Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Janeiro, 2011

PERGUNTAS, PERGUNTAS E MAIS PERGUNTAS

Preencher formulário é tarefa invariavelmente entediante, dispendiosa e de finalidade discutível. Às vezes o ritual de preenchimento beira o insuportável, e o castigado leitor há de me dar razão. É quando somos obrigados, por exemplo, a garranchar aqueles malditos papéis de imigração nas viagens internacionais. Duvido que seja de menos de 90% o universo dos que deixam a tarefa para os últimos dez minutos de voo, duvido que a caneta (emprestada) não falhe bem na hora de assinar o bagulho e duvido que você e o sujeito do seu lado não usem como apoio a bandejinha de refeições (dependendo da companhia aérea, a mesma bandejinha) – o que coroa o desinteressante procedimento com uma nojenta mancha de gordura no formulário.

Mas o que mais irrita mesmo nem é tanto a falta de paciência e o excesso de má vontade nas respostas, mas a natureza astuciosa das perguntas. Não raro deparo-me, logo abaixo dos campos de nome, sobrenome, RG, tipo sanguíneo, coloração usual das fezes e se tive ou não pé cha…

SEM AÇÃO

Ilustração: Thiago Cayres



Com o fim do viva-voz, os negócios na BM&F passam a ser integralmente realizados pelo chamado GTS (Global Trading System) – um sistema eletrônico que as corretoras acessam de seus escritórios e dispensa a negociação feita pelos operadores em pregão.
Último Segundo - IG



Lá se vão dois anos desde que o meu valor de mercado despencou a zero, da noite pro dia, igual ao crash de 29. Mas ainda acordo no meio da noite com a orelha encostada no ombro, como se estivesse falando em três telefones ao mesmo tempo. Os músculos tensos, as mãos afrouxando um nó de gravata imaginário, gritando para ninguém: “Eu compro!”, “Eu vendo!”, “Fechado!”. Esgoelo até ficar quase rouco e ser acordado pela patroa, essa coitada que só não me largou ainda por causa da igreja. E vai um tempo até que eu desabe do saguão da BM&F para essa desgraça dessa cama, que já nem se dão ao trabalho de arrumar mais porque não saio mesmo dela, com a síndrome do pânico empapando de suor frio esse me…

INSTANTÂNEOS CONTEMPORÂNEOS

Não faz muito tempo, fotografar custava caro e dava trabalho. Exigia empenho e planejamento. Tinha o filme de celulóide. A revelação do filme. A ampliação da foto. A ocasião tinha que valer o investimento de tempo e dinheiro. Hoje, a câmera na mão não exige necessariamente ideia na cabeça. A foto nada diz, mas pelo custo zero não se espera dela que diga sempre alguma coisa. Se o negativo era o registro eterno, o JPEG não a contento é deletado sem piedade. Fotografemos, pois.

********

Olha só essa aqui. Em macro superclose, parecem até dois montes Fuji siameses sem neve. Na realidade são dois formigueiros, um ativo e outro que acabava de ser exterminado com um bule de café fervente entornado pela Paulinha, em mais um costumeiro exercício de sadismo contra o reino animal.

********

Nesta outra vemos um copo com a água pela metade deixado em cima da mesa de centro pela minha madrinha, quando de sua visita à nossa casa para parabenizar-me pelo trigésimo sexto ano de Crisma. Reparem no copo a m…

TUDO SERÁ COMO SEMPRE

Sucedeu que ele acordou com aquela ideia na cabeça: fazer tudo diferente do que estava acostumado. Tirar a vidinha do piloto automático. Lembrou daquele famoso pressuposto da programação neurolinguística, que aprendeu num curso rápido sobre o assunto: SE VOCÊ CONTINUAR A FAZER O QUE VEM FAZENDO, VAI CONTINUAR A OBTER O QUE VEM OBTENDO. A afirmação era óbvia, tão óbvia que parecia estúpido levá-la a sério. Até que caiu a ficha. E ele resolveu que aquele era o dia da guinada.

Começou na cama mesmo. Absteve-se da interminável sessão de bocejos e espreguiçamentos e de um salto pôs-se de pé. Fez trinta flexões, bem mais que as cinco de costume. Inverteu a ordem dos remédios - primeiro o da pressão, depois o complexo B.

Escovou os dentes começando pelos do fundo e terminando pelos da frente, exatamente como nunca tinha feito. Não se barbeou. Vestiu um terno verde e uma gravata prateada. Sentou-se à mesa, na cadeira da outra ponta. Ao invés de colocar na xícara bastante leite e um pouquinho de…

PRONUNCIAMENTO DUÑESCO DE ANO NOVO

“Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Melhor o meio termo, ou seja, a lama. A do Dalai ou a de Araxá, que tem poderes comprovadamente rejuvenescedores para a pele e reabilita em oito meses a função do apêndice”. Ante olhares pasmos de alguns poucos criadores de bichos-da-seda e de quatorze mochileiros que por ali colhiam cogumelos, assim iniciou sua preleção o Venerável Duña, em aparição relâmpago ocorrida ontem, por volta das nove da noite, no cume de uma montanha mantiqueira.

Teólogos e teóricos das mais díspares correntes esotéricas concluem que o inusitado pronunciamento revela um Duña menos extremado em suas exortações, um líder messiânico mais disposto a valorizar o equilíbrio e a ponderação em detrimento do fundamentalismo inflexível de algumas seitas – que caracterizaram inclusive a sua própria Ordem em outros tempos.

“A segunda década do século 21 que ora iniciamos será certamente marcada pela concórdia entre os homens. E isso não é sandice profética ou retórica de ocasião. Tom…