora o "mala sem alça" está vingando e se proliferando cada vez mais. Meu pai, quando já estava doente, se alto-intitulava assim, para meu desespero. Porque foi com muito amor que cuidei dele.

    Enfim a ergonomia, vai precisar se modernizar. Já viajei em metrô com assentos vazios e pessoas, indo segurar as alças para se aproximar de alguem. Unir as mãos, é sempre um começo.

    Agora, os suportes de metais como na imagem, estão cada vez sendo mais utilizados em casa de idosos, banheiros e hospitais. Esta alça dificilmente será obsoleta.

    Um forte abraço!

    Parabéns pelo texto sugestivo.

    Mirze

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. ...olá moço!

    a mim, no momento, as benditas alças
    estão servindo para que meu marido,
    vítima de um AVC, possa apoiar-se
    para os movimentos mais básicos,
    como andar segurando nas mesmas
    e assim treinar equilíbrio, ou
    apoiar-se na hora do banho.

    sem estas 'alças', com certeza
    suas limitações seriam muito mais
    difíceis de serem levadas, ou
    seus objetivos atingidos.

    logo,
    penso que algumas 'alças' sempre
    terão valor entre nós.

    outras...

    bj

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  4. Olá!. Não há expressões que dê cabo às alças. Nem alças que caibam nos cabos. Cá entre nós. Há nós em alças que nem cortando se desfazem. Mas não conseguimos dar nós em cabos, ainda mais se estes forem de aço. Quanto a alça, alçando tal pertinência ao topo da minha sinagoga, colocar-me-ei em alçada reflexão sobre o tema sugerido pelo nobre colega, que não é nem uma mala sem alça.
    Se da minha mesopopéia não conseguir extrair nenhum caldinho, darei, certamente, cabo em tão destemida alça.
    Que assunto mais sem cabo, siô!
    Moço, moço! Senhor anda melhorando muito. Não demora vai dar cabo à minha memória tão desalçada.

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  5. E ai Marcelo, dá uma conferida la no meu ultimo texto!?

    abraço

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  6. Esse jeito polissêmico de ser da nossa língua é muito bacana!
    Parabéns, Marcelo!
    Adorei!!!

    Acho que o mais interessante de tudo isso é saber que tem sempre alguém que vai escrever sobre o que nunca imaginávamos... rs
    Veja só...
    Olha que belo texto produzido sobre "alça"... rs
    Amo!

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  7. Surpreendentemente hilário...Amei, Marcelo...Nunca pensei ler tal comparações. Como você consegue??...PARABÉNSSSSSSSSSSSS...beijoooo

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  8. Marcelo,
    Mto bom seu texto,parabéns.
    Abraço

    ResponderExcluir
  9. José Carlos Carneiro1:48 PM

    Divagou mesmo, voou lá pras alturas, mesmo sem asas. Voos assim nos fazem tirar os pés do chão, na leitura prazerosa do que consegue inovar, criando. E o seu vocabulário é cada vez mais rico, mesmo usando-o de maneira divertida.
    Um bom domingo para você e família.

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  10. Marco Antonio Rossi1:51 PM

    MEU AMIGO, NADA COMO ENTENDER DA SUA PRÓPRIA ALÇADA E ESCREVER SOBRE A ALÇA.
    PARABENS.

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  11. Lídia Maria de Melo - SAntos1:54 PM

    Adoro ser surpreendida. Com perspicácia, inteligência e humor, você desvenda as sutilezas ocultas nessa palavra tão banal. Muito bom!

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  12. Lauro Augusto Bittencourt Borges - Sanja1:57 PM

    Quero dizer que mote tão necessário à evolução humana não ficará ausente das teses acadêmicas. A Academia Macaúbica de Assuntos Relevantes (AMAR), informa o seu porta-voz Tereziano dos Crepúsculos, já formou comissão para estudar, e quiçá consagrar, a alça. E, aproveitando, a AMADEU, Academia Macaúbica de Design Universal, parabeniza o signatário do blog pela nova embalagem. Ficou 10!!!!

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  13. Bernadete - Felixlândia1:57 PM

    Olá Marcelo! Gostei da alça!...Qer no sentido literal, quer no sentido figurado ela sempre sustenta nossas "fraquezas" e pode ser objeto de pesquisa, de desejo...ou,na pior das hipóteses, simples objeto de apoio(se as olharmos sem paixão!) Beijo grande!

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  14. Gina Soares - Belém1:58 PM

    4 letras com tantos significados. Adorei o texto. Abs

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  15. Zezinha - Glória do Goitá1:59 PM

    Todas as alças citadas precisam de mãos para que elas cumpram com dignidade suas variadas funções a que se destinam. desde a mais fúnebre como segurar a alça de um caixão como a mais sensual como ajudar uma mulher a arrumar ou desarrumar a alça do seu vestido ou sutiã. Portanto, fica uma sugestão a quem se interessar em se debruçar com afinco a esse tema, que não deixe a alça sem mãos como está acontecendo com a coitada da mala. Marcelo, gosto muito de ler seus textos, sempre me divirto. Vc é DEMAIS!!!! Parabéns! Um abraço com carinho Zezinha

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  16. Maria Inês Prado - Sanja1:59 PM

    Marcelo, Sua produção me faz lembrar Fio e fios, poema que criei há tempos. As malas da vida, os fios da vida, ambos dariam para incursões infinitas. Abraço, M. Inês Prado

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  17. Evelyne Furtado2:00 PM

    Podemos dispensar o estudo de Humberto de Almeida, rs. Seu texto é definitivo sobre o assunto. Adorei, Marcelo! Bjs e um otimo feriado para você.

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  18. Jorge Cortás Sader2:01 PM

    Hehe! Não são todos que tem a facilidade de Marcelo para brincadeiras deste tipo. Inventivo, com linguagem simples, mas rica, faz troça das tolices atuais, usando como tema a importância das alças. Eita talento! Abraços, Jorge

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  19. Cida - Sete Lagoas2:07 PM

    Gosto de pensar que a função da alça do sutiã é simplesmente fetiche, nada de sustentação... Coloque na lista a alça da pasta do professor; essa é mesmo forte, suporta uma carga enorme.

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  20. Marcelo, só você, com sua criatividade, para nos "laçar" com texto tão original e informativo.
    Me incomoda a alça, ou melhor, as malas sem elas (as alças). Essas, meu amigo, crescem a cada dia e numa proporção...
    Dão verdadeiros nós nas "alças intestinais" ...[rs]
    Haja alça... de ferro para conseguir levá-las pra bem longe.[rs]Adorei seu tratado. Genial!

    Beijos, escritor talentoso.

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  21. Mara Narciso1:17 AM

    Marcelo, com um pouquinho mais você escreveria um artigo científico sobre o tema das alças.A cada dia não me surpreende é o fato de parecer ter sido fácil escrever isso, e quase nenhuma perquisa ou revisão, serem necessárias para o nascimento dessa página com alças.

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  22. Marcelo:
    Divertido filosofar sobre nossas necessidades, exotismos e fetiches. Alcei voo pulando de alça em alça! Memorável.
    Abraços

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  23. Muito interessante, Marcelo. Criativo por demais!
    Beijinhos!

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  24. Risomar Fasanaro1:18 AM

    Mas este texto já é o embrião de uma tese, Marcelo! Manda ver! continua...Que originalidade, tomar a alça como tema. Gostei.
    Abraços

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