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Mostrando postagens de Outubro, 2010

EFEITO BORBOLETA

À exceção do Silvio Santos, que ao que tudo indica nunca assistiu a filme algum, o mais provável é que todos já tenham visto este arrasa-quarteirão, que tem como argumento o fato de que o bater de asas de uma borboleta na favela da Rocinha pode provocar um tufão nas Ilhas Galápagos. Ou seja, amarrar primeiro o cadarço do sapato esquerdo e não do direito, como de costume, pode afetar o desenrolar da história em seus acontecimentos cruciais. É o que também chamam de “Teoria do Caos”, febrilmente estudada e nunca suficientemente compreendida. Pois eu, que tudo presenciei naquela ocasião, pude comprovar na prática o cinematográfico postulado. Não com uma borboleta, mas com um punhado de fubá. E posso dizer, por experiência própria, que o mundo tal qual o conhecemos hoje assim não seria não fosse o fubá nosso de cada dia. Uns oitocentos gramas, se tanto, de prosaico e inocente fubazinho ralo e sem marca.

Começou com o milho sendo pilado, na palhoça de colono. Uns grãozinhos maiores no fundo…

PIADABRAS

Ilustração: Marco Fraga


Piada, anedota ou patacoada, como diziam os mais antigos. Chame como quiser. O que importa é que todos saibam que as piadas não nascem do nada, sem pai nem mãe. Elas existem com o propósito definido de anestesiar o populacho e há uma superestrutura que as orquestra, diretamente subordinada aos altos escalões da administração pública federal. Uma espécie de serviço de inteligência, com a diferença de que não há realização de concurso para provimento de cargos, sendo seus integrantes contratados com base nos critérios de notória competência e especialização. Digo isto de cátedra, pois sou parte desta indústria. Desta desconhecida e desvalorizada indústria. Sim, amigos, as piadas têm autores e os autores têm cotas de novas piadas a conceber, da mesma forma que os boias-frias têm suas cotas diárias de cana para cortar.

Não estou autorizado a revelar a localização geográfica da nossa organização. Posso afirmar apenas que ela funciona nas antigas dependências de uma de…

FESTA DE INTEGRAÇÃO CRIANÇA-EMPRESA

Ilustração: Marco Fraga


De: Diretoria de Recursos Humanos
Para: Coordenadoria de Assuntos Sociais

Ref: Festa de Integração Criança-Empresa

Senhores,
Com relação ao assunto supra-citado, é imperioso frisar que temos apenas 3 meses e 22 dias para definirmos um plano estratégico de ações. Pela complexidade do tema, estamos correndo contra o tempo. Sugiro uma reunião de nossas diretorias para que possamos estabelecer metas conjuntas e criarmos uma comissão executiva, cuja incumbência envolverá os múltiplos aspectos a serem providenciados – do perfil psico-social do homem do algodão doce aos testes de elasticidade e resistência das bexigas.

De: Coordenadoria de Assuntos Sociais
Para: Diretoria de Recursos Humanos

Perfeitamente, senhor Diretor. Como start do projeto, já temos um croqui enviado por nossa agência de eventos, para ambientação do salão de festas. A nosso ver, é imprescindível uma correção na quantidade de purpurina nas sobrancelhas da Pequena Sereia. No processo licitatório o fornecedo…

DEMOROU

- Teve uma hora que eu vi o parzinho na íntegra, cara. O vento bateu esquisito, e a blusa dela parecia vela de barco. Quando aconteceu, fez aquele barulhinho de bandeira tremulando. Não tem noção. Foi a cena do bueiro da Marilyn, só que na parte de cima. E eu de cara pregada naquelas duas coisas, iguais e enlouquecedoras.
- E aí?
- Ela viu que eu vi, flagrou o arregalo do olho. Cobriu depressa o patrimônio. Disfarçou, eu não. Uma visão dessa te deixa sem saber o que fazer com as mãos, pra onde correr. Mas correr é a última coisa que passa pela cabeça com aqueles dois olhos de carne te olhando de repente, no susto. Um ar quente e perfumado das lindezinhas guardadas, tesouro abafado posto pra fora. Você não quer que acabe jeito nenhum, quer levar a visão contigo, deixar que te persiga e te incomode. Nunca que a gente acostuma de olhar aquilo sem espanto. O Cara lá em cima inventou esse negócio pra ser mistério mesmo, e pronto.
- Nem. Conta mais aí, reparte direito essa paradinha comigo.
- F…

ÚLTIMO MOVIMENTO

I

- Dizendo quase nada você entrega o que se passa e não percebe. É impressionante essa sua, digamos, faculdade da transparência.
- O problema é esse. Disfarçar não sei, nem quero. Sou um edifício em construção contínua e onde se vêem todos os andaimes, mal comparando é bem por aí. Quando rio ou choro por dentro é coisa que faço com as mãos, com os pés, com as tripas todas e especialmente com os olhos. Fica muito escrito na cara. Não tenho agenda oculta, meu amigo. Allegro é Allegro, Andante é Andante, Presto é Presto. Tudo o que mais quero agora são menos holofotes, coletivas, autógrafos. Uns dias de folga para tocar o piano de dentro, um mofo bom de estância velha em cama estreita e sem conforto.

II

- Você sofre com o fato de espalhar brilho por onde anda e a vontade de passar pelo mundo desapercebida. Minueto perdido de Mozart num escombro da Segunda Guerra, no fundo é isso o que você queria ser, uma gema rara mas ao mesmo tempo uma ruína sem chance de descobrimento ou reconstituição. …