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SEM AÇÃO

Ilustração: Thiago Cayres



Com o fim do viva-voz, os negócios na BM&F passam a ser integralmente realizados pelo chamado GTS (Global Trading System) – um sistema eletrônico que as corretoras acessam de seus escritórios e dispensa a negociação feita pelos operadores em pregão.
Último Segundo - IG



Lá se vão dois anos desde que o meu valor de mercado despencou a zero, da noite pro dia, igual ao crash de 29. Mas ainda acordo no meio da noite com a orelha encostada no ombro, como se estivesse falando em três telefones ao mesmo tempo. Os músculos tensos, as mãos afrouxando um nó de gravata imaginário, gritando para ninguém: “Eu compro!”, “Eu vendo!”, “Fechado!”. Esgoelo até ficar quase rouco e ser acordado pela patroa, essa coitada que só não me largou ainda por causa da igreja. E vai um tempo até que eu desabe do saguão da BM&F para essa desgraça dessa cama, que já nem se dão ao trabalho de arrumar mais porque não saio mesmo dela, com a síndrome do pânico empapando de suor frio esse meu pijama listrado.

Agora o telefone toca de verdade. Um outro ex-operador, dos áureos tempos da ciranda financeira, me convidando para uma pescaria. Eu digo que sim, mas pesca me lembra rio, que me lembra Vale do Rio Doce, que me lembra o que nem preciso mencionar pra não começar a suar frio de novo. Desligo, faço de conta que caiu a ligação.

Maldita internet, malditos Home Brokers. Agora qualquer Zé Arruela administra, deitado na cama como eu, a sua carteirinha de ações. Se acham muito espertos e quebram logo a cara, lógico, porque não têm o jogo de cintura e a astúcia do papai aqui. Sou do tempo da Bovespa pré-painel eletrônico. Tinha uma lousa enorme e o pessoal, com giz e apagador, ia atualizando as cotações na munheca. Se contar ninguém acredita. E a grana pingava direitinho, tão constante e farta que eu nunca me preocupei pensando que um dia a fonte pudesse secar. Torrava o que vinha na farra regada a Chivas. Ganhava na corretagem e reinvestia boa parte na própria bolsa, comprando na baixa e vendendo na alta. Às vezes jogava tudo no papel mais azarão, e nunca dei com os burros n’água.

Volto aos jornais do dia, esparramados no lençol. Laboratório farmacêutico procurando voluntários pra teste de remédio contra a síndrome do pânico. Interessa. Vou lá conferir, pagam bem e ficam monitorando as melhoras e os efeitos colaterais. Serão dez anos fazendo parte de um grupo de controle, e tenho que assinar uns papéis isentando o laboratório em caso de óbito ou danos irreversíveis a essa carcaça velha. Tudo bem, não tenho nada a perder. Mas, antes, vou dar uma de operador Home Broker desconfiado e checar na bolsa a saúde das ações da tal empresa. Vai que... nossa, nem pensar. Olha o suor frio de novo.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Bom dia, Marcelo! Escreves muito bem... parabenizo-te e deixo meu carinho.

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  2. Marcelo!
    Excelente!!! Por acaso estagiei na Bolsa de Valores do RJ, e assistia todo o estresse dos operadores. Ficava impressionada! Achava que em algum momento um deles sofreria um infarto, ou coisa parecida. Ajeitar o nó da gravata era quase uma dança em coreografia, realmente um ambiente tenso, onde jamais eu trabalharia. A tensão nas quedas e altas dos valores passava até para quem, só como eu, assistia. Imagino que no mínimo, a síndrome do pânico deve estar espalhada em muitos, que escaparam de outras doenças piores. Seu humor inteligente, fez o homem ligar “pesca-rio-Vale”. Fantástico! Deve ser esse o caminho. Agora só mesmo um psiquiatra para resolver e acabar com os sintomas.
    MUITO BOM!
    Parabéns!
    Forte abraço!
    Mirze

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  3. Excelente.

    Tive um amigo assim sindromático.Vc fez o retrato da
    dor ,do vício,e sempre com humor,sua marca.

    Beijos,

    Cris

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  4. Excelente.

    Tive um amigo assim sindromático.Vc fez o retrato da
    dor ,do vício,e sempre com humor,sua marca.

    Beijos,

    Cris

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  5. Excelente.

    Tive um amigo assim sindromático.Vc fez o retrato da
    dor ,do vício,e sempre com humor,sua marca.

    Beijos,

    Cris

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  6. Excelente.

    Tive um amigo assim sindromático.Vc fez o retrato da
    dor ,do vício,e sempre com humor,sua marca.

    Beijos,

    Cris

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  7. Jorge Cortás Sader Filho8:46 AM

    Mas que habilidade, daqueles homens lá em cima, calça preta e blusa branca, anotando os preços novos das ações, seguidamente.
    A gritaria no pregão, um empurra-empurra, gestos com as mãos como se fossem um ‘vem cá’, ou compro. Muitos enriqueceram. E outros, até hoje, não tem nada.
    Para um ganhar, outro tem que perder! Enquanto isso, nosso amigo Marcelo investiga como vai a saúde financeira da empresa fabricante da droga para combater a síndrome do pânico.
    Ainda não teve um enfarte fulminante por causa do uísque. Saúde, gente!

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  8. Paulo Tácito9:09 AM

    De agora por diante, o processo será asséptico, porque a morte será melhor e mais barata que a vida.
    É a ideologia da usura liberal, o reinado do lucro.Tem como principal solução para tornar uma empresa imediatamente lucrativa dispensar metade de seus trabalhadores e dobrar as exigências de trabalho dos que restam. Aos excluídos, melhor ir pescar, que aliás na vale, acho que esse hábito de lazer salutar, herança dos japoneses, ainda persiste.

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  9. Leo Borges9:19 AM

    ADOREIIIIIIIIIIII!
    [TRABALHO NA BOLSA]
    Leo Borges-RJ

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  10. Ligia Sartori9:19 AM

    Neste caos que vivemos, sua coluna é uma parada na alegria. Muito Bom!
    Abs, Ligia Sartori Barros-RO

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  11. Célia Rangel12:47 PM

    Nossa, Marcelo! E, viva a preservação do Chivas!! Pode a bolsa cair… ir pros “vales da vida”… na volta da pescaria ter de passar por uma boa “peixaria”… mas o “on the rocks” ou até mesmo um “cowboy”… esse jamais ficará em segundo plano! A saúde agradece para combater tamanho stress! Viajei com seu texto… quando retornava para casa com montanhas de provas para corrigir!!! Elixir poderoso é o Chivas! Elimina toda e qualquer síndrome…
    Abraço, Célia

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  12. Uma visão divertida deste stress todo. Eu ficaria doida num lugar assim. Mas ôpa! Doida eu já sou!
    ótimo texto, como sempre! Bj

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  13. Belvedere Bruno11:14 PM

    EXCELENTE!!!!!!!!!!!!!!!!

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  14. Miria Pereira4:03 AM

    OBRIGADA MARCELO!!!!!!!!!!!!

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  15. Seria um milionário se, meia década atrás, tivesse investido na Sguassábia Funny Words SA. Perdi o trem da fortuna, mas toda semana sou um afortunado que recebe, aos sábados, junto com pão e a geléia de macaúba, os textos de MPS. abs do amigo e fã

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  16. Dade Amorim9:46 AM

    Puxa, Marcelo, essa é a vida que nunca pedi a Deus. Os efeitos colaterais são daqueles que levam a outros, nem sei se menos piores, mas sempre efeitos indesejáveis. Enfim, mesmo sem bolsa de valores a vida nos joga na arena, né não?
    Beijo e sempre um bom texto.

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  17. Quem já foi bancária nos tempos em que se fechado o caixa na máquina calculadora, punha no malote encarando a cara do maloteiro mal humorado para levar os documentos para processar em outra cidade, falar em síndrome do pânico é voltar ao meu passado estressante, daquela época em que gerente gritava: "Não está satisfeita, tem outro querendo o teu lugar". Para esse tipo de síndrome não tem droga laboratorial nenhuma que resolva o problema.
    Esse gerente era ótimo de bolsa, mas sem valores.
    Cara bom , inteligente Marcelo!

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  18. Sônia Silvino1:19 PM

    Marcelo querido!
    Vim ler as novidades!

    _*_*_*_*________*_*_*_*_
    ___*_________*___*__________*
    __*____________*_____________*
    __*______ ___VOCÊ____________*
    ___*___________É____________*
    ____*_______MUITO_______*
    ______*____ESPECIAL__________*
    ________*_ PARA MIM________*
    __________*__________*
    ____________*_____*
    ______________*–*
    _________________

    “Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo; a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará jamais.”
    Mario Quintana

    Pensando assim, vim te visitar e ler as novidades!
    Deixo muitos beijos, abraços e um carinho imenso!
    Bom domingo!
    Beijos!
    Sônia Silvino’s Blogs

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  19. Evelyne1:20 PM

    Assunto sério pode e deve ser tratado com humor,desde que seja assim: com muita habilidade e competência. Essa tal síndrome do pânico pode deixar qualquer um sem ação. Muito bom, Marcelo! Um beijo e boa semana, amigo.

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  20. Clotilde Fascioni1:20 PM

    Achei interessante checar as ações do laboratório antes de se oferecer como voluntário por dez anos (!) afinal a sindrome do pânico está em alta desde o século passado e pagando bem que mal tem? “Pior do que está, não fica” (a sindrome do pânico, claro). Parabéns, adorei.

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  21. José Claudio - Cacá3:06 AM

    Ah, Marcelo, ainda bem que não tenho taras com investimentos, pois se tivesse, (e se tivesse dinheiro) acho que o último lugar em que iria investir seria na bolsa. Fiquei com trauma, pois sou da época em que a gente ficava assistindo ao jornal da noite e vendo aqueles caras gritando desesperados e a sensação que dava era de que iam partir literalmente pra porrada uns com os outros. hahahaha! É de enlouquecer espectador, imagine os antidos operadores! Maravilha, meu caro! Abração. paz e bem.

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  22. Gina Soares6:10 AM

    Bom que a era da informatização chegou, mas não tanto assim, pois como você diz, os aplicadores não conhecem o sistema…
    Mas excelente pois o estresse realmente era muito alto, para os operadores!!
    Agora, o jeito é aproveitar a pescaria e tentar superar a síndrome!! O que passou, passou!
    Ótimo o humor do texto!

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  23. Marco Antonio Rossi7:51 AM

    CARO AMIGO MARCELO


    ETA TEMPO BÃO..................
    VENDIA AÇÕES DA COMPESCA E NEM TERRENO EXISTIA NO NORDESTE.....................
    ABRAÇO
    ROSSI

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  24. Roberto Lima2:29 PM

    marcelo,
    muito legal a sua coluna.
    afiadíssimo.

    grande abraço do

    roberto.

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  25. José Carlos Carneiro6:05 AM

    Havia esquecido de comentar. Excelente, Marcelo. Lembrei do meu tempo em São Paulo, ainda solteiro. Um grande amigo de então era corretor da Bolsa de Valores, nos moldes exatos que você descreveu. Vivi essa realidade um dia que fui assisti-lo trabalhando, a convite dele. Não sei se foi devido ao tipo de trabalho dele, mas era meio "pirado", o que você também descreveu muito bem.

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  26. Beleza pura esse texto, consegui sentir a angústria do personagem e ao mesmo tempo aproveitar as gags.Parabéns!
    Beijos

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  27. Afonso José Santana11:39 PM

    Marcelo, muita calma nessa hora!!! Bom texto, amigo, você disse muita coisa nele; mas cuidado com a
    saúde; grande abraço.

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  28. Oi Marcelo...que coisa interessante...Eu senti na pele algo parecido quando me demiti, depois de 20 anos de casa...Agora lendo isso, percebo o quanto vale a pena ter tudo sob controle e ficar atento às inovações ( modernidades) rsss....Amei teu texto...beijooooooooooooooooo

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  29. O problema é que, as pessoas deixam-se envolver, perdidamente, pela instabilidade dos negócios e esquecem-se de olhar o SOL e as simplicidades da vida.
    Conheço muitos que só vivem para os negócios e esquecem de VIVER.
    Abraços

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  30. Mara Narciso6:24 AM

    Risos...como sempre. Quem já foi rei nunca perde a magestade, diz o manjado ditado, mas cai bem ao seu texto Marcelo.

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  31. Zezinha Sousa6:26 AM

    Muita ação normalmente resulta nisso “sem ação” e sem noção.

    Parabéns, Marcelo, é sempre muito bom ler seus textos. Sua criatividade e habilidade em escrever com humor e qualidade é impressionante.

    Beijos com carinho!

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  32. Oi de novo!!! Apenas um adendo a respeito daquela dupla sertaneja: o que mais gosto da música é a letra... O resto, nem percebo...rsss...Teu gosto musical é refinado, heimmm...beijoooooo

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  33. Olá, Marcelo,
    Sabe, aquela criança lá do meu blog? Vejo-a sempre aqui escondida num homem que escreve maravilhosamente bem como um adulto mas que não deixa o humor de fora como se bricasse com as palavras como fazem as crianças. Obrigada pela visita.
    Beijos!

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  34. this is soooooooooooooooooooooooo gorgeousbridal jacket

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