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ÚLTIMO MOVIMENTO


I

- Dizendo quase nada você entrega o que se passa e não percebe. É impressionante essa sua, digamos, faculdade da transparência.
- O problema é esse. Disfarçar não sei, nem quero. Sou um edifício em construção contínua e onde se vêem todos os andaimes, mal comparando é bem por aí. Quando rio ou choro por dentro é coisa que faço com as mãos, com os pés, com as tripas todas e especialmente com os olhos. Fica muito escrito na cara. Não tenho agenda oculta, meu amigo. Allegro é Allegro, Andante é Andante, Presto é Presto. Tudo o que mais quero agora são menos holofotes, coletivas, autógrafos. Uns dias de folga para tocar o piano de dentro, um mofo bom de estância velha em cama estreita e sem conforto.

II

- Você sofre com o fato de espalhar brilho por onde anda e a vontade de passar pelo mundo desapercebida. Minueto perdido de Mozart num escombro da Segunda Guerra, no fundo é isso o que você queria ser, uma gema rara mas ao mesmo tempo uma ruína sem chance de descobrimento ou reconstituição. No entanto você existe, foi revelada e está sob uma redoma de relicário há vinte e tantos anos. Não há como voltar atrás nessa aura que acabaram fazendo em torno de você, mesmo contra sua vontade. Você é uma estrela. Assuma o que há de angustiante e de glorioso nisso.

III

- Eu quero ser o cara que vira a página da partitura, não a diva do piano. O cara que vira a página vive da repetição, eu não posso me repetir. Nem por isso ele passa fome, é bem pago pra ficar virando a página. Satisfaz-se assim e vive no baixo risco, em boa zona de conforto. Ninguém pode condená-lo ou dizer que esteja errado.
- Não é ele, é ela. Usa até trança e é loira, não reparou? E como é imenso o fosso entre a ideia de felicidade dela e a sua. Pergunte a ela se não gostaria de ser você, por meia hora que fosse.

IV

Chega de calmante, está aumentando a dose e não está se dando conta. Qualquer dia dorme em cima do teclado, no meio do concerto.
- Durmo nada. Calmantes são parecidos com a moça que vira a página, uma rede de segurança. É bom saber que ela está lá, mesmo conhecendo a música de cor. Sem eles eu suaria frio, e as teclas molhadas me fariam errar as notas. Calmantes me põem no piloto automático. Servem de consolo, na falta de cama estreita em estância velha.
- Não é possível que você despreze tanto um dote raro de nascença.
- Artistas de verdade são autodestrutivos, nunca ouviu falar? A música que tenho basta e sobra. E o que sobra eu estou farta em dividir. Cancele a agenda de amanhã ou eu tomo a caixa toda.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Gina Soares - Belém4:28 AM

    Bom dia, Marcelo!
    Tem um pouco de mim, nesse seu texto.
    Lindo!
    bjs
    Gina

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  2. Marcelo!

    Um excelente texto "noir" dividido em tempos como na música. Entre o Andante e o Allegro, a percepção sensível da transparência de alguém que nada diz, mas demonstra em fisionomia (corpo e movimento) como numa grande orquestra.

    Poderia ser uma crítica , mas a análise que vejo é a solidão interna de um músico, seu instrumento, seu talento em confronto com aquele(a) que ajuda passando a partitura que o músico normalmente já sabe de cór.

    Realmente é mais fácil viver de repetição, não alcançar o apogeu em nenhuma carreira, onde somos cobrados cada vez mais. às vezes é sem querer que conseguem o brilho, são descobertos pelo talento, mas quando isso acontece, incomoda ver o outro a brilhar mais ou um terceiro a não ter chance de brilhar.

    A sensação auto destrutiva vem daí. Os seres humanos de valor, não olham apenas seu mundo.

    Os calmantes são necessários e não cabe à ninguém julgar o comportamento. Os impulsos também são próprios dos grandes músicos em fase de atuação. Não no ato da criação.

    Fantástico esse jogo compassivo-musical.

    Parabéns!

    Mirze

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  3. Companheiros e companheiras do fã-clube sguassábico, o Marcelo apareceu na minha tribuna internética e me deu a honra de entrevistá-lo. Depois do deleite aqui com mais essa lavra, vale uma passadinha no meu blog, onde tá o colóquio perguntativo em que Marcelo conta tudo e um pouco mais. Até o Duña reapareceu.
    http://baucrepuscular.blogspot.com/2010/10/donagertrudico-e-guiomarnovatico.html

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  4. Maria Célia Marcondes7:21 AM

    Como sempre, "Último movimento" está ótimo!
    Vaguei com suas companhias e não descobri a cara de "com quem andas".
    Bela e literárias considerações filosóficas.
    Gostei muito de sua entrevista com Borges. Não o Jorge Luis, uma companhia inseparável no meu caminhar. Mas do Lauro/Hélio, de nossa Sanja, que conheço muito, muito antes dele nascer.
    Abraço
    MCélia

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  5. Bom seria se qualquer droga fosse tão somente placebo (e vc já escreveu sobre...). "chega de calmantes", seria o mesmo que dizer: deixa eu extravasar de verdade! Abraços!

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  6. Ananda Quintas1:00 PM

    Muito bom o texto, adorei!
    Parabéns!

    Atenciosamente,
    Ananda Quintas
    www.anandaquintas.com

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  7. Nossa Marcelo!!!! Que texto!!!! Não tenho como expressar o que eu acabei de ler...Foi mesmo uma grande leitura de um grandioso texto...Não posso me expressar mais por falta de palavras...Apenas fique ciente que eu amei!!! Parabéns pelo talento que te cerca...

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  8. Um diálogo muito bem construído, a partir dele percebemos a crise de uma estrela da música, cansada dos "privilégios" da fama... Excelente texto, Marcelo. Grande abraço

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  9. Oi.Os artistas são assin,quando está cheio de dinheiro querem se isolar,quando o dinheiro se acaba,eles ficom aparecendo em todos os programas de tv ou então viram políticos para sobreviverem ,pois não sabem fazer nada e muitos,nem estudaram.

    Abraços,Lúcia
    02/10/010

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  10. Ela precisa assumir... a autodestrutividade do artista...

    Gostei muito dos teus escritos.

    Álly

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  11. Eu não quero virar a página deste blog. Quero-a sempre espelhada diante das minhas vistas para que eu possa lê-la e lê-lo, seu reticente inteligente.

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  12. Marcelo,
    Esse ótimo texto me fez repensar nos ganhos e nas perdas.
    Parabéns!
    Abraço

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  13. Jorge Cortás Sader Filho5:05 AM

    Dizem que Arthur Rubinstein tomava duas garrafas de vinho por dia. É provável. Ficar no piano manhã e tarde, um bom tinto ajuda. Não tem que virar página para os outros, vira ele mesmo. Fosse hoje, será que o maestro tomaria diazepínicos? Tenho minhas dúvidas. O piano é tranquilizante forte. Beleza de criatividade, Marcelo! Abraço

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  14. Rafael Paiva5:05 AM

    Grande Marcelo! Muito bom o texto desta semana, mas ele deixa um gosto estranho quando acaba... gosto de livro bom faltando página! Tem continuação? Abração e não se esqueça: amanhã seja eleitor, não cúmplice! Rafrajola

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  15. Nile - Paranaguá5:06 AM

    Oi Marcelo,boa noite. Belíssimo texto. Bom fim de semana para voce. bjtos.Nile

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  16. Evelyne Furtado - Natal5:07 AM

    Marcelo, suas palavras foram tão bem escolhidas para retratar a intimidade da diva, que fico com receio de macular o que torço para que não seja o último movimento. Um excelente escritor em um momento especial. Parabéns e beijos.

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  17. Cida - Sete Lagoas5:07 AM

    Oi, Marcelo! Instigante esse diálogo. Seria a voz interior dando o alerta de que o brilho não o satisfaz? Estou curtindo seus textos a cada dia mais. Abraços.

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  18. Zezinha Sousa5:08 AM

    Olá, Marcelo Precisamos cada vez mais viajar para dentro de nós mesmos, é a viagem mais difícil, mas só assim encontraremos nossa verdadeira luz, aquela que nos ajuda a encontrar o caminho certo diante de tantos conflitos exstenciais. Esse texto me fez lembrar um poema que escrevi há pouco tempo. CONTRADIÇÃO No castelo dos sonhos A vida renasce Entre flores, pássaros e borboletas Viajamos na contradição Sentimentos incandescentes, Expressões calmas. Corações palpitantes, Passos lentos. Amor derramado, exagerado No peito, contido, guardado. Castelo de sonhos Onde sonhamos acordados. Zezinha Sousa

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  19. Clotilde - Tupã5:09 AM

    Me identifiquei por momentos com a pianista, em determinado tempo da minha vida, onde tendo e sendo não era nada , assim como parecia ser tudo, aquilo onde nada havia...

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  20. Lídia Maria de Melo - Santos5:09 AM

    Obrigada por me presentear este texto nesta manhã nublada de sábado. É um texto que eu gostaria de ter escrito. Desse jeito. Muito bom. Você precisa reunir seus contos, suas crônicas em um livro. (Ah, a foto também...). Parabéns! Deu vontade de ouvir o som do piano. Abraço

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  21. Antônio Calazans8:15 AM

    Parabéns, Marcelo!
    Leia o causo do Lanterna do Campeonato.
    http://recantodasletras.uol.com.br/autores/calazans

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  22. Marcelo:
    Das teclas sumi-me nos outros compassos e senti as angústias das outras repetições que se vão harmonizando e formando a música que nos faz caminhar mais assim ou mais assado. Acompanhados e muito sós.
    Grande abraço

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  23. Carlos Galvão8:06 AM

    que deliciaaaaaaaaaaaa-Marcelo continue sempre pra frente! muito obrig.Abçs

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  24. Marco Antonio Rossi8:17 AM

    MEU AMIGO

    UM PAR DE SAPATO, UMA DOR NO CALO.
    PUXA COMO É LINDO UM PIANO...... UMPIANO TIRA OS CALOS DOS TÍMPANOS.

    ABRAÇO E PARABÉNS PELA ESCOLHA.
    ROSSI

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  25. Olá Marcelo, muitos parabéns!!! Lindo, seu texto,muito lindo. Da ilustração à caixa toda não desgrudei os olhos. Mas apurei os ouvidos. Uma Sonata clássica, diria.:)
    Beijos, amigo talentoso.

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  26. José Carlos Carneiro - São João da Boa Vista1:14 AM

    Caro Marcelo: Não preciso dizer muito sobre suas crônicas, todas de refinada criatividade, você já sabe minha opinião. Mas cumpre ressaltar a opinião da Lídia Maria de Melo, sobre colocá-las em um livro. Aliás, eu já havia comentado isto antes. Reforço agora.

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  27. Mara Narciso5:11 AM

    Os mestres do piano são excêntricos e ainda mais excêntrico é o autor e a sua criação notável de o "virador de página". Num conserto, será tão notado quanto o pianista. O texto acabou sendo um híbrido entre o formalismo do pianista sentado em frente ao seu instrumento de trabalho e o inusitado personagem. O sóbrio encontrou-se com o engraçado.

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  28. Tanto para dar e tão pouco para subviver!

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