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PIADABRAS



Ilustração: Marco Fraga


Piada, anedota ou patacoada, como diziam os mais antigos. Chame como quiser. O que importa é que todos saibam que as piadas não nascem do nada, sem pai nem mãe. Elas existem com o propósito definido de anestesiar o populacho e há uma superestrutura que as orquestra, diretamente subordinada aos altos escalões da administração pública federal. Uma espécie de serviço de inteligência, com a diferença de que não há realização de concurso para provimento de cargos, sendo seus integrantes contratados com base nos critérios de notória competência e especialização. Digo isto de cátedra, pois sou parte desta indústria. Desta desconhecida e desvalorizada indústria. Sim, amigos, as piadas têm autores e os autores têm cotas de novas piadas a conceber, da mesma forma que os boias-frias têm suas cotas diárias de cana para cortar.

Não estou autorizado a revelar a localização geográfica da nossa organização. Posso afirmar apenas que ela funciona nas antigas dependências de uma desativada autarquia nos arredores de Macapá, bastante utilizada para a tortura de subversivos nos tempos da ditadura militar. São sete pavimentos que funcionam em três turnos, servidos por elevadores de última geração, ar condicionado central, serviço de buffet e assim divididos:

1º andar: Piada de salão;
2º andar: Piada suja;
3º andar: Piada de papagaio;
4º andar: Piada de humor negro;
5º andar: Piadas de português, de turco, de sogra e de loira;
6º andar: Adivinhas, do tipo o que é o que é. De 1982 a 1995 tínhamos dentro deste pavimento o setor “Qual o nome do filme?”, mas a partir de 1996 a fórmula se desgastou e a subdivisão foi extinta.
7º andar: Setor de Reciclagem – piadas velhas são recolhidas, reformadas com outra roupagem e novamente espalhadas. É um valioso dispositivo em tempos de entressafra, quando há escassez de fatos engraçados que inspirem a renovação do anedotário.

Engendrada a anedota, o piadista aciona um botão verde ao lado do seu monitor. Em não mais de 40 segundos aparece, movido a patins, um carrancudo do setor de Controle de Qualidade, para aferir se a piada tem ou não o nível mínimo de graça para que se espalhe. Os carrancudos são em geral pessoas nas quais o riso dificilmente aflora – como mutilados de guerra, deprimidos, pacientes bipolares, torcedores do América e gente oriunda de outras categorias de infelizes. Um risinho de canto de boca dessa turma já garante a passagem da piada para as duas próximas etapas de produção: o burilamento e a redação final.

Até há pouco tempo dispúnhamos um número quatro vezes maior de contadores, funcionários que saem às ruas para espalhar as piadas recém-paridas, infiltrando-se em rodas de bar, quadras de bocha, cafés, clubes da terceira idade e outros pontos estratégicos de propagação. Com a internet o processo mudou bastante, pois temos bancos de dados gigantescos contendo milhões de mailings com bilhões de nomes, o que faz com que a piada se propague pelo planeta em dez minutos ou menos – dependendo da graça, do arsenal de anti-spams dos destinatários e das mensagens de caixa postal cheia.

Ao contrário do que se poderia supor, nossa rotina não tem nada de engraçada. Ganhamos mal, mas em compensação não nos divertimos nem um pouco. Pegue uma piada clássica, como aquela do avião caindo com um brasileiro, um americano, um francês, um italiano e um português, na qual o lusitano salta com um frasco de “Para Queda de Cabelos”. Uma joia desse quilate é resultado de elaboração minuciosa, onde se promovem brainstorms que reúnem até altas horas três, quatro ou até mais piadistas, em mesa redonda e servidos por porções de mandioca frita e doses cavalares de conhaque. Tal rotina, dia após dia, desgasta, adoece e afasta por invalidez. Mas não há outra alternativa.Há décadas que a sociedade não gera por si mesma quantidade suficiente de piadas, por falta de tempo e inspiração. E o baixo estoque delas é, para o sistema público de saúde, um problema tão grave quanto o déficit de sangue nos hospitais.

Recentemente foi descoberta uma fraude na liberação de um lote de novas piadas, que estavam prontas para serem espalhadas porém ainda não tinham passado pelo Controle de Qualidade. Um grupo de piadistas inescrupulosos rendeu à força o bipolar de plantão, responsável pelo OK final, e enquanto um dos criadores lia para ele as piadas os demais faziam cócegas em suas axilas e pés para forçar o riso. O escândalo, no entanto, foi abafado e os envolvidos julgados por tribunal interno, que decidiu pelo afastamento temporário de dois deles: o que manipulava a pena de ganso na axila esquerda da vítima e o que contava, com requintes de crueldade, as piadas em alto e bom som.



© Direitos Reservados

Comentários

  1. Marcelo!

    Em algum lugar deve haver uma organização assim. Afinal organização e método são fórmulas necessárias à todo e qualquer meio.

    Fiquei imaginando os andares, os analistas de piadas o porque do torcedor do América fazer parte da turma e a parte da Reciclagem.

    Deve ser esta a melhor parte, onde de uma piada que se pensa antiga renasce das cinzas com a capa de uma nova uma piada que faz parte do eco de risadas nas rodas de amigos e nos bares.

    A rotina nunca é engraçada, e a internet, tirou a graça da surpresa que havia. Antes todos gostavam de ouvir uma boa piada, mas depois da internet, é preciso saber contar a piada para a pessoa certa no momento certo. A fraude presente também nesta organização é a piada maior, ao meu ver. Os métodos de tortura pelo visto são iguais no mundo da piada e da guerra.

    Impressiona sua criatividade, neste mais que excelente texto!

    Parabéns!

    Beijos

    Mirze

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  2. Cara, de onde vc tirou imaginação para essa estatal das patacoadas? Engraçadíssimo o texto e muito atual pela celeuma das privatizações na campanha eleitoral. Não demora e virão os petralhas acusando os tucanos de tentar mudar o nome da empresa para PiadaBrax com a intenção de vendê-la a preço de banana.
    abs,

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  3. Faço a mesma pergunta do Lauro... rsrsrsrs
    Muito bem! Piada é coisa séria, mesmo.
    E na vida tudo é verissimilhança.
    Outra vedade é que os contadores de paidas estão cada vez mais raros.
    Abraço

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  4. Jorge Cortás Sader Filho - Niterói12:28 PM

    Eita, Marcelo!
    Nesta contei fato verídico, acontecido comigo em 1980!
    Excelente, você sabe captar a alma do povo.

    Aqule abraço,
    Jorge

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  5. Fernando Dezena12:47 PM

    bela crônica. parabéns!!!!

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  6. Marco Antonio Rossi1:58 PM

    MEU AMIGO, PARABÉNS DE NOVO.
    QUE BELO TEXTO......
    A PIADA REALMENTE MOVIMENTA AS DIFICULDADES, TRANSFORMANDO-AS EM ALGO MAIS LEVE DE SER DIGERIDO....
    ABRAÇO
    ROSSI

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  7. Manoel Barros2:10 PM

    Marcelo,

    Como participante do seleto (secreto) grupo, tomo a liberdade de acrescentar o 8º ítem:
    8º - Piadas de, e sobre políticos!

    http://osvandir.blogspot.com
    Abraços,
    Manoel

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  8. Marcelo, estou aqui segurando o
    queixo, boquiaberta com a sua imaginação. Que coisa, nem a piada, coitadinha, se livrou de "fakes"??? Fraude na liberação???Deve ter sido uma nova organização terrorista: a "Chamex". [rs] Desculpe, não podia perder o gancho.[rs]

    Um beijo, escritor talentoso, genial.

    Seu post é também didático. Eu não conhecia o termo "patacoada". Falando nisso, esses nossos politicos são uma patacoada, né não?

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  9. Marco Bastos11:14 PM

    Obrigado, Marcelo.
    PIADABRAS é muito interessante, inteligente e uma delícia de se ler.
    abraços.

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  10. Evelyne Furtado5:48 AM

    A piada institucionalizada brilha na sua criatividade, Marcelo! Aqui com extremo refinamento. Haja talento, amigo! Parabéns e ótimo fim de semana!

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  11. Jusciney - Vitória da Conquista5:48 AM

    Marcelo, piadista renomado, você deve transitar em todos os andares, tamanha a criatividade pra fazer rir..eu, que nou carrancuda, fico assim, boba, rindo pra uma tela de computador, em plena tarde de sábado, com sol lindão lá fora, e uma lua gigante mais tarde...um beijo, querido!

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  12. Zezinha de Sousa5:49 AM

    E as piadas se propagam de boa ou de má qualidade, em casa, na rua, no trabalho, na mídia. Quantas vezes forçamos um riso para não chorar, e trasformamos o trágico em comédia. É preciso sobreviver!!! Parabéns, Macelo, vc sempre consegue me surpreender com sua criatividade e senso de humor INCRÍVEL!!! Um abraço, amigo!

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  13. Gina Soares - Belém5:49 AM

    Excelente!

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  14. Djanira10:31 AM

    Oi Marcelo, voce é muito criativo, gostei. Gostei também das ilustrações. Bom resto de domingo. Djanira.

    Criamos
    um Deus justo
    e agora
    temos medo Dele.

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  15. Você viu, né??? Até nas piadas existe a uma maneira de ''driblar'' os limites impostos pela comissão julgadora...rss...Marcelo... Me fez rir, reviver, repensar e amar...Então, AMEI!!! Beijooooooo...

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  16. Marcelo, amo o humor, ri o tempo todo ao ler seu texto/piada. Meu Deus, não sabia que vida de "piadista" era tão "dura" assim. Que teoria inteligente, irônica e engraçada. Torcedor do América, muito bom isso, entretanto, meu amigo, vc que está por dentro desta organização, sugira um torcedor do Goiás, para ocupar um dos lugares das pessoas afastadas. Puxa vida, estou rindo muito,Marcelokkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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  17. Celi Estrada7:14 AM

    Excelente a dissertação sobre Piadabras ! Isto é que é filosofar sobre o tema.
    Abraços,
    Celi

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  18. Valeu Marcelo, muito bom mesmo!
    Fui acompanhando o texto e passei a perceber em um dos andares, os Comitês do PT e PSDB, só que fiquei triste ao encontrar no elevador o grande Leonardo Boff, que esqueceu de dizer como é que a verdade vai vencer a mentira, se a verdade ficou fora do 2º turno.
    Bom, mas em eleições pode é tudo!
    Abração e sucesso!
    Hildegardis Ferreira
    Terra dos Kariris
    "Lugar onde nasce o dia!"

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  19. Belvedere Bruno11:48 PM

    Tô até acreditando nisso...hehehe!!!!!!!!!
    Bjs

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  20. Clotilde Fascioni12:01 AM

    hahahahdorei, só esqueceu do andar das piadas do "joãozinho"...

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