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LACUNA


Ilustração: Thiago Cayres



Ficou o lugar vazio acumulando pó, sem um átomo de gente que lhe tomasse assento, me sondando enquanto sondo nele o homem que ali firmou posse, de coroa e cetro, espaçoso como só. O lugar do faltante por direito, sempre dele, cadeira vitalícia que a ninguém é dado herdar. Assim está e ficará ao capricho e ao apetite dos cupins, no mesmo estado em que a deixou. Mourão de cerca socado fundo entre as dobras dos miolos, é bem na horinha da Ave-Maria que escuto o arrastar dos seus chinelos e farejo sua lavanda de após banho, tão sua e dos dias todos que meiamos, criador e criatura. Acordo com o ausente me chamando, raro é quando não sucede desse jeito. E são manhãs cinzas e mudas, que para falar a verdade nem careciam amanhecer mais depois do sucedido.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Marcelo!

    O vazio, quer um lugar, um espaço ou um som, sempre será uma lacula.
    No texto embora não explícito, a lacuna preenche o espaço no vazio de uma poltrona, ou cadeira. Na memória deste vazio, os direitos de quem o ocupava e completava. As lembranças do que foi representado, no tempo e que será lembrado ad-eternum.
    Nas "dobras" da memória, ficam preservadas os aromas, a cadência dos passos e quase se materializa em nossa mente, a criatura.
    Numa hora que nos é sagrada, quando a ausência se faz presente, e as manhãs parecem cinzas, mas são mudas.

    Um excelente texto, onde aflora toda a sensibilidade do ser humano.

    Parabéns!

    Um forte abraço!

    Mirze

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  2. Tem uma música de Djavan que diz num trecho "saudade endoida a gente..."
    Apesar de lúcido, sua saudade não te endoida, só te faz mais poeta!
    Bj

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  3. Marcelo, bonito texto!

    Ausências que teimam a ocupar o lugar vazio e tomam de nós pedaços de cor, momentos, pedaços de nós...

    Lindo, lindo "...são manhãs cinzas e mudas, que para falar a verdade nem careciam amanhecer mais depois do sucedido".

    Parabéns!

    bjs

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  4. ...Lao-Tsé em sua mágica sabedoria
    disse:

    "A argila não vem ao caso,
    o vazio faz o vaso."

    Marcelo,
    você deveria colocar apenas
    isso no seu perfil:

    GENTE...

    gente que sabe a que veio...

    bj

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  5. Malu - Cabreuva8:22 AM

    Parece que conheço esta cena de algum lugar... Abraço Gostei muito da ilustração

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  6. Oi, Marcelo.
    Gosto do seu estilo de escrita, é gostoso de ler e transporta a gente pras coisas, cara a cara...
    Abraço!

    Álly

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  7. E esse mourão socou-me mais fundo ainda nas dobras que eu redobrei, para quando quiser lê-lo, Marcelo, achá-lo em pergaminho, bem amassadinho, no pensamento onde átomo algum consegue consumir.
    Obrigadinho pelo texto.

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  8. Marco Antonio Rossi10:20 AM

    meu amigo e vizinho


    lacuna é como a folga entre dedos do chinelão aposentado que não largamos nunca, eta trem bão..........
    abraço
    Rossi

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  9. Nossa! Quando comecei a ler, senti algo estranho...Parece que soava uma música no fundo e as lembraças de alguém, que o amor nunca me fez esquecer, veio a tona...Me senti assim, como a poltrona: vazia...Ah...e o perfume...este também senti...De repente eu senti isso...a alegria da presença...Marcelo, sempre escreve com um bom humor, brincando com a realidade e de repente me deparo com um lado sensível que ainda não havia percebido...Gostei muito...Muito...PARABÉNS...

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  10. A(s) lacuna(s) de todos nós, descritas com essa exatidão que você sabe encontrar em seus textos. E nesse caso, também com a dor que sempre temos que conhecer.

    Beijo

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  11. Roseana Maria Dutra Liberali - SP2:07 PM

    Amei o seu texto, sempre teremos em nossas mentes as pessoas queridas. Sucesso!

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  12. Marieta3:15 PM

    Mano querido,
    conheço esta cadeira....
    Será para sempre a presença da ausencia, porque o milagre não se deu como pedimos?
    Só Deus sabe...
    bjs

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  13. Adriano Neves11:41 PM

    O sol nem nasceu e você e você já dá as boas vindas a ele juntando tão bem as letrinhas.......

    Abraço!

    Adriano

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  14. Parabéns pela sensibilidade aqui apresentada, mais uma vez!

    "Lacunas" que, como bem disse dade amorim, são de todos nós...
    bjs, Marcelo!

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  15. Coisa linda de poesia, amigo... senti algo de evocações ao inesquecível Uirapuru que, onde estiver, está feliz com a pena saudosa e genial do rebento... já pensei em escrever algo assim sobre meu pai, com o cachimbo em vez da poltrona... abs...

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  16. Ana - Curitiba1:57 PM

    Perfeito seu blog, meus parabéns. Fica aqui o convite para conhecer o meu Marcelo, será um prazer te ver Pelos Caminhos da Vida. beijooo.

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  17. Querido Marcelo,

    Bem além das lacunas físicas dos espaços vazios que os nossos nos deixam, existem as lacunos que se instalam em nossos corações e espírito...a vida é assim, feita de de nossas lacunas e das lembranças e reminiscência que guardamos...
    Parabéns pelo texto belo e sensível.
    Genny

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  18. Oi, Marcelo...
    Somos feitos de ausências...
    Também aqui há uma cadeira vazia!
    E quando a chuva cai fina,vozes, cheiros e afagos povoam a minha ausência...
    A saudade se instala, quebrando a tênue linha que separa o sonho da realidade...as lágrimas que brotam, embaçam a manhã que nasce e, nessa penumbra, eu brinco de ser criança e voo para o espaço onde outrora toda manhã nascia azul!...

    Bjo de luz, poeta!
    Bernadete Valadares.

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  19. Essa imagem me persegue há tempo, muito tempo. Quando a li em algum romance, que ora ficou perdido: a melancolia de restar do corpo apenas um lugar fundo, côncavo numa almofada de sofá. E você transformou, explicou, acrescentou e não escreveu nenhuma palavra desnecessário, para revalidar a beleza da imagem e levá-la a outro nível: melhor. Meus parabéns e abraços.

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  20. "Jamais haverá outra mulher como Gilda."
    E você conseguiu produzir um trabalho que merece inteiramente o personagem. Esguio, sensual, uma duplicata da Rita que tanto foi amada e marcada pela Gilda. Meus parabéns. Abraços.

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  21. A estrada é o caminho de quem ainda anda... então que amanheçam, Marcelo! E que o sol que te trouxer para fora aqueça o couro velho da poltrona, para que no seu retorno ela te acolha.

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  22. Lidia Maria de Melo - Santos6:29 AM

    Lidia Maria de Melo - Santos
    Triste, mas belíssimo e delicado. A palavra que melhor define o sentimento que sobrevém a essa leitura é 'silêncio'.

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  23. Lau Milesi - Rio6:31 AM

    Lindo e emocionante, amigo Marcelo. Tenho também quatro cadeiras cativas e , assim como você, vivo as manhãs cinzas. Receba minha solidariedade. Um beijo, amigo, e fique bem. Obrigada por suas palavras de estímulo à minha tribuna virtual.

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  24. Malu Martins6:31 AM

    É lindo seu texto, Marcelo! Mais que triste, porém, fiquei preocupada com o fechamento. Oh, meu amigo, é preciso permitir que as pessoas continuem a viver dentro da gente, qualquer que seja o momento. Este lugar tão especial, onde se estreitam vínculos e se aconchegam afetos, é feito também para que introjetemos nele e façamos viver nele — e em nós — esses mesmos vínculos e afetos. Com toda a luminosidade de um amanhecer. Beijo com muito carinho da amiga e admiradora, Malu

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  25. Jorge Cortás Sader Filho - Niterói6:32 AM

    Um mergulho no desconhecido, uma viagem no inconsciente, rico e tenebroso, onde existem seres misteriosos e dias que não deveriam ter nascido. Parabéns, Marcelo. Bom demais. Abraços, Jorge

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  26. Alice - Rio6:33 AM

    Saudade,dói...

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  27. Evelyne Furtado - Natal6:34 AM

    Conheço bem essa lacuna que você descreveu com rara beleza, Marcelo. Em determinado momento ela será internalizada e o diálogo recomeça. Abraços e parabéns, meu amigo.

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  28. Célia Alencar - São João da Boa Vista6:35 AM

    Quantas lembranças nos vêm na memória, de cadeiras vazias que pertenciam a alguém mto querido... Me veio a figura de minha avó, sentada em sua cadeira, fazendo tricô. Perecia um trono que só a ela era permitido se sentar. Ficam-se as lacunas... Abraços Célia

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  29. Lírio do Prado2:49 AM

    Belo texto sobre separação, sobre saudade. Uma facada no peito da gente, trazendo-nos lembranças de nossas separações. Parabéns, Marcelo!

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  30. Mara Narciso2:50 AM

    Chamou de lacuna o que também é saudade. Humanizou o objeto, dando a ele alma e sentimento de gente. E nós que costumamos negar afeto aos objetos evitando sermos chamados de materialistas, deveríamos aprender a reverenciar certos utensilios da casa, tão presentes, que é como se existissem sempre lá.

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  31. Belíssimo texto, Marcelo!
    O tempo vai se encarregar de recompor esse relacionamento numa dimensão maior, que dispensa a materialidade.
    Parece impossível enquanto recente, mas acontece. Palavra de quem muito cedo encontrou uma poltrona vazia, onde se assentava um amado ídolo, que hoje transita encantado e redivivo em meu universo, pela força do amor.
    abraço

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