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DEMOROU


- Teve uma hora que eu vi o parzinho na íntegra, cara. O vento bateu esquisito, e a blusa dela parecia vela de barco. Quando aconteceu, fez aquele barulhinho de bandeira tremulando. Não tem noção. Foi a cena do bueiro da Marilyn, só que na parte de cima. E eu de cara pregada naquelas duas coisas, iguais e enlouquecedoras.
- E aí?
- Ela viu que eu vi, flagrou o arregalo do olho. Cobriu depressa o patrimônio. Disfarçou, eu não. Uma visão dessa te deixa sem saber o que fazer com as mãos, pra onde correr. Mas correr é a última coisa que passa pela cabeça com aqueles dois olhos de carne te olhando de repente, no susto. Um ar quente e perfumado das lindezinhas guardadas, tesouro abafado posto pra fora. Você não quer que acabe jeito nenhum, quer levar a visão contigo, deixar que te persiga e te incomode. Nunca que a gente acostuma de olhar aquilo sem espanto. O Cara lá em cima inventou esse negócio pra ser mistério mesmo, e pronto.
- Nem. Conta mais aí, reparte direito essa paradinha comigo.
- Foi ir pro céu em dois segundos e voltar, véio. Ninguenzinho, nem de longe, pra cortar o barato. Barulho zero, só umas gaivotas foram chegando ali pelas cinco, quando o sol tava no ensaio e ela já tinha ido embora, me deixando ali largado e pensando no acontecido, daquele jeito de quem quer de novo. A parada foi bem essa. Mingau de sossego e paz, jardim de Alá. Foi por aí, meu. Uma tatoo feita no cérebro.
– Massa... o lance aí te deixou inspiradão, cheio de falar bonito. Quem diria, o rei da biscataiada parado numa mina só.
- Uns gêmeos rosados assim não podem nunca ter câncer, véio. O câncer sonda o material, chapa e desiste de acabar com aquilo. Animal sem pelo, só penugem fêmea e fina, loirinha que nem de neném. A serviço do papai aqui, aquela carninha tenra detona a larica toda que tiver no mundo. Subindo um pouco uma bocaça meio das antigas, batom forte, tipo Rita Hayworth.
- Tô ligado, femme fatale de filme pb. Cara, essa nega desorienta.
- Duas horas com aquilo e eu me acabo. Subo a escadaria da Penha plantando bananeira. E de costas. Fico refém, manda que eu faço.
- Bota meu nome aí, que um filé desse eu não ligo de ficar com o osso, não. A hora que desocupar, me dá um toque.
- Demorou.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Gina Soares - Belém3:40 AM

    Conferido, amigo!! Excelente! Um ótimo final de semana. bjss

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  2. Marcelo!

    A cada dia me surpreendo com sua criatividade e inteligência. A imaginação ligou a vela do barco ao levantar de uma blusa. A visão que impressionou, destacou, a probabilidade do câncer, que no caso do visionário, jamais poderia. (?). Um alerta assim no meio de um texto onde a linguagem é notória de uma classe especial no nosso meio, deixa claro a conscientização do autor do texto.

    Diante de tão prolongada explanação de uma visão rica em detalhes, a intenção não seria de provocar desde o início o desejo do "filé"?

    Realmente, você é fantástico em criatividade, e diversidade de temas. Mas sempre evidenciando problemas sociais importantes.

    Parabéns, amigo!

    Fantástico!

    Abraços

    Mirze

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  3. ...E ela, ao partir, pensou " Se fosse o Marcelo, eu ainda daria bola..." rsss...AMEI, Marcelo...Amei!!!

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  4. Oi, Marcelo.
    Sabe que aqui em Minas tem um ditado que diz que vasilha que vai cheia à casa do vizinho nunca deve voltar vazia?
    Então, passa lá no meu blog, pois creio que como eu, você e é ligado a todas as nuances da nossa língua lusófona.
    Beijão,
    Cida.

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  5. Rapaz... gostei do teu diálogo...
    Num é que gostei mesmo?

    ;* Álly

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  6. Marcelo, cara, imaginação fantástica agora também com uns temperos picantes. Voyeurismo do bom. Sei que vc pincelou uma questão importante da saúde da mulher, mas, quer saber?, fiquei só no deleite da luxúria.

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  7. Manoel Amaral3:34 PM

    Marcelo,

    Muito boa a história e o jeitão de narrar, exclusivo seu.


    Abraços,
    Manoel
    http://osvandir.blogspot.com/

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  8. Marcelo, ri muito. Tal qual os diálogos "praianos" que costumo ouvir aqui no Rio.O vento é nessa velocidade, "tá ligado"? :)
    Ge-ni-al!! Você é ótimo!!!
    Um beijo, escritor amigo.

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  9. Pelamordideus! Não vão inventar de chupar manga depois. Dá nó nas tripas até alcançar o 'p....' entende?
    Aí quero vê 'véio' chorando não poder ver os 'parzinhos' da dona aí do seu texto.
    Óia, seu moço das reticências...
    Sabe que é um atrevido jeitoso nas colocações ditas das palavras experimentadas que dá gosto de lê!?
    Abração, moço inteligente!

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  10. Oi Marcelo, já sabe que adoro suas crônicas.Esse dialeto aí, me lembrou minha sobrinha, que sempre me diz "demorou", toda vez que ela acha que demoro nas respostas...os adolescentes do mundo líquido, nos provam que a dinâmica é mesmo surreal! Um abraço!

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  11. Oi Marcelo, já sabe que adoro suas crônicas.Esse dialeto aí, me lembrou minha sobrinha, que sempre me diz "demorou", toda vez que ela acha que demoro nas respostas...os adolescentes do mundo líquido, nos provam que a dinâmica é mesmo surreal! Um abraço!

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  12. mis saludos desde Santiago de Chile,

    Leo Lobos

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  13. Celi Gustafson Estrada4:05 AM

    Obrigada pelo texto. Alegre, cheio de humor, presentão logo pela manhã do domingo... Que entusiasmo, deve ter ficado "vidrado", subir a escadaria da Penha, e de costas!...
    Continue, parabéns, gosto do seu trabalho.
    Bom domingo, apesar de frio!
    Abração,
    Celi

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  14. Wilson Donizete Miranda - Itu7:19 AM

    Olá sr Marcelo. És tão fértil que nunca sabemos se viveu a situação ou não. Uma coisa é certa, a escultura chamada mulher é simplismente divina. Certa vez, dirigindo um ônibus em horário do Banco do Brasil, com meninos que faziam compensação de cheques, estava eu descendo a rua Barão do Amazonas, em Ribeirão Preto. Isso em torno de 22:00 hs. A rua, estaria deserta, caso não existisse o movimento de um casal que acabara de descer do carro frente a uma vitrine observando os mostruários de uma loja. Nesse momento pintou o sinal vermelho e fui obrigado a parar, mas, o vento, o "bendito vento" provocado pela velocidade do ônibus levantou a saia da linda mulher justamente no momento em que parei. Os passageiros, que estavam todos com as cabeças para fora nas janelas, gritavam enlouquecidos. A cena foi linda, inesquecível, tanto que até seu marido aplaudiu. E, não pense que essa cena gravada na mente aconteceu ontem. Aconteceu no minimo 25 anos passados. Bendita seja a mulher. Bendita seja sua capacidade de nos seduzir. Um grande abraço para o senhor.

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  15. Mais um diálogo, este bem diferente do ocorrido em " O último movimento". Neste texto vc apresenta de forma brilhante o encantamento de um jovem ao ver as "duas preciosas coisas" de uma moça, ou melhor, filé. Vc utilizou uma linguagem, a qual denuncia a idade e o nível social dos personagens. Grande abraço, Marcelo

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  16. O fulano sobe a escadaria da Penha de costas e o seu leitor, de joelhos, diante desse texto que fez as vezes do vento esquisito. Pic pic pra você.
    Abraços

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  17. Marco Antonio Rossi12:35 AM

    Boa tarde!

    realmente, demorou.......
    que qualidade, hein??????
    aproveitando a praia, o machão balançou que nem velas ao vento........
    Abç
    Rossi

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  18. Gina Soares - Belém12:38 AM

    Adorei, Adorei... sensual, sem ser vulgar, com uma pitada de humor. Abs

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  19. A realidade dos fatos...
    Rita Hayworth, antes de qualquer alusão a preenchimento labial... adolescência tardia, literata, porque não? ;)

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  20. É Marcelão... heheh
    mulheres!

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  21. Elizete - São Paulo8:15 AM

    DEMOREI..., mas sempre estou vendo seu trabalho! Achei muito legal a conversa do "cara" ai. Como sempre, muito criativa sem ser ofensiva. Grande abraço

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  22. Zezinha de Sousa8:16 AM

    Marcelo, Sua crõnica mais parece a hora do recreio: divertido, muito agradável de ler e impossível não querer chegar ao final. Parabéns por tanta inspiração e criarividade. Um abraço

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  23. Evelyne Furtado - Natal8:17 AM

    A versatilidade do seu talento me impressiona, Marcelo. "Demorou" representa muito bem uma faceta da contemporaneidade. Parabéns , amigo! Beijos

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  24. Lídia Maria de Melo - Santos8:17 AM

    Já assistiu 'Fatal', com Penélope Cruz? Tem a ver com 'Demorou'. Um intertexto. Abraço

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  25. Billy Shears - Belo Horizonte8:20 AM

    Somente o grande Marcelo.. para tão inteligente e belo texto. Parabéns, irmão!!!

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  26. Jorge Cortás Sader Filho8:21 AM

    Mas demorou mesmo! Olha que subir a escadaria da Penha plantando bananeira de costas não é para qualquer político, por mais experimentado que ele seja. Valeu, Marcelo! Aquele abraço, Jorge

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  27. Seus textos são sempre leves e criativos...
    Apesar de relatarem a realidade o dia-a-dia parecem que foram criados n'outra dimensão.
    Muito bom!!!

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  28. Esse "demorou" me soa tão carioquês...
    Um texto leve onde apenas uma pequena visão
    fez brotar na personagem uma descrição suave
    mas de grande impacto.
    Abraços

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  29. Mara Narciso - Montes Claros12:53 PM

    Descrição bela do encanto que exerceu no protagonista essa parte do corpo feminino. Misturou tudo: desejo, ardor, respeito, encantamento. Foi um completo show.

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