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CASA GRANDE


Não, sinhá não é o tempo todo esse poço de virtude que a vila pensa que é. Vira e mexe, sinhá tem pensamentos impublicáveis. O pulso descontrolado, se vira e mexe na cama, com o bagaço da cana exalando seu azedo no ar parado do engenho. Descarações com heróis de livros, romances com entes sem rosto. Coisas de sinhá sonhadora, pecados mortais que o padre não poderá absolver porque sinhá não há de ter a cara de confessar. Sinhá tem urgências da alma, que não sabe definir nem dizer de onde é que surgem. Calores e calafrios que vêm e vão como os aguaceiros, trazendo o medo doentio de ter seu nome no mármore antes da hora.

Sinhá é devota, e louva oito vezes ao dia o santo padroeiro da fazenda. Para ele faz oferenda e promessa, e guarda para o clero o filho que ainda não teve mas que um dia há de parir, se sinhô der sossego pras mucamas e comparecer com mais frequência.

E por mais que sinhá saiba o quanto vale ser sinhá, o que sinhá anda querendo, lá no fundo das funduras, é deixar sinhá pra lá. Virar palmeira, pedra de ribeirão, casco de cavalo, tulha de guardar “os trem”. Ser a lua de São Jorge e tudo ver lá de cima, tentando enxergar sentido nesse ofício da existência.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Olá Marcelo, reflexivo texto! Li Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, aos meus 15 anos... e mudou completamente minha consciência política sobre direitos, deveres, castrações e escravidão! Concluo que ainda assim, hoje temos muito da "sinhá" que quer se livrar de muitos mandos e comandos, mas em nome de uma postura social, preserva-se na mesmice da subalternidade...
    VAleu pela retomada da conscientização! Abraço, Célia.

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  2. Desenfreadas paixões
    Tendo como lógica
    Os desvarios de uma época
    Aprisiona-se a emoção
    Latejando de volta
    Nuances dos desejos e
    Sentimentos de raízes.

    Belo texto!

    Tácito

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  3. Marco Antonio Rossi5:46 AM

    BOM DIA.

    SINHA GUARDA DEBAIXO DAQUELE MONTE DE ROUPAS UM FOGO QUE NADA PODE APAGAR. POR ISSO UM MONTÃO DE ROUPAS PARA TENTAR SUFOCAR.....................................
    CHIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII, TÔ VIRANDO POETA................
    BOM FINAL DE SEMANA.
    ABRAÇO
    ROSSI

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  4. Esta sinhá esta parecendo gente das Minas Gerais...trem bão por demais, uai!
    Obrigada!!!!
    Bjs,ana

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  5. José Cláudio - Cacá5:48 AM

    Enquanto isso , o sinhô, lá na senzala, ia dando a sua contribuição para a nossa miscigenação. Muito bom, Marcelo! Meu abraço. paz e bem.

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  6. Sinhás e sinhozinhos eram mesmo foguentos e lúbricos, segundo todas as narrativas que se encontram a respeito. E a melhor delas deve ser mesmo a de GIlberto Freyre.Tudo verdade, uai.

    Abraço, Marcelo

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  7. Jorge Sader Filho7:25 AM

    Finura de texto. Curto e massacrante. Marcelo soube dar vida especial nesta crônica.
    A vida dura é assim. Pensa-se nas coisas mais absurdas, como virar pedra ou palmeira.
    Primoroso, meu caro amigo!

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  8. Mirze Souza8:22 AM

    Sensacional, Marcelo!

    Sinhá apenas pensa e pensar, não é pecado. Ela apenas quer, mas não deixa o tÍtulo de sinhá. É sonhadora e deve sonhar sim, porque não? Não há o que confessar. Sonhos por sonhos, os do vigário devem ser bem piores.
    Louvar ao santo padroeiro, está errado. Louva-se à Deus, não à santos. Este é seu mínimo pecado.
    E quem, numa cidade pequena não implica com a Sinhá da Casa Grande? Assim como quem, depois de democraticamente eleito não implica com o chefe do Estado?
    Pobres os que estão por cima da maioria.

    Gostei da Sinhá. Mais ainda da delicadeza do texto.

    Parabéns, Marcelo!

    Excelente!

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  9. Marcantonio9:29 AM

    Esplêndido! Na província decadente, sinhá padece de controlado bovarismo.

    Abraço

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  10. Anônimo11:20 AM

    Por que tão distante?
    A pedra de Drummond, a doença de Bandeira.
    Construa com esta magnitude seu tempo. O mundo não nos permite flutuar.
    Reposicione-se.
    Lindo texto!

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  11. Na minha visão todas as senhoras das Casas grandes agiam dessa forma.
    Muito bom, Marcelo!!

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  12. Wagner Bastos12:32 PM

    Como sempre bão bisurdo!

    Abraço

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  13. Clotilde Fascioni12:33 PM

    Belo texto curto e nada reticente. Parabéns, gostei. Abçs

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  14. Como sempre, belíssimo texto Marcelo!
    Para mim, é um devaneio de alguma mucama de uma Sinhá de "arto" escalão!!!

    Forte abraço!

    Esse vai pro www.daversonweb.blogspot.com com prazer!!!

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  15. Zezinha10:23 PM

    E quantas sinhás ainda existem por ai, nos confins desse Brasil tão moderno na tecnologia e tão atrasado nas atitudes machistas dos “sinhôres”e nas inquietudes conformadas das sinhás.

    Não me canso de elogiar seu estilo, Marcelo.
    É sempre um prazer imenso ler seus textos.
    Beijos

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  16. Sônia Silvino10:24 PM

    Olá, tudo bem?
    Vim fazer uma visitinha
    e ler as novidades!!!
    “Eu te desejo
    Não parar tão cedo
    Pois toda idade tem
    Prazer e medo…
    E com os que erram
    Feio e bastante
    Que você consiga
    Ser tolerante…
    Quando você ficar triste
    Que seja por um dia
    E não o ano inteiro
    E que você descubra
    Que rir é bom
    Mas que rir de tudo
    É desespero…
    Desejo!
    Que você tenha a quem amar
    E quando estiver bem cansado
    Ainda, exista amor
    Prá recomeçar
    Prá recomeçar…
    Eu te desejo muitos amigos
    Mas que em um
    Você possa confiar
    E que tenha até
    Inimigos
    Prá você não deixar
    De duvidar…
    Quando você ficar triste
    Que seja por um dia
    E não o ano inteiro
    E que você descubra
    Que rir é bom
    Mas que rir de tudo
    É desespero…
    Desejo!
    Que você tenha a quem amar
    E quando estiver bem cansado
    Ainda, exista amor
    Prá recomeçar
    Prá recomeçar…
    Eu desejo!
    Que você ganhe dinheiro
    Pois é preciso
    Viver também
    E que você diga a ele
    Pelo menos uma vez
    Quem é mesmo
    O dono de quem…
    Desejo!
    Que você tenha a quem amar
    E quando estiver bem cansado
    Ainda, exista amor
    Prá recomeçar…
    Eu desejo!
    Que você tenha a quem amar
    E quando estiver bem cansado
    Ainda, exista amor
    Prá recomeçar” (Frejat)
    ______________________
    Beijos, muitos!
    Sônia Silvino

    ResponderExcluir
  17. Creio que se sinhá virar mucama resolve esses problemas, mas ela precisa do status de “sinhá”, não é mesmo?
    Abraços,
    Cida.

    ResponderExcluir
  18. Nizia Barros10:30 PM

    Uma delícia de ler.
    Muito bom!!!!!
    Nízia Barros-AC

    ResponderExcluir
  19. Rosa Célia10:31 PM

    Que prosa boa demais !
    Adorei!
    Rosa Célia-Curvelo

    ResponderExcluir
  20. Show, Marcelo!
    Demais.
    Que bom que encontrei este seu magnífico espaço!
    Virei sempre.
    Abraço.

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  21. Sandra4:10 AM

    Marcelo, querido amigo, estou aqui ruminando as coisas da sinhá. Pensando bem, o que ela tinha mesmo de bom era o pensamento, pecaminoso que fosse, rolando solto para além das aparências. Naqueles tempos senzala maior era mesmo a Casa Grande com tantas regras e exigências à mulher do patrão.

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  22. Belvedere Bruno9:12 AM

    Sempre genial, Marcelo!

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  23. Amigo Marcelo, lavra tão curta quanto intensa. Cheia de freios sociais, que bom que Sinhá pode viajar na liberdade do pensamento. Quando a Gazeta publicar seu texto, Sanja vai exclamar no seu jargão:
    Bão por bosta!
    http://baucrepuscular.blogspot.com/2010/01/por-bosta.html

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  24. Olá Marcelo!
    Quantas Sinhás não existem até hoje? Vítimas de suas próprias convicções e presas ao moralismo hipócrita de sociedades machistas! A busca da liberdade, do vôo proibido se dá quando o combustível se aquece e ameaça explodir por dentro de corpos febris. Vã existência essa, melhor ser "Tuia de botá os trem", melhor ser lua cheia , que mesmo sem brilho próprio, consegue-o refletindo o sol!
    Gostei demais do texto!
    Beijo!

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  25. Evelyne2:12 PM

    Uma leitura sensível e profunda das Sinhás. Há muito além da superficie modelar e aqui , Marcelo, você explorou esse universo com síntese e muita beleza. Texto lindo! Beijos e boa semana, meu amigo.

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  26. Engraçado é que há os tem já conseguiram ser pedra, palmeira, cascalho e muito mais e sonham, ainda, em se tornarem Sinhás.
    Há os que desejam ir; outros, desejam retornar.
    Grande abraço, moço inteligente.

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  27. Oi Marcelo...Demorei mas cheguei...rss...Sinceramente muita gente acha que só porque é sinhá " num podi nadinha"... Na verdade a sinhá foi muito reprimida, sentia vontades e não podia...Ah...tanta coisa queria escrever, mas como sou ainda uma sinhá, deixo você imaginar...adorei o texto...beijooooooooooooooooooo

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  28. Mara Narciso2:32 PM

    As crises existenciais dos outros são fáceis de resolver. Para Sinhá, um pouco de amor e sexo resolveria a questão, saindo do virtual para o real. Enquanto isso vai se torturando de desejos, medo da não absolvição dos seus pecados e da morte que já vem.

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  29. Sarita Barros7:22 AM

    Marcelo,
    pobre sinhá! Quantas não enloucaram nessa pressão de inconfessáveis desejos e confessadas virtudes?
    Amei,
    Sarita Barros.

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