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PRONUNCIAMENTO DUÑESCO DE ANO NOVO


“Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Melhor o meio termo, ou seja, a lama. A do Dalai ou a de Araxá, que tem poderes comprovadamente rejuvenescedores para a pele e reabilita em oito meses a função do apêndice”. Ante olhares pasmos de alguns poucos criadores de bichos-da-seda e de quatorze mochileiros que por ali colhiam cogumelos, assim iniciou sua preleção o Venerável Duña, em aparição relâmpago ocorrida ontem, por volta das nove da noite, no cume de uma montanha mantiqueira.

Teólogos e teóricos das mais díspares correntes esotéricas concluem que o inusitado pronunciamento revela um Duña menos extremado em suas exortações, um líder messiânico mais disposto a valorizar o equilíbrio e a ponderação em detrimento do fundamentalismo inflexível de algumas seitas – que caracterizaram inclusive a sua própria Ordem em outros tempos.

“A segunda década do século 21 que ora iniciamos será certamente marcada pela concórdia entre os homens. E isso não é sandice profética ou retórica de ocasião. Tomem como exemplo a questão percentual do dízimo. Um fiel que, por liberalidade, queira destinar mensalmente à nossa seita doze por cento ao invés dos dez regulamentares, não merece ser discriminado pelos demais seguidores. Até porque essa participação mais generosa ao erário sagrado não implica necessariamente na aquisição de um quinhão maior no latifúndio celeste. Há que se ter tolerância e compreensão aos que voluntariamente optam por oferecer mais”, disse o sacerdote supremo, enquanto de suas têmporas pululavam raios ionizantes de cor violeta.

Ajoelhando-se, o Iluminado prosseguiu:

“Fazei com ambas as mãos a caridade que deveis praticar. Ajudai os coxos a atravessarem a rua utilizando ambas, degusteis o desjejum, o almoço e a janta usando ambas, digitai em vossos laptops empregando indistintamente ambas e, para que a discórdia não se instale entre ambas, que ambas depositem oferendas igualmente generosas sempre que se proceda à passagem da sacolinha nos cultos sagrados.

Caso não seja do tipo meia-cura, separai o queijo da goiabada como quem separa o joio do trigo, pelo fato de ser impossível o convívio pacífico entre a velha e boa goiabada de tacho à moda mineira e queijos dos tipos parmesão, gruyère, prato, fresco, provolone, gorgonzola e todos os demais produzidos com leite de vaca, ovelha ou cabra.

Lembrai que os doze mil Oráculos, que peregrinam em trabalho missionário pelo planeta, são a representação carnal do Excelso Ser Duñesco, sendo por ele investidos de plena autoridade para dirimir desavenças entre torcidas e arbitrar soberanamente sobre demais litígios – sejam eles de natureza desportiva, culinária, sexual, filosófica ou fitoterápica. Contai com seus sapientes conselhos ao longo de todo o ano de 2011.

Orai e vigiai para que a dama de incisivos proeminentes, que doravante vos governará, mantenha os subsídios federais à produção e importação de velas, incensos, indumentárias e demais paramentos necessários aos nossos rituais litúrgicos.

E a vós, que aqui presenciais esta minha aparição, sugiro que deixeis de criar bichos-da-seda e de colher cogumelos, pois tais afazeres não vos levarão a parte alguma. Muito menos à salvação eterna”.




© Direitos Reservados

Comentários

  1. Marcelo!

    Nata tão dantesco como este texto. Escolherei a lama de Araxá, porque a outra gera problemas duñescos. O melhor, ou o pior é que ontem recebi um texto por e-mail falando de algo gigantesco que aconteceria por volta das nove da noite com o sol. Comprovando científicamente (?) o fato. Claro que o dízimo deveria ser o ponto alto. "Fazei com ambas as mãos a caridade? E quem não tiver mão, ou só tiver uma, será mutilado?
    O conhecimento culinário do SER está de altíssimo nível em matéria de queijo. E ainda entende de Santo Daime!

    Oremos e vigiemos sim, por nós.

    Excelente texto!

    Parabéns, amigo!

    Mirze

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  2. Clotilde Fascioni1:23 PM

    Maravilhosa e providencial “visão”.
    Invejo aqueles que cultivavam bichos-da-seda e colhiam, ou será que tomavam chá de cogumelos naquela hora? Até porque naquele horário assistia eu a cerimônia da passagem de faixa…

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  3. Leslie Taboas1:24 PM

    adorei o texto!!

    Até o próximo.

    Abçs.

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  4. Humm!...Muita iluminação para a "dama" para que ela possa dirimir desavenças e erradicar preconceitos!...
    Parabéns pelo texto!...
    Alto nível lexical, sintático e semântico!
    Adoro suas metáforas!
    Num contexto orante de cidade do interior mineiro em início de década e de muitos outros inícios significativos, estarei vigilante.
    Criar bicho-da-seda ou colher cogumelo, nem pensar!...
    Bernadete Valadares.

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  5. Jorge Sader Filho11:20 PM

    Não me assustam casulos, mas a dama de incisivos proeminintes com as suas chaves!

    Abraço, Marcelo. Você escreve com linguagem camoniana textos que assustam os incautos…

    Bom ano de 2011.

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  6. Luísa12:50 PM

    Sinceramente?
    Li atentamnete e gostei…Concordar? Talvez sim, talvez não…
    Beijinho terno com votos de mais 365 dias cumulativos de bons momentos.
    Pode ser assim?

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  7. Zezinha de Sousa12:51 PM

    Olá, Marcelo
    eu acrescentaria:

    Orai e vigiai para que a dama de incisivos proeminentes, que doravante vos governará, olhe também com um olher proeminente para a educação e a saúde desse país que infelizmente não acompanha o avanço etc e tal, tão presente nos discursos.

    Um abraço!!!

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  8. Lídia Maria de Melo1:07 PM

    Marcelo, um ano-novo com criatividade e talento maiores do que você já tem.
    Grande abraço,
    Lídia

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  9. Marco Antonio Rossi1:09 PM

    PARA VOCE E FAMILIA TAMBÉM.

    ACHO QUE NO TEXTO, FALTOU O FAMOSO COGUMELO DO SOL, PARA A SAÚDE DE TODOS E PRINCIPALMENTE PARA A RECUPERAÇÃO DOS IDOSOS, QUE FORMARÃO BREVEMENTE O MAIOR EXERCITO DE INSS DO MUNDO.............................


    UM GRANDE ABRAÇO
    ROSSI

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  10. Belvedere Bruno1:11 PM

    Muito boa, Marcelo! Eta imaginação das boas.....Como custo a escrever. Inveja de vc!
    Bjs

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  11. Flavio Machado1:13 PM

    Obrigado pelos votos e desejo sucesso para 2011.



    abs

    Flávio Machado

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  12. Nada como iniciar 2011 com a norteadora retórica do oráculo mantiqueiro. Duña é a bússola salvadora dos desprovidos de direção... só lamento ele ser tão inconstante na obra do Marcelo... que 2011 tenhamos Duña em doses nada homeopáticas...

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  13. Gina Soares3:29 PM

    Quem dera Dalai Lama pudesse transmitir sua humildade!!!
    Continue nos brindando com seus textos em 2011, amigo!! bjss

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  14. Evelyne Furtado3:30 PM

    Gostei do Duna “nem lá, nem cá”. Moderação adequada aos novos tempos. Sinceramente torço para que a dama aqui citada acerte com as duas mãos. Sua escrita é mágica, Marcelo! Feliz 2011, amigo! Beijos

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  15. Olá Marcelo... não espero nada dos terráqueos... Se eu não plantar...ah! meu caro ninguém baterá a minha porta com cestas de provisões materiais ou espirituais..."Pronunciamentos DUÑESCO/DANTESCO ou DILMESCO" não me abalam mais... Eu que corra atrás dos novos 360 e poucos dias que se dizem novos... caso contrário... haja BUDA pra meditar!Ok? Ótimo 2011 pra vc!
    Célia.
    celliarangel.blogspot.com

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  16. Clauduarte Sá11:29 PM

    Mais uma vez PARABENS, meu amigo Marcelo! FELIZ ANO NOVO

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  17. Lau Milesi3:48 AM

    “Dama dos incisivos proeminentes”, é muito bom.
    Oremus, pois, para que esses incisivos não devorem nossa esperança de um Brasil melhor a cada dia.
    Namastê, Marcelo!!! Parabéns!!!
    Beijossss

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  18. Marcela3:50 AM

    Ele é MEU pai! Tenho muito orgulho de você. Parabéns pelo texto! Será que Duña vai ajudar em minha adaptação em Vitória?! Deve cobrar caro! Hehehe! =)

    Te amo…!
    Beijos!

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  19. Olá Marcelo, aqui estou novamente e continuo curtindo seu post. A dama dos incisivos proeminentes é uma incógnita (e eu não me canso de compará-la ao 'Charada', nem sei porquê). Seria interessante aos estudiosos da evolução, entender assim as funções do apêndice e Darwin ficaria feliz em conhecer tal lama. Estou aqui mais perto de Araxá, no sul de Minas e longe de minhas montanhas de ametistas, espero não ver meus ideais chafurdarem nestas lamas. Mais vale um Lama, que separar a goiabada cascão do 'quejim minêro'. Espero que o Guru iluminado possa me prever os números da mega sena, quem sabe assim deixo de ter que virar lagarta (volta e meia) e passo a ser definitivamente borboleta!
    Um feliz 2011!

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  20. Kika Martins7:57 AM

    Muito bom! Adorei o texto.
    Bom início de ano.
    Abraço,

    Kika

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  21. Leo Lobos8:00 AM

    Mis saludos y abrazo afectuoso desde Santiago de Chile,

    Leo Lobos

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  22. Antônio Calazans12:11 PM

    Obrigado!!!

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  23. Cida dos Santos11:26 PM

    Que a segunda metade do século XXI seja marcada pela concórdia, não pela submissão e pela lavagem cerebral.
    Gosto das suas “deixas” para a reflexão.
    Abraços,
    Um lindo 2011!

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  24. Oi Marcelo...demorei mas cheguei!!! Que texto hilário!!! Adorei tudo, principalmente a dama dos incisivos proeminentes...Feliz ano novo, com saúde, paz, amor, etc, etc, etc...Um grande abraço nobre escritor...

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  25. José Carlos Carneiro3:47 AM

    Não só esta, mas também as demais com as quais nos brinda, todas excelentes. Andei faltando com meu hábito de mantê-lo informado sobre o que sai na Gazeta, pois pois estive fora do ar por uns tempos, por razões alheias à minha vontade, mas nada de relevante. Continue nessa linha, sempre inovadora, sempre irônica e debochada (com perdão da palavra, né?), mas repleta de realismo, de um olho clínico como o de poucos, vasculhando os intrincados caminhos do cotidiano, não deixando, também, de dar uns passeios pelas nuvens, o que é muito saudável. Há quem peca pela mesmice - você sabe - em nada inovando, não passando de um repetidor de repertórios alheios, o que não é o seu caso. É preciso ocupar os espaços que a criatividade nos apresenta e você bate o ponto e deixa sua marca para a posteridade. Falei bonito, não falei? Mas é com a maior sinceridade, outra coisa que você também sabe não é de hoje. Um abração de sanjoanense por opção. Por falar na nossa terra, que tem gente famosa saindo pelo ladrão, não sei se viu no "Bom Dia Brasil" de hoje que a cidade ficou um pouco mais famosa, dada e chuva que por aqui despencou ontem e fez estragos em muitos lugares e desabrigou gente. E sempre sobra para os coitados que, infelizmente, não moram nos lugares livres dessas agressões da natureza. Que fazer? Dei um giro pela cidade logo cedo e testemunhei coisas que não desejo para ninguém, apesar de não ter havido mortes, mas danos materiais. Inté, meu caro.

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