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PERGUNTAS, PERGUNTAS E MAIS PERGUNTAS


Preencher formulário é tarefa invariavelmente entediante, dispendiosa e de finalidade discutível. Às vezes o ritual de preenchimento beira o insuportável, e o castigado leitor há de me dar razão. É quando somos obrigados, por exemplo, a garranchar aqueles malditos papéis de imigração nas viagens internacionais. Duvido que seja de menos de 90% o universo dos que deixam a tarefa para os últimos dez minutos de voo, duvido que a caneta (emprestada) não falhe bem na hora de assinar o bagulho e duvido que você e o sujeito do seu lado não usem como apoio a bandejinha de refeições (dependendo da companhia aérea, a mesma bandejinha) – o que coroa o desinteressante procedimento com uma nojenta mancha de gordura no formulário.

Mas o que mais irrita mesmo nem é tanto a falta de paciência e o excesso de má vontade nas respostas, mas a natureza astuciosa das perguntas. Não raro deparo-me, logo abaixo dos campos de nome, sobrenome, RG, tipo sanguíneo, coloração usual das fezes e se tive ou não pé chato em algum momento da vida, com questionamentos que tirariam até a Madre Teresa de Calcutá do sério. Tipo: a frequência com que aparo as unhas, a densidade por cm2 de pelos no antebraço e, ainda no âmbito dos membros superiores, a pior das indiscrições que um perguntador profissional poderia cometer: quantos dedos eu possuo em cada uma das mãos, e se todos eles constam como meus dependentes nas seis últimas declarações do imposto de renda.

A falta de cerimônia em vasculhar a vida alheia inclui perguntas escabrosas sobre segredos de alcova, como o material do puxador de cortina do meu quarto e se as cerdas de minha escova de dentes são macias, médias ou duras. Admito o fornecimento de informações úteis que não caracterizem violação de privacidade, coisas de menor importância e sobre as quais usualmente não se faz sigilo, como renda mensal bruta, posição sexual favorita, tamanho do pênis em repouso, em quem votei para presidente da república e outras amenidades de igual quilate.

Entretanto, a saia fica justa quando surgem especulações que devassam a vida do cidadão de maneira ostensiva e desrespeitosa. Dou exemplos. Se o botijão de gás da minha cozinha veste ou não capa florida; há quanto tempo ando afastado do confessionário e quais os motivos que me levaram a tal distanciamento; se me importaria em eventualmente substituir por H3O a costumeira H2O armazenada na moringa do criado-mudo em caso de racionamento de guerra ou outra circunstância emergencial; se tenho o hábito de separar o arroz do feijão no prato ou se disponho um sobre o outro, a fim de abrir mais espaço à mistura; dos sobrinhos do Pato Donald, qual o meu predileto e quantas pessoas de nome Onofre possuo na família; se porventura já me ocorreu a ideia de testemunhar o dia a dia de uma prisão turca; se faço ou não parte do rol de esquisitos que folheiam o jornal de trás para frente às terças e quintas, da frente para trás às quartas e sextas, aleatoriamente nos fins de semana e nunca às segundas-feiras; se a abolição do trema causou transtornos mensuráveis em minha rotina habitual e se a revelação de que o caqui engorda me fez consumir mais ou menos carambolas que a minha média diária; se o uso excessivo de ponto e vírgula prejudica ou não a fluência da leitura, e em que circunstância o seu emprego incomoda menos: nos clássicos da literatura, nas bulas de remédio ou nos folhetos de missa.


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Comentários

  1. Adriano Neves2:40 AM

    Muuuiiito legal!!!

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  2. Sandra Nogueira3:11 AM

    oi Marcelo, acho que você está dando idéias para a Abin rsrsrs. Um abraço, meu inspirado amigo, impossível não rir das suas palavras.

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  3. MARCELO!

    Deus me livre de preencher um formulário desse tipo. É hilariante, mas bem próximo das perguntas que fazem.

    A natureza astuciosa das perguntas, é obrigatório ter resposta? O que eles farão com esses boletins? Certamente levar à um psicólogo e morrerem de rir. Por exemplo: jornal e revista, só leio de trás para frente sempre. Isso é anormal?

    Imagino depois de tudo preenchido, caso a pessoa vá para um país onde existam leis rígidas, o que dentre as perguntas será considerado "fator de mente terrorista".

    Excelente, não só o texto mas a advertência!

    Beijos, amigo!

    Mirze

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  4. Ainda bem que nesses questionários três erradas não anulam uma certa...
    Os caras que elaboram estes questionários, penso eu, devem estar tentando encontrar o pai desconhecido.

    Tácito

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  5. Claudete Amaral Bueno8:31 AM

    Oi! rsssssss

    Só um "pouquinho" exagerado, mas.......como sempre, muito bom! Parabéns!!!!!!!
    Um gde abraço!

    Claudete

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  6. me pergunto sempre por quem os sinos dobram...mais um ótimo post! Beijo, Marcelo!

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  7. Marcelo, depois de aberto, você guarda o refrigerante deitado ou em pé na geladeira?
    Ao comer romeu e julieta (o doce) você come eles juntos ou primeiro o queijo e depois a goiabada?

    ri muito com as indiscrições!!
    abs,

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  8. Belvedere Bruno1:21 PM

    Vc é fora de série!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Esses grandes jornais do país não sabem o que estão perdendo!
    Bel

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  9. Já sei Marcelo, a causa da sua revolta com tantos questionamentos: você folheia o jornal de trás pra frente às quartas e sextas, e não às terças e quintas conforme lhe foi perguntado... rsss

    Brincadeira à parte, belo texto. A nossa vida é resume a responder perguntas. E na maioria das vezes perguntas que não levam a nada.

    Parabéns!!!

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  10. Oi Marcelo... já nascemos respondendo questionários... registros... filiação... carimbo do pezinho... pulserinha tipo marcar o bezerro...total DNA da nossa existência... E, seguimos respondendo... mentindo em muitos... omitindo em outros... e até no "Aqui jaz" fatídico... alguém preencherá um questionário por nós... Ou seremos indigentes? Pergunto-lhe: valemos pelas respostas? Pela identidade? Ouriça-me e muito ler um texto tão real como o seu mendigando apenas SIMPLICIDADE!
    Abraço, Célia.

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  11. Jorge Cortás Sader Filho9:39 PM

    Mas o talento ultrapassa os limites do possível. A cada invenção, surge outra.
    O infeliz que for obrigado a preencher um formulário destes corre sério risco de ser acometido de surto psicológico, de consequências imprevisíveis.
    Livrai-nos do mal, amém!

    Abraço, Marcelo.
    Jorge

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  12. Cacá9:40 PM

    Não sei se é ironia ou eufemismo mas tem um hospital aqui em BH que se chama Madre Teresa e num preenchimento de ficha quando vi a pergunta sobre a minha religião eu perguntei à atendente se era condição para que eu fosse atendido. Mae respondeu que era só para constar, então eu disse que não ia fazer parte de suas estatísticas. rsrs. Mas do jeito que vamos caminhando com vigilâncias não vamos escapar disso tudo ai que você disse (talvez não preenchendo formulários mas sendo filmados full time). Abraços, Marcelo! Paz e bem.

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  13. José Carlos Carneiro4:34 AM

    Marcelo, você é D+. Sem mais palavras.

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  14. Evelyne Furtado2:18 PM

    Texto memorável, Marcelo! Só tenho que agradecer seu talento que me proporcionou essa leitura deliciosa. Valeu por todos os formulários que tive preencher com tédio e raiva. Beijos e boa semana, amigo.

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  15. Oi Marcelittoo...que coisa mais interessante! Algumas perguntas que vc coloca, sinceramente, fiquei curiosa em saber a resposta...rsss...Amei o texto...Beijooooooooooooo

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  16. Leslie Taboas3:01 AM

    É mesmo chato esse negócio!!! Gostei do texto!!

    Abçs.

    Leslie

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  17. Clotilde Fascioni5:33 AM

    Parabéns Marcelo. Formulários, realmente, ninguém merece. E aquele para tirar o visto para os EEUU (tirei há muitos anos, nem sei se ainda é o mesmo) que pergunta entre outras se você vai para se prostituir, vender drogas etc? Santa ingenuidade...

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  18. Gina Soares7:10 AM

    hahaha... é isso mesmo!!
    Só faltam questionar quantos dentes cariados temos na boca...
    Excelente e muito bem humorada!!
    Abçs

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  19. Marco Antonio Rossi7:12 AM

    Caro AMIGO MARCELO


    REALMENTE, COMO É CHATA ESSA HISTORIA DE PERGUNTAS PARA PESQUISA.
    SAO IGUAIS A AQUELES TELEFONEMAS DE PEDIDO DE AJUDA(VALE UMA CRÔNICA...)
    ABRAÇO
    ROSSI

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  20. É. Eu tenho pavor destes formulários e de toda e qualquer burocracia. Eu que moro em cidade do interior, tenho que driblar as sras Kravitz (seriado A Feiticeira) da vida, que teimam em cuidar da minha e das outras vidas. Alguma curiosidade tolero, por exemplo no homeopata. Há perguntas que parecem invasivas, mas que têm importância em diagnósticos. O que me vem à mente como explicação é que minha vida, aos olhos destas pobres criaturas, é interessantíssima uai!
    Ótimo texto como sempre! Bj

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  21. Negócio é o seguinte: Vai querer saber quantas cólicas estou sentindo de tanto rir dessas suas lamentações? Pô, cara, sua inteligência o impede de apagar as suas chateações, o que eu acho muito bom, afinal você as transforma em sofisticadas piadas.
    Cara, você é o cara, meu!
    Grande abraço, gênio!

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  22. Faltou uma e essa eu presenciei.
    Perguntaram a uma senhora à minha frente
    se tinha filhos, quantos eram e se todos eram
    do mesmo pai.
    Acha que continuei na fila? Sei lá o que ela podia me perguntar...
    Ótimo texto.

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  23. Mara Narciso11:03 PM

    Distraiu-me, enumerou coisas impossíveis e inimagináveis, e fez-me rir. A carapuça me assentou em profissional de fazer perguntas. Seja na medicina, seja no jornalismo, a minha profissão é perguntar, e já formulei algumas dessas pra lá de difíceis. Marcelo, você arrebentou!

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  24. Risos, risos e risos. Quem faz uma pergunta agora sou eu: "Marcelo, de onde sai tanta imaginação, tanto talento"?

    Adorei!

    Beijosss


    E.T. Aos poucos vou me atualizando na leitura dos seus belos posts. Estive em merecidas férias e nesses últimos dias com probleminhas logísticos no blog.

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