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INSTANTÂNEOS CONTEMPORÂNEOS


Não faz muito tempo, fotografar custava caro e dava trabalho. Exigia empenho e planejamento. Tinha o filme de celulóide. A revelação do filme. A ampliação da foto. A ocasião tinha que valer o investimento de tempo e dinheiro. Hoje, a câmera na mão não exige necessariamente ideia na cabeça. A foto nada diz, mas pelo custo zero não se espera dela que diga sempre alguma coisa. Se o negativo era o registro eterno, o JPEG não a contento é deletado sem piedade. Fotografemos, pois.

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Olha só essa aqui. Em macro superclose, parecem até dois montes Fuji siameses sem neve. Na realidade são dois formigueiros, um ativo e outro que acabava de ser exterminado com um bule de café fervente entornado pela Paulinha, em mais um costumeiro exercício de sadismo contra o reino animal.

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Nesta outra vemos um copo com a água pela metade deixado em cima da mesa de centro pela minha madrinha, quando de sua visita à nossa casa para parabenizar-me pelo trigésimo sexto ano de Crisma. Reparem no copo a marca de batom, cambiando entre o bordô e o marrom claro, deixado pela tiazinha querida. Resquícios de uma tarde memorável onde, além da água quente da torneira, tivemos a ventura de partilhar um mingau de maisena polvilhado com canela, cuja foto segue na próxima página do slide show.

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Ah, essa é uma das minhas favoritas. Enfim, os cinco dedos do pé esquerdo reunidos. Todos juntinhos em instantâneo para a posteridade! Em sentido horário: o dedão, o que fica ao lado do dedão, o que fica ao lado do que fica ao lado do dedão e na sequência os dois menorzinhos. A pequena marca cor de ferrugem no calcanhar não é micose, e sim um fiapo de meia que se meteu de bicão junto aos “rapazes” na hora do clique. Aquele negócio redondo, que aparece desfocado ao fundo, é o potinho de ração da Flofy.

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Continuando com a série “família reunida”, perfilei os últimos oito tacos que se soltaram do chão da sala. Assim, soltinhos, eles parecem mais descontraídos – quebrando um pouco a rígida simetria que os torna tão iguaizinhos e sem personalidade quando assentados.

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Flagrante da geladeira da casa da Anna Bárbara, em 23-05-07, às 22h31. Da esquerda para a direita: leite de soja em embalagem longa vida, Becel sem sal, pires com asa de frango, meio tablete de fermento. Espremidos na prateleira de baixo: penca de bananas, farofa de bacon e passas, pernil na marinada e 11 Bavárias que, segundo ela, estão lá desde a passagem de ano de 2002.

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Foto “antes e depois”. Antes da sessão diária de esteira e depois do vômito causado pelo esforço aeróbico excessivo, que revolveu as entranhas e de lá desalojou a feijoada completa com creme de abacate consumidos anteontem.

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Na sequência, o vômito propriamente dito, brilhantemente capturado pelas lentes de uma Nikon com zoom óptico 12x. Além de todos os pertences do porco e do abacate envolto por alguns traços de bílis, enxergamos nitidamente ao fundo uma salsinha do então irresistível vinagrete.



© Direitos Reservados

Comentários

  1. Misericórdia! O que o avanço da tecnologia não faz? Não demora muito haverá um aparelho, desses que se compra por 1,99, podendo registrar até o pensamento alheio. Você promete que não comprará um desse? Com uma 'maquineta' fotográfica nas mãos você já fez um regaço com o que é concreto, imagino você descrevendo as passagens abstratas da sua tia solteirona, ou da sogra daquele seu vizinho desempregado...
    Menino!!!!!!! Você é muito inteligente.
    Tenho certeza que inventará a máquina de descobrir pensamentos, pelo menos para compôr o seu próximo texto.
    Grande abraço, senhor inteligente!

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  2. Marcelo!

    Fascinante este texto por esta leitora que lhe responde ser amante da fotografia. Lembro bem do tempo em que meu pai entrava na câmera escura
    (coincidência com minha postagem hoje) e ficava horas trancado com vários líquidos, sendo que um era vermelho. Depois ainda no quarto escuro deixava secando a fotografia por horas. Lembro que os negativos me atraiam mais.

    Realmente depois da invasão das máquinas japonesas e dos celulares com câmeras e film adoras além dos efeitos pedra, mármore etc... qualquer pessoa sem a menor noção fotografa e bem. Com o photoshop, distorce o que quer.

    Gostaria de ter visto a foto do seu "antes e depois". O vômito pode ter causado um efeito de um super futuro asteróide à ameaçar a terra.

    Bravíssimo!

    Beijos,

    Mirze

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  3. Claudete Amaral Bueno9:49 AM

    Vc tem mta imaginação!!!! Senso de humor tb! E evidentemente, consegue colocar isso na ponta de alguma coisa....caneta, dedos........ rsssssssss Parabéns!!!!!!!!!!

    Claudete

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  4. Jorge Sader Filho9:57 AM

    Marcelo, eu gostei mais daquela foto que você não comentou nada, a loura que está ao seu lado, sorridente e brindando num copo grande. Sou entendido nisto. É caipivodca com muito gelo!
    Vai deletar? Faz isso não…
    E haja humor, talento e uma enorme dose de inventividade nisso!
    Excelente, caro amigo!
    Abraços

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  5. Zezinha Sousa9:58 AM

    Olá, Marcelo

    Viajei no tempo, como minha cidade é pequena e antes era ainda mais, haviam poucos fotógrafos que tinham que ser avisados com antecedência para estarem presentes na ocasião, a foto obrigatoriamente era revelada e esperada por todos. Hoje, tiramos fotos de tudo e de todos, mas quase todas ficam no pc.
    Você fica nos devendo as fotos do texto descritas com tantos detalhes. Beijos!!

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  6. Dade Amorim11:18 PM

    Tiros certeiros, fotos compulsivas da falta de noção da desnecessidade de fotografar que nos assola. Pior que é assim mesmo. = )))

    Beijo, Marcelo.

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  7. Clotilde Fascioni11:18 PM

    Rapaz… Adorei!!! Adoro fotos e as suas “dizem mais que mil palavras”, hahahah.
    Parabéns!

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  8. José Carlos Carneiro1:06 AM

    Como sempre... Nem preciso dizer. Dessa vez tocou num assunto que me toca, a fotografia. Sou meio lambe-lambe, mas dou minhas cacetadas. Esse é mais um dos meus vícios. Tenho mais de 2000 fotos arquivadas, desde os tempos do branco e preto, que ainda é minha preferência. Ainda hoje - olha que absurdo! - sou chegado nas câmaras cujo único recurso mais avançado é o fotômetro. Prefiro-as, pois eu sou o "piloto", cabem a mim todos os ajustes e tudo que envolve uma foto. Informo depois o que saiu na Gazeta. Um abraço e parabéns pela exploração ao seu estilo desse mundo encantado da arte de fotografar.

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  9. Fernando Dezena6:52 AM

    Ah, essa é uma das minhas favoritas. Enfim, os cinco dedos do pé esquerdo reunidos. Todos juntinhos em instantâneo para a posteridade! Em sentido horário: o dedão, o que fica ao lado do dedão, o que fica ao lado do que fica ao lado do dedão e na sequência os dois menorzinhos. A pequena marca cor de ferrugem no calcanhar não é micose, e sim um fiapo de meia que se meteu de bicão junto aos “rapazes” na hora do clique. Aquele negócio redondo, que aparece desfocado ao fundo, é o potinho de ração da Flofy.

    Muito bom! Muito bom mesmo, esta achei memorável!!! Parabéns!

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  10. Gina Soares12:25 PM

    Muitooo bom!!! Fotos são lembranças reproduzidas!!!
    Com humor, melhor ainda!! bjss

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  11. Rapá, o lambe-lambe das letras, macaúbico-campineiro, transita por lentes e flashes e consegue encantar o leitorado até numa lavra com toques polaroid-escatológicos. abs,

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  12. Evelyne Furtado7:15 AM

    Ainda essa semana eu pensava na compulsão fotográfica que faz parte desses tempos de banalizações. Você captou com humor e sensibilidade o fenômeno. Adorei as suas “fotos”, amigo! Beijão e boa semana.

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  13. Francisco Simões7:26 AM

    Prezado Marcelo,

    Como deve saber eu aprendi a fazer Arte Fotográfica na ABAF - RIO, onde fui Diretor do Departamento de Fotos a Cores por uns 3 anos. Tive grandes mestres, dos maiores, no Brasil, que lá davam aulas e exponham semanalmente. Também passei a expor tanto a cores como em preto e branco. Rápido fui subindo de categoria, assistia a todos os seminários nos quasis nossas fotos premiadas eram analisadas pelos mestres.

    Ganhei muitos prêmios nos salões mensais e também nos anuais. Me especializei em fotos a cores, especialmente partindo dos diapositivos, ou slides. Amigo, o que hoje essa turma faz com a maior moleza tendo tudo ao seu dispor em câmeras digitais, eu fazia artesanalmente, acredite. Depois criei as minhas Fotografias Artesanais, que me davam imenso trabalho, mas um prazer ainda maior ao ver o resultado delas, e ao ganhar os prêmios. Realmente era um trabalhão, eu cumpria diversas etaps, as mais variadas, usando filmes difenretes, filytros diferentes, tipos de revelações distintas também, para atingir os resultados que pretendia a cada foto. Se for ao meu site verá algumas dessas fotos lá.

    Hoje para eu fazer aquilo não preciso mais de tanto trabalho, mas felizmente desisti de continuar fazendo de forma tão fácil onde a criatividade humana se reduz ao mínimo. O trabalho anterior me dava muito mais prazer e tinha muito mais valor, amigo. Logo que me aposentei no BB, em Fevereiro/1986, passei a fazer exposições fora dos salões da ABAF, em salas de arte, salões, e até em Galerias de Arte, acredite. Tenho tudo documentado. Fotografar sempre foi uma das grandes paixões da minha vida, assim como trabalhar no rádio ( o de antigamente também, não no de hoje), dar aulas, etc.

    É isso aí, amigo. até em alto mar eu fiz exposição de minhas Fotografias Artesanais, numa viagem do Brasil para a Europa no então transatlântico Eugênio C, em 1989. Quem me convidou a expor foi o italiano que era o Capo Comissário do navio, um amante da arte fotográfica. Foi uma experiência maravilhosa, caro Marcelo. Depois acabei também expondo na APAF, em Lisboa, pois fiqui morando lá por um ano com minha segunda e saudosa esposa. Voltamos à Europa mais 3 vezes, em longos períodos até 1998.

    Um abraço amigo do
    Francisco Simões/2011.

    ResponderExcluir
  14. Francisco Simões7:26 AM

    Prezado Marcelo,

    Como deve saber eu aprendi a fazer Arte Fotográfica na ABAF - RIO, onde fui Diretor do Departamento de Fotos a Cores por uns 3 anos. Tive grandes mestres, dos maiores, no Brasil, que lá davam aulas e exponham semanalmente. Também passei a expor tanto a cores como em preto e branco. Rápido fui subindo de categoria, assistia a todos os seminários nos quasis nossas fotos premiadas eram analisadas pelos mestres.

    Ganhei muitos prêmios nos salões mensais e também nos anuais. Me especializei em fotos a cores, especialmente partindo dos diapositivos, ou slides. Amigo, o que hoje essa turma faz com a maior moleza tendo tudo ao seu dispor em câmeras digitais, eu fazia artesanalmente, acredite. Depois criei as minhas Fotografias Artesanais, que me davam imenso trabalho, mas um prazer ainda maior ao ver o resultado delas, e ao ganhar os prêmios. Realmente era um trabalhão, eu cumpria diversas etaps, as mais variadas, usando filmes difenretes, filytros diferentes, tipos de revelações distintas também, para atingir os resultados que pretendia a cada foto. Se for ao meu site verá algumas dessas fotos lá.

    Hoje para eu fazer aquilo não preciso mais de tanto trabalho, mas felizmente desisti de continuar fazendo de forma tão fácil onde a criatividade humana se reduz ao mínimo. O trabalho anterior me dava muito mais prazer e tinha muito mais valor, amigo. Logo que me aposentei no BB, em Fevereiro/1986, passei a fazer exposições fora dos salões da ABAF, em salas de arte, salões, e até em Galerias de Arte, acredite. Tenho tudo documentado. Fotografar sempre foi uma das grandes paixões da minha vida, assim como trabalhar no rádio ( o de antigamente também, não no de hoje), dar aulas, etc.

    É isso aí, amigo. até em alto mar eu fiz exposição de minhas Fotografias Artesanais, numa viagem do Brasil para a Europa no então transatlântico Eugênio C, em 1989. Quem me convidou a expor foi o italiano que era o Capo Comissário do navio, um amante da arte fotográfica. Foi uma experiência maravilhosa, caro Marcelo. Depois acabei também expondo na APAF, em Lisboa, pois fiqui morando lá por um ano com minha segunda e saudosa esposa. Voltamos à Europa mais 3 vezes, em longos períodos até 1998.

    Um abraço amigo do
    Francisco Simões/2011.

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  15. José Claudio3:25 PM

    Foto legendas é algo fantástico e você mais ainda. Meu abraço. paz e bem.

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  16. Izabel Aarão3:27 PM

    Ei Marcelo,
    Eu sou do tempo do “quartinho escuro” também e meio dinossaura. Lembro muito bem das aulas de fotografia na faculdade. Ainda tenho foto no papel, muitas por sinal, mas confesso que guardo um arquivo com algumas no computador e outras em CD. Fica dificil não acompanhar a máquina digital, tão prática, mas concordo que aquela magia no momento de fotografar acabou completamente.
    “Flagrante da geladeira…”, muito bom. Abraços, Izabel.

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  17. Célia Rangel3:28 PM

    Olá Marcelo… ai está uma coisa que nunca fui muito adepta. Nada fotogênica. Prefiro guardar as imagens mentais. Por sinal, antigamente, nas pracinhas interioranas era um evento ir ao “lambe-lambe” e dele ouvir “olhe o passarinho”… Bobinha, eu ficava procurando o passarinho e saia da posição que ele me colocara! Um suplício! Mamãe colecionava todas. Prefiro muito mais as digitais que deleta-se facilmente!
    Abraço, Célia.

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  18. E não é que estou em Sampa, tentando escolher o que fotografar? Instantes antes, tentava entender a imagem de um prédio (em meio a outros tantos...(:
    Beijinhos

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  19. Marcantonio3:34 PM

    Perfeito. Tenho que pôr aqui o sempre insuficiente e internético KKKKK! Instantâneos críticos do seu flagrante humor. Essa da geladeira…

    Abraço de portador de um fígado devidamente “desopilado”!

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  20. Muito bom, Marcelo! O bom disso tudo é que a socialização da fotografia trouxe uma nova percepção ao olhar das pessoas. beijos

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  21. Mara Narciso10:58 PM

    Fica claro que, com a foto instantânea, o vômito é para sempre. Antes era um mal-estar fugaz e logo esquecido. Mas é um momento tão, como direi, sublime, que, para que esquecê-lo?

    Antigamente, no tempo da Sonora, Laboratório de Fotografia em Manaus, era possível tirar as fotos e esperar por 30 dias até a chegada das maravilhosas fotos, de filme trocado. Gente que você nunca tinha visto e que era impossível destrocar. Era ou não era bem mais emocionante do que hoje?

    Marcelo, até a escatologia das escolhas fotográficas me fizeram rir. Só mesmo você. Hilário!

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  22. Lidia Maria de Melo10:59 PM

    Minha irmã costuma dizer: ”As melhores imagens a gente guarda na memória”. Concordo em parte somente. Se tiver o registro para relembrar, muito melhor. A imagem afetiva se perpetua ainda mais na memória e no coração. Mas, para falar a verdade, a gente faz tanta foto e depois se debate com a angústia para salvar no HD, em CD, em pen drive, para não perder. Acaba nem mostrando para a família, como se fazia com os álbuns. Eu adoro fotografar, depois editar em vídeo, mesclando com filmes, incluindo trilha sonora… Minha mãe reclama sempre: ”Não vão revelar as fotos da viagem? Vocês jogam no computador e eu não vejo mais”. E ela tem razão. Facilidades de um lado, dificuldades do outro. Um abraço

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  23. Márcia Sanchez Luz9:55 AM

    Marcelo, sempre digo que um bom fotógrafo captura o que não pode ser visto por olhos distraídos ou desinteressados. Há que ter sensibilidade para a arte…algo raro nos dias de hoje…
    Adorei seu espaço.

    Abraços,

    Márcia

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