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PAPAI NOEL É TURCO

Ilustração: Thiago Cayres




Nada contra os turcos e sua milenar fama, talvez infundada, de muquiranice. Tenho alguns amigos turcos, amizades que perduram por toda uma vida sem exigir nada em troca (o que não é muito comum entre os turcos, dirão os maledicentes de plantão). Mas o fato é que, segundo fontes de reconhecida credibilidade, Papai Noel, ou São Nicolau, nasceu na Turquia – mais exatamente na cidade de Petara, na segunda metade do século III. E isso explica muita coisa. Ou melhor, a falta de muita coisa.

. Primeiramente, elucida a triste estatística de que 83,4% da raça humana não recebe um chaveirinho que seja como presente de Natal. De onde se conclui que o tão propalado espírito de fraternidade reinante em cada esquina desmorona-se quando é imperativo meter a mão no bolso. E bolso é algo que não existe nas acetinadas calças rubras de Noel.

. Justifica-se, também, a alocação intensiva de mão de obra chinesa na confecção da quase totalidade dos presentes trocados no planeta durante as festas de fim de ano, incluídas aí as confraternizações de amigo secreto.

. Ao entrar silenciosamente pela chaminé e a altas horas da noite, o velhote evita que alguém da casa acorde, abra os embrulhos e encha sua cara gorda de sopapos em razão da quase sempre péssima qualidade dos presentes.

. Sua imensa e anti-higiênica barba é fruto de economia igualmente porca: é que o bom velhinho não quer morrer com uns trocados na compra de apetrechos de barbear, mesmo que sejam aqueles de marca própria vendidos nos hipermercados.

. Repare que ele traja invariavelmente a mesma indumentária. Os mais aguerridos aos rituais natalinos poderão argumentar dizendo tratar-se de tradição. Na verdade ele só tem aquela roupa mesmo, sendo que a dita cuja envelopa sua carcaça gordurenta desde mil setecentos e qualquer coisa.

. Suas renas voam porque foram forçadas a desenvolver a capacidade de levitação, já que não são alimentadas pelo dono sovina e não aguentariam nem meio quilômetro de galope.

. Por mais que o tempo passe, a única forma de se comunicar com o ilustríssimo turco é através das famigeradas cartinhas. Isso porque nosso anacrônico herói se recusa a adquirir um computador, ainda que de segunda mão, e consequentemente também não possui uma conta, ainda que gratuita, de email.

. É de sua autoria a versão alternativa da letra de Jingle Bells, cantada até hoje a plenos pulmões pela gurizada: “Jingle bells, jingle bells, acabou o papel... não faz mal, não faz mal, limpa com jornal”. É claro que, partindo de Noel, não poderíamos esperar coisa mais aproveitável em termos lítero-musicais.

. Alguém que nasce na Turquia e muda-se para o Polo Norte é alguém que, no mínimo, merece a desconfiança da Interpol. Quais motivos estariam por trás de mudança tão radical de endereço? Notório inadimplente e toureador de credores, Papai Noel encontrou na ausência de constituição, de tribunais de justiça e de presídios da calota polar o esconderijo perfeito. Ali montou seu QG, onde maneja suas falcatruas sob diferentes nomes, dentre eles Santa Claus, Père Noël, Viejito Pascuero e Babbo Natale. Se tiver qualquer pista sobre o seu paradeiro, ligue para o distrito policial mais próximo. Você não precisa se identificar para formalizar a denúncia.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Marcelo!

    Eu gostaria de ter escrito este texto, tamanha identificação com o que sempre pensei.

    Nunca o imaginei turco, por não conhecer muito esse povo, mas papai-noel e cegonha, sempre andaram de mãos dadas em minha mente, desde que era muito pequena.

    Essa roupa vermelha de seda barata, só pode ser mesmo da China. As pobres renas, viraram aves e voam alto e estão em todos os lugares ao mesmo tempo. Sempoe depois da meia noite, sempre com todos dormindo.

    Seria sua barba de algodão-doce? Era o que alimentava meu sonho infantil. O que me irrita mais ainda são os inúmeros homens (?) vestidos em todos os shoppings e lugares para tirar fotos com as inocentes crianças que logo serão adultos e verão que foram ludibriadas pelos pais. Sem contar com as crianças pobres que escrevem (quando sabem) e levam ao correio uma cartinha de "bom comportamento" para o tal velhinho.

    Isso deveria ser crime. Porque a maioria nada recebe, nem um pedaço de pão, muito menos uma rabanada.

    Inclusive em diversas regiões, adota-se a culinária oriunda desse país, ou dos países onde é inverno e toda a ceia de Natal é gordurosa e incrementada com alimentos que não tem ligação com o clima local.

    O personagem "pai", tem que se virar para atender aos pedidos, ou falar a verdade.

    É um criminoso, "pão-duro", perverso, e concordo que precisa ser enclausurado.

    Rendo-me aos seus maravilhosos textos, mas este veio no momento certo.

    Parabéns! Pela coragem, pelo cuidao na descrição do bom(?) velhinho.

    Um forte abraço!

    Mirze

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  2. Marcelo, você é genial!!! Muuuuuito bom!! Vou pegar esse Papai Noel pra mim,tá? Mas sempre respeito os direitos autorais. :)

    ...(Alguém que nasce na Turquia e muda-se para o Polo Norte é alguém que, no mínimo, merece a desconfiança da Interpol".

    Tá explicado Marcelo.Li, recentemente, que em razão da série de roubos deste ano,nos grandes centros de compras de São Paulo,estão intensificando o pedido de atestado de antecedentes criminais para o papai noel. O que antes era uma solicitação eventual passou a ser uma exigência.
    Só os “ficha-limpa” poderão vestir a roupa vermelha e o gorro, tocar o sino, carregar o saco, distribuir balas, ouvir pedidos da criançada e tirar fotos. Você sempre à frente dos tempos com as sua sensacionais crônicas.Parabéns!!!!

    Beijos, amigo, e que o nosso Papai Noel não seja turco(tenho amigos turcos também e os adoro ) e que nem se esconda no Complexo do Alemão.[rs]


    Vou ler seu outro post, estive viajando a trabalho, fiquei 5 dias fora, e estou atrasada nas minhas visitas.Bye

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  3. Olá, Marcelo
    Que é que é isso, menino!!!
    Seria possível um dia fazer um passeio de rena,(essas que levitam)dentro dessa sua cabecinha cheia de ideias, criatividade e humor? Seria uma viagem bem interessante! Só assim descobriríamos o que ainda está por vir.
    PARABÉNS!!!!!
    Adoro seus escritos
    Um abraço!

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  4. Marcelo, o papai noel é o viajante mais esquisito que existe. Entre nós dois, eu e ele, não há cumplicidades. Minto: tb tenho um par de botas pretas, também gosto de alimentar fantasias e gosto de ver gente sorrindo ao ser fotografada! ho, ho, ho...

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  5. Rosa Pena11:21 AM

    adorei amigo..tava com saudades de ler vc...
    beijos mil
    rosa

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  6. Francisco Simões11:21 AM

    Gostei, prezado Marcelo,

    Aliás os mais antigos me conhecem bem e sabem que nãosou de escrever mensagens lindas sobre o Natal, não consigo. As músicas natalinas me deprimem, já viu isso? Bem, em 1998 escrevio poema É NATAL, que estará junto com peueno texto, no dia 17 no ESPAÇO ECOS, na minha coluna.

    Só os da antiga o conhecem bem, então vou reedita-lo par amostrar a tantos outros que chegarama mim depois. Para você euo mando anexdo ali em cima. Pode abrir sem susto, nem espere nenhuma vingança de "Pai Natal", como dizem em Portugal e na Europa toda. Depois acho que vou repassar este seu texto.

    Saudações do amigo
    Francisco Simões.

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  7. Rafael Paiva Silva11:22 AM

    Marcelão,

    Ótima crônica, como sempre... coitado do bom velhinho!!! rsrsrs

    Abração e bom final de semana!

    Rafa

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  8. Claudete Amaral Bueno11:25 AM

    Oi, Marcelo:
    Gostaria de saber se vc é primo dos meus primos Paulo, Ana Lúcia, etc....?
    Gostei muitíssimo de sua crônica sobre o "Bom velhinho", que eu ensino à minha netinha (muito a contra gosto do meu filho)....tratar-se do "Mentiroso"!
    Já amei Papai Noel como ninguém...hoje, detesto-o como poucos...... rsssssss
    Obrigada pelo envio. Um abraço e.....Feliz Natal.....sem Papai Noel!

    Claudete

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  9. Sandra Nogueira11:27 AM

    oi Marcelo, ainda bem que você desvendeu a nacionalidade de Papai Noel. Acrescente aí aos crimes dele o de fraude humana, já que muitos dizem que ele não existe.
    beijos natalinos
    Sandra

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  10. Silvia Ferrante11:27 AM

    Ótima sacada, rs!
    Beijos
    SF

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  11. Luísa Vilaça - Portugal11:36 AM

    Quem sabe.......Eu não desminto!

    ResponderExcluir
  12. Muito boa sua crônica, Marcelo, como todas as outras que escreve; um dom muito bom; grande abraço e feliz Natal!

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  13. Muito boa sua crônica, Marcelo, como todas as outras que escreve; um dom muito bom; grande abraço e feliz Natal!

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  14. Verdade, verdade, amigo cronista, e para corroborar a sua revelação, acrescento: tarde destas, na companhia dos "brimos" turco-sânjicos, Nasser, o chamado bom velhinho foi visto na kiberia do Miguel Jacob, numa comilança homérica para juntar energias para enfrentar o dezembro extenuante.
    genial!!!!!!

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  15. Muito bem escrita, melhor ainda humorada. Sincero, eu não sabia destas astúcias do bom velhinho.
    Turco, é? Deve ser da facção de Bin Ladem, hehe!
    Vou ter mais cuidado no Natal.

    Abraço,
    Jorge

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  16. Gina Soares - Belém9:15 PM

    Faz sentido.... rsss
    Adorei... apropridado para o espírito de festas!
    Boa noite, amigo!
    bjs
    Gina

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  17. Evelyne Furtado - Natal9:21 PM

    Nem Papai Noel escapou à sua extrema criatividade, Marcelo. Uma delciiosa homenagem ao velhinho e aos seus amigos turcos! Adorei! Bjs e bom domingo, amigo.
    Evelyne

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  18. Eliane Gonçalves1:03 AM

    Marcelo,
    Você é mesmo singular nos seus textos.
    O trágico humor é sem dúvida a maior verdade.
    Parabéns, amigo!

    ResponderExcluir
  19. Luciana do Rocio4:40 AM

    Prezado Senhor:
    Boa-tarde!
    Parabéns pelo texto!
    corepoesia@yahoo.com.br

    Atenciosamente,
    Luciana do Rocio

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  20. Marco Antonio Rossi4:55 AM

    MEU CARO AMIGO
    HO,OH,OH,OH,OH.......
    NADA COMO CONSEGUIR SER A CEREJA DO BOLO DA VESPERA DE NATAL PELAS TROCAS DE PRESENTES ENTRE AS FAMÍLIAS.....
    ESSE É O PAPAI NOEL..............
    ABRAÇO
    ROSSI

    ResponderExcluir
  21. Ana Christina Victorelli7:26 AM

    Marcelo,

    Ao deixar tantas e tantas crianças na mão ele é terrorista radical xiita procuradíssimo por todos, e deve rir muito todo ano quando se esbalda com os ricos no ocidente... ahahahahahah
    Complo estranho... onde estaria esta ligação ?????????

    ResponderExcluir
  22. Agora entendi!
    Eu sempre tive medo de Papai Noel! Era apenas uma menininha, mas meu grande senso do perigo já detectava! Obrigada por me esclarecer, se eu o vir, pode deixar que aviso sim! rsrsrs.
    Abraço! Texto muito bom!

    ResponderExcluir
  23. Oi Marcelo...
    Não tinha ainda olhado Papai Noel com estes olhos. Se eu souber do paradeiro dele, com certeza vou fazer a denúncia. Talvez chegou a hora da vingança, pois quando eu tinha 10 anos pedi uma boneca com o nome de Vanderleia. Ele me trouxe, mas eu queria com a roupa roxa e veio com roupa laranja. Depois disso, ele nunca mais foi o mesmo pra mim...rsss....Está provado. Ele é falso faz tempo...Buááááá...rss...Amei sua crônica...beijooooooooooooo

    ResponderExcluir
  24. Ainda bem que está fácil achar o telefone do disque denúncia. Mas cá entre nós, com tanto bandido por aqui, por que insistir em acoitar essa figura?

    Abraço procê, Marcelo.

    ResponderExcluir
  25. Alex Compri - SP6:07 AM

    hahahahaha...show de bola Marcelo!!

    Abraço!

    ResponderExcluir
  26. ahhahahhaahhahhahhahhahhaahhahahahhahahhahhahah
    Muito muito muito muito bom!!!!
    Sua semiótica ta BOoOOa* hehehhee

    Chega de Simbolismos e Signos inválidos... ADOREI!!

    Parabéns MarcelOooOO e Parabéns Guina tá demaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiis essa ilustração!!!!

    Sucesso para vocês sempre!!!

    Viviane Santos

    ResponderExcluir
  27. Leslie Taboas12:32 PM

    Coitadinho Marcelo, quanta crueldade com o Bom Velhinho!!!!

    Mas tenho que admitir que vc. mostrou uma visão incrível do Papai Noel, Tomara Deus que seja só mesmo uma crônica!!!

    Já pensou se......



    Abçs.

    ResponderExcluir
  28. ..."sejs rico ou seja pobre o velhinho sempre vem!"
    Nunca acreditei nessa maldita musica. Ele velho nunca veio pra mim, nem para os meus irmãos. Mas eu via os brinquedos que ele deixava na casa dos meus amigos vizinhos, dos meus primos e o nosso, nada!
    Aqueles remelenbtos da rua diziam que era... era... porque na minha casa não tinha chaminé.
    Como? Tinha sim!

    Tinha a minha avó que fumava. Tinha o meu avô que fumava.
    Tinha o meu pai, que nunca apareceu para dar um abraço em nós, mas fumaça, eu sabia.
    Tinha a minha mãe, que não fumava, mas mandava o pai que fumava, sumir.

    "Então, Rita, olha só como vocês são! Como o bom velhinho vai vir numa casa dessa? "

    Então, crescemos assim.
    Agora nós arrumamos um jeito chiq

    ResponderExcluir
  29. ..."sejs rico ou seja pobre o velhinho sempre vem!"
    Nunca acreditei nessa maldita musica. Ele velho nunca veio pra mim, nem para os meus irmãos. Mas eu via os brinquedos que ele deixava na casa dos meus amigos vizinhos, dos meus primos e o nosso, nada!
    Aqueles remelenbtos da rua diziam que era... era... porque na minha casa não tinha chaminé.
    Como? Tinha sim!

    Tinha a minha avó que fumava. Tinha o meu avô que fumava.
    Tinha o meu pai, que nunca apareceu para dar um abraço em nós, mas fumaça, eu sabia.
    Tinha a minha mãe, que não fumava, mas mandava o pai que fumava, sumir.

    "Então, Rita, olha só como vocês são! Como o bom velhinho vai vir numa casa dessa? "

    Então, crescemos assim.
    Agora nós arrumamos um jeito chiq

    ResponderExcluir
  30. Agora nós arrumamos um jeito chique de virar Papai Noel e dar presente aos nossos filhos.

    Que virada irônica de papel de presente.

    Bota um laço bem grandão aí na embalagem.

    Rapaz inteligente, você

    ResponderExcluir
  31. Não me estranharia nada que ele (o bom velhinho) fosse o cabeça de uma rede internacional de lavagem de dinheiro, superfaturando brinquedos para os vendedores de gás da Ucrânia, para os vendedores de cigarro da Macedônia, e para os monopolistas do Kosovo e Montenegro.
    rsrsrs

    Gostei do texto e da imaginação. Parabéns. Abraços.

    ResponderExcluir
  32. Olá Marcelo, concordo com a Marize quando ela diz que gostaria de ter escrito este texto, tamanha identificação com o que pensei em dado momento da vida (digo, infância, rsrsrsrsrsrs). O Noel que tanto me deixou esperando e chorosa quando nunca vinha ao meu auxilio.Lembro-me que, não sei porque cargas d'água, o presente nunca chegava novinho em folha na caixinh da fábrica. É um velhote brincalhão este Noel. Mas embora com todos os desencantos, da infância cá estou ainda a tentar entender porque ele fazia tais coisas. Na verdade farei parte deste grupo seleto que, caso tenha notícias do paradeiro do velhote, gordurento, de barba ensebada e roupa sem bolsos para sequer guardar balas, entrarei sim em contato com a nossa querida Interpol, e farei a denúncia anônima que tanto sonhei, já que não poderei dar-lhe uns sopapos bem dados. Abraços e obrigada pela delícia do texto.

    ResponderExcluir
  33. Mara Narciso10:13 PM

    Inacreditável criatividade! Dei risadas, e isso para mim é um feito, pois não sou de achar muita coisa engraçada. Parabéns, Marcelo! Vou divulgar.

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