Pular para o conteúdo principal

UM BANQUINHO, UM VIOLÃO

Ilustração: Thiago Cayres

- O pato...
- Seu João, o senhor tá cantando muito baixinho. A gente quase que nem escuta o que diz a letra da música.
- Vinha cantando alegremente, quem-quem...
- Posso fazer pro senhor um caldo forte de gengibre, canela, vinagre e limão. Não me custa nada, é tiro e queda pra deixar a garganta zero bala. Tem que cantar alto, que nem o seu xará João Mineiro, aquele que faz dupla com o Marciano.
- Quando o marreco sorridente pediu...
- Mas que coisa esquisita, parece que canta pra dentro. Enche o peito e solta o vozeirão, homem. Fica nesse nhem-nhem-nhem.
- Olha, se você não ficar quieta eu pego o violão e vou-me embora.
- Mas o senhor tá na sua casa, Seu João. Se alguém tem que ir embora sou eu, que comecei agora de arrumadeira aqui.
- Oi. Alô, é João. Tudo bem? Melhor cancelar o show no Carnegie Hall, não estou conseguindo ensaiar.
- (...)
- Não, não é barulho nem fumaça de cigarro. Também não é ácaro no tapete. É uma arrumadeira que me apareceu aqui, a mulher me desconcentra...
- (...)
- Tudo bem, vou tentar de novo. Mas já vai arrumando aí uma desculpa pro cancelamento.
- Se você disser que eu desafino, amor...
- Diz que o senhor é cantor, né. O porteiro que falou. Mas eu não lembro do senhor nem no “Raul Gil” e nem no “Ídolos”. Senhor fica assim de terno dentro de casa o dia todo, é? Ficava melhor com uns blazer listado, a camisa meio aberta assim no peito e um correntão de ouro saindo pra fora, aí sim ficava com o look nos trinques. O doutor não ia nem parar em casa, de tanto show que ia aparecer. Feira agropecuária, quermesse, comício...
- Saiba que isso em mim provoca imensa dor...
- Seu João, desculpa interromper, mas o senhor podia me emprestar o banquinho pra eu tirar o pó de cima do armário? É só um instantinho, já devolvo já.
- Pois há menos peixinhos a nadar no mar...
- Seu Gilberto, o senhor se incomoda de levantar um pouco os pé do tapete pra eu poder limpar?
- Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim...
- Alô, Bebel, essa arrumadeira... foi Miúcha que indicou, é? Pois eu digo que sua mãe guardou mágoa de mim, heim filha? Mais quinze minutos aqui com essa mulher e eu abandono a vida artística.
(...)
- Tá, um beijo pra você também.
- Olha, minha senhora, vamos combinar uma coisa. Eu dou agora o seu dinheiro, leva também um autógrafo meu e trata de pegar logo o rumo da sua maloca. Não precisa terminar o serviço. Tá bem assim?
- E eu vou fazer o que com o seu autógrafo? Eu nunca que vi o senhor, ainda se fosse do grupo Molejo, vá lá. O senhor tá se achando. Cresce e aparece, velho metido.
- Nem se aproxime com esta cera! Não tem que passar cera no assoalho, não. O surfactante aniônico da fórmula me aniquila o Lá Bemol e já me deixou afônico duas horas antes de um show no Budokan, em Tóquio. A alcanolamida, que é outra substância que exala da cera, fica em suspensão no ar e interfere na afinação do violão. Não há pai de santo baiano que segure o instrumento afinado. A senhora se afaste, antes que eu lavre um BO contra a sua pessoa.
- Bim-bom, bim-bom, bim-bom, bim-bom, bim-bim... é só isso o meu baião, e não tem mais nada não...bim-bom, bim-bom, bim-bom, bim...
- Pois é, ainda bem que o senhor avisa que não vai sair disso mesmo, né? Bim-bom, bim-bom, bim, bim, bim, podia ter uma segunda parte pra mudar um pouco essa lenga-lenga. Ô coisa chata, seu Giba.
- Giba é o diabo que te carregue. Some daqui, Dona.
- Dona Esmeraldina, sua criada. O senhor é que é muito do malcriado, Seu João. Quer dizer, Seu Gilberto.
- Tristeza não tem fim, felicidade sim... Tristeza não tem fim...


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Ótimo texto. A própria trilha sonora... Não é todo mundo que tem esta chance, rsrs. O seu texto tem a crítica na medida certa e é inteligente! Parabéns!

    ResponderExcluir
  2. Ando sem tempo de postar algo mais trabalhado no Transmimentos, mas você é sempre bem vindo lá.

    ResponderExcluir
  3. Gina Soares - Belém4:14 PM

    hahahaha...
    Muito bom Marcelo!!!!!!!!!!!!!!!
    Ainda bem que temos o Toquinho, Vincícius, João Gilberto, dentre outros.... ainda bem!!
    Boa noite!!
    bjss
    Gina

    ResponderExcluir
  4. Marcelo!

    Que texto! Você deve conhecer o João como eu conheço. O perfeccionismo nasceu com ele. Nada, absolutamente nada pode interferir no momento da criação e do ensaio.

    às vezes chega a ser grosso mesmo. Até com o público. Com o ouvido absoluto que Deus lhe deu, qualquer barulhinho, ou outra coisa que possa vir a atrapalhar, ele faz exatamente isso.

    Mas temos que reconhecer que ele sabe que é bom e só é bom por manter esse ritmo de exigência.

    Maravilhoso!

    Parabéns!

    Beijos

    Mirze

    ResponderExcluir
  5. Surpreendente sempre, meus elogios já estão se tornando corriqueiros, mas não dá pra deixar de fazê-los. Adoro ler seus textos.
    Bjos!!!

    ResponderExcluir
  6. Oi Marcelo...Que coisa boa ler isso...João Gilberto...Realmente só quem sabe quem é pode reconhecer...Infelizmente a popularidade dele não atinge a todos, como os MOLEJOS...rss...e nem se comparam os talentos...Mas, o teu texto...este tá pra lá de bom...Amei!!!Beijooooooo

    ResponderExcluir
  7. Mas eu dava é com o violão na cabeça dela! Já imaginou? A alcanolamida fez um estrago, e a crônica fica destacada, a mesmice não habita a casa do Marcelo!
    Abraços, ri muito e a construção é bem difícil.

    Jorge

    ResponderExcluir
  8. Rafael Paiva11:10 PM

    Grande Marcelo!

    Essa crônica é tudo que eu precisava pra começar bem o sábado! Graças a Deus descobri que não sou só eu que acha o João Gilberto uma farsa! rsrsrsr

    Abração e bom fim de semana!

    Rafa

    ResponderExcluir
  9. Patrícia Brandão2:21 AM

    ahahahahaha! Muito bom, Marcelo! E parabéns, Thiago, a ilustração tá demais!

    bjs,

    Paty

    ResponderExcluir
  10. Ah, Marcelo, o Giba tá certo: cera e trinado não formam dupla não! Cera lembra tudo no lugar, cheirando felicidade; agora trinado é só alegria, alegria pura! Adorei!
    Abraços

    ResponderExcluir
  11. Maravilha de texto para começar o sábado!
    Abraços,
    Cida.

    ResponderExcluir
  12. Show, Marcelo, como sempre. Muuito bom!!! Com todo respeito ao talento (inegável) de João Gilberto, fico com D. Esmeraldina.
    O surfactante aniônico do péssimo humor desse maravilhoso cantor/compositor (repito) aniquila o lá, o fá...do meu cavaquinho.[rs] Um beijo, amigo talentoso. Adorei!!!!

    E.T. Marcelo, ainda bem que ele não jogou o violão sobre a D.Esmeraldina. Já vi esse filme. :)

    ResponderExcluir
  13. Oi, Marcelo! Dizer que os seus textos são magníficos é redundância.
    Agora, que a crítica me critique, mas eu não curto esse João aí, não!
    Há alto quilate em muitos que latem mais baixo.
    Grande abraço, moço inteligente.

    ResponderExcluir
  14. fernando dezena3:02 PM

    Boa! Parabéns, Marcelo!

    ResponderExcluir
  15. Não o aprecio, não o valorizo, não acho nosso amigo 'o máximo'; mas ele tem valor, tem quem o aprecie, e que o ache 'o máximo'.

    Tem muito 'velhinho' (instrumentista e cantor), por aí detonando, não é o caso dele.
    O cara é um 'ouvido absoluto' ambulante..., e a bossa nova, coisa de saudosistas.

    Bom texto, óbvio.

    ResponderExcluir
  16. Evelyne Furtado11:56 PM

    Diálogo delicioso, Marcelo! Que Dona Esmeralda não tire a concentração do gênio que canta baixinho.Lembrar João Gilberto é um bálsamo. Agradeço a dica. Parabéns,amigo! Bjs e bom domingo!

    ResponderExcluir
  17. Ana Christina Victorelli - Rio11:57 PM

    Ótimaaaa !!!!! Bjos, saudades !!!!

    ResponderExcluir
  18. Marco Antonio Rossi11:57 PM

    MEU CARO AMIGO


    QUE SAUDADES DA BOSSA NOVA.........MUITO BEM LEMBRADO!!!
    ABRAÇO
    ROSSI

    ResponderExcluir
  19. Alessandra12:00 AM

    Oi MArcelo!!!! Tudo bem?
    Saudade de vocês!
    ADOREI os contos "ilustrados"! Parabéns para vocês dois!

    Beijão
    Alê (ex garota veneno)

    ResponderExcluir
  20. Paulo Braga Silveira Junior12:01 AM

    Muito legal, Marcelo....

    Mas, escrever para um Banespiano e falar de "Banquinho".... já me fez penasr no Santander, No Mercantil do Brasil, ai...ai.....

    (rsrs.....)

    Um abraço, primo.

    ResponderExcluir
  21. Antônio Calazans12:02 AM

    " Tristeza não tem fim, felicidade sim ... " Mas devemos tentar alongar essa felicidade , não é Marcelo ?
    Parabéns !!!
    Calazans

    ResponderExcluir
  22. Silvia Ferrante - São João12:03 AM

    Ótima!
    Abraços
    SF

    ResponderExcluir
  23. Ana Lucia Finazzi - São João12:04 AM

    Oi primo
    Muito bom, como sempre. Tádinho do JG. Melhor ensaiar sózinho, êle e a brisa!
    beijo
    Ana lucia

    ResponderExcluir
  24. Ivani Kubo12:06 AM

    Muito bom o seu texto, Marcelo.!
    Espero sua visita em meu blog: www.ivanikubo.blogspot.com
    Abraço,

    Ivani Kubo

    ResponderExcluir
  25. Marcelo, que cousa magnífica esse empecilho serviçal ao ensaio do JG. que diálogo hilário, e muito possível. "Giba é o diabo que te carregue" me fez gargalhar muito.
    uma das melhores suas.

    ResponderExcluir
  26. ...felicidade sim...adorei! Bj

    ResponderExcluir
  27. Viviane Santos6:29 AM

    hahahahhah
    Muito muito muito muito bom!!!!

    Adorei*

    ResponderExcluir
  28. Claudia Albers Avoglio - Pirassununga6:32 AM

    Marcelo

    Desconfio que estou com a Esmeraldina, e não abro.
    Sempre engoli João Gilberto como se engole jiló.
    Você escreve muito bem, já disse meu amigo João.
    Abraços.

    Claudia

    ResponderExcluir
  29. José Adriano Neves6:34 AM

    muiuuuuto engraçado. É o cara mesmo. A única coisa ruim é que o pessoal a ele chato. Porque será heim!!!!!!!!!rsrsrsrsrsrrs!!!

    Adriano

    ResponderExcluir
  30. Clauduarte Sá7:43 AM

    Marcelo,
    Excelente, como sempre. Muita imaginacao, criatividade e caneta afinadissima.
    Um grande abraco, saude, felicidade, sucesso
    ClauduArte Sa

    ResponderExcluir
  31. Foi muito bom receber esta sua postagem.
    A criatividade expressa literalmente o que temos vivido com (ou contra)a nossa MPB.
    Abraços

    ResponderExcluir
  32. Texto muito hilário, Marcelo; você tem ótimo senso de humor. Mas cá entre nós, o João Gilberto é muito chato rsrsr!!!

    ResponderExcluir
  33. Crítica e bom humor na medida e um talento evidente.

    adorei!

    ResponderExcluir
  34. "Lampejos de Uma Nova Era Surgem a Cada Dia"

    "Cosmo a Pé"

    ResponderExcluir
  35. O minimalismo dele já deu muito o que falar.
    Mas o seu conto o torna mais humano, mais próximo, e conseguimos (consegui) compreender melhor porque o gato que ele tanto gosta, chegou a tentar o suicídio de tanto ouvir a repetição exaustiva de cada nota, de cada sílaba, até que ele conseguisse realmente expressar o que sente.
    E o cantor não sabe se expressar de outra forma, a não ser cantando. Isso agora ficou mais claro do que nunca.
    E resta-me agradecer a narrativa, a partilha e o bom gosto. Grande abraço, meu caro amigo.

    ResponderExcluir
  36. Nubia8:03 AM

    Que delícia de diálogo, fico imaginando
    a cara de pudim do João Gilberto diante
    da tão sincera arrumadeira.
    Muito divertido!
    Parabéns!
    Abraços

    ResponderExcluir
  37. Mara Narciso - Montes Claros8:04 AM

    É bem possível, considerando a fama de mau-humorado, que uma cena semelhante a esta tenha acontecido. No final, a ficção diverte e se aproxima da realidade. Eu e meus sorrisos difíceis, dei risada aqui. Obrigada Marcelo.

    ResponderExcluir
  38. Rapá, que belo blog. Meus cumprimentos pelos textos inteligentes. Mas tô com a Rita e não abro. Esse João é coisa mandada, sio!
    Ah! é um grande músico! sei lá. Pra mim ele só toca uma nota no violão e além do mais é um sem educação. O que eu vi o carinha fazendo em uma apresentação lá no Rio. tive vontade de tomar as dores do senhor ofendido e quebrar a cara do safado.

    ResponderExcluir
  39. Leitura divertidíssima! Muito inspirado. Olha que a Esmeraldina disse umas coisinhas aí que muita gente gostaria de dizer!

    Abraço.

    ResponderExcluir
  40. pretty good post. I lawful stumbled upon your blog and wanted to command that I get really enjoyed reading your blog posts. Any condition I’ ll be subscribing to your maintain and I hope you despatch again soon wedding dress.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…