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É O AMOR - PARTE II


- Anoréxica. É o que você está virando.
- Olha, não devo satisfação a ninguém, e esse ninguém inclui particularmente você. Aliás, ninguém é mais ninguém do que você. Pessoinha abjeta, acidente de percurso onde esbarrei com a unha encravada. Não entendo o porquê de você estranhar minha magreza. É de se esperar que um sujeito com seus modos o tempo todo ao lado desperte o apetite pelo jejum. Você poderia ficar rico, atendendo em domicílio e fazendo companhia pra quem quer perder a fome. Método eficaz e revolucionário. Efeito instantâneo e garantido.
- Quando você fala em não dar satisfação a quem quer que seja, entenda-se isso em todos os sentidos possíveis. Sei bem o que você quer dizer e sinto na pele as consequências. Você deixou de ser o que eu pensava bem antes do fim da lua de mel. E olha que foram só quatro dias naquela pousada em Cabo Frio. Eu já disso isso uma vez, e repito. A impressão que tenho é que pra você a armação é mais importante que os óculos. São as lentes que te deixam ver, mas para você o que conta é o que vão achar do design italiano. Essa valorização do fútil te desencanta, te faz enjoar rápido de tudo o que te cai no colo de mão beijada, te faz ter amor aos precipícios. Você é uma suicida nata, tem vocação natural pra coisa. Só não se mata porque não se conforma com a ideia de que vai exalar mau cheiro depois de morta.
- É para esquecer que existem pessoas como você que jejuo e faço regressão toda manhã, que tenho dependência do analista, que tomo uísque com Dormonid. E eu venho tendo uns insights que você nem faz ideia. O mármore das estátuas de Afrodite é o mesmo mármore dos mausoléus. Tão frio quanto. Já parou pra pensar nisso, do quanto o amor está próximo da morte? Pelo menos no nosso caso específico.
- Tá vendo, é dessa morbidez que eu falo. Você faz apologia da morte mas fica pra baixo e pra cima com creminhos e lamas na cara, pedras quentes na testa, botox nas pálpebras e por aí vai. Me irrita essa sua retórica de frases de efeito duvidoso, essas charadinhas filosóficas de almanaque de farmácia que você vai me jogando na cara enquanto retoca a porra da sobrancelha. E fica tentando descobrir, no balaio de gato de suas terapias alternativas, o que te levou a ser a merda perfumadinha de Chanel que você é hoje. Daqui a pouco algum livrinho de autoajuda te convence que você foi meu carrasco em vidas passadas, que eu fui um feto abortado do seu ventre de rainha, que lá na Roma antiga...
- Como você é presunçoso... o que te faz acreditar nessa importância histórica? Lamento ter de rebaixá-lo a reles pajem, quem sabe um coletador de estrume equino, quando muito bobo da corte. Que conseguiu se entranhar entre os serviçais do reino, mas que logo foi despedido por não ter graça nenhuma.
- Não há como ser engraçado olhando pra sua cara, ainda que fosse muito bem pago pra isso. Essa sua ossada insípida não inspira nem humor negro.
- Ah, meu tolinho. Há quem goste de ossos e lamba os beiços com eles.
- Concordo plenamente. Aí estão os cães, que não te deixam mentir.
- Bom, cachorro por cachorro... prefiro qualquer um que não seja da sua raça.


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Comentários

  1. bem legal esse conto. gostei da resposta, "ai estão os cães, que não te deixam mentir" rs, não sou mto fã dessa moda anoréxica mesmo.

    bom fimd e semana

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  2. Olá Marcelo! Com requintes de detalhes você narrou a superficialidade do ser humano!! Magnífico!A variedade de caminhos e estratégias levar-nos-ão ao mesmo destino... Não adianta fugir!Parabéns pelo realismo. Abraço, Célia.

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  3. Marcelo!

    Você foi corajoso ao tocar num ponto que a mídia acelera com seus modelos de mulheres magras, jovens e lindas.

    As crianças e adolescentes estão tendo sérios problemas com isso.Inclusive os meninos. Ninguém quer mais se alimentar para não engordar. E com isso perde-se o raciocínio na idade escolar.

    É um fato alarmante. O equilíbrio é o ponto certo. Mas o que vemos nas revistas expostas é: EMAGREÇA 10 quilos em uma semana. Dá errado, a pessoa se frustra e entra bessa onda anoréxica que há pouco tempo matou uma modelo e levou a mãe ao suicídio.

    Isto é sério e espero que quem acha você impaciente, nunca tenha na família um caso desse.

    Excelente texto que deveria sair em todos os jornais.

    Só para dar um toque de humor, chamasse a moça de gorda que da mesma forma seria agredido.

    Este artigo para mim, é ouro!

    Parabéns, amigo!

    Abraços

    Mirze

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  4. Jorge Sader Filho5:28 AM

    Fuzilante! Anorética – seria melhor anoréxica? – com botox. Linguagem de modelos, e Marcelo não perdoa!
    Não é para contemporizar mesmo. Umas no osso, outras quebrando balanças, outras e outros. Obesidade, um mal contemporâneo.
    Bateu firme, amigo. Não jogou fora suas palavras. Parabéns!

    Abraço,
    Jorge

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  5. Flavio Machado9:27 AM

    VAleu!



    Abraços

    Flávio

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  6. Zezinha9:35 AM

    Que briga hem?
    Cheia de requintes de crueldade oral, seja por palavras ou pela falta de um dos grandes prazeres proporcionado por uma boa mesa equilibrada entre o bom gosto e a ausência de exageros.

    Dizem que em briga de marido e mulher não se mete a colher, nesse caso realmente não se mete mesmo.
    Beleza de texto, Marcelo, é sempre um prazer ler você.
    Beijos!

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  7. Clotilde Fascioni9:36 AM

    Impressionante! Ela representa bem a maioria das mulheres fúteis e vazias de estômago e espírito, que se espelham em meia duzia de “doentes da passarela” e perde no segundo dia de lua de mel o seu amado amor.
    Sem esquecer que amor não enxe barriga, seu texto está “na medida”.
    Abraços Marcelo e parabéns.

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  8. Claudete Amaral Bueno1:04 PM

    Oi!
    Existe a parte I ?
    Na parte II é uma bela esgrima.....entre as partes..... Rssss.... mto bem escrito, como sempre!
    Abraço,

    Claudete

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  9. Gina Soares1:06 PM

    Parece que eu estava vendo a cena acontercer…
    o texto está perfeito. O assunto atualíssimo. A maneira de contar tornou mais leve a situação. Vaidade humana sem limite!!
    Parabéns!!

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  10. Marcelo, achei o texto fortíssimo, mas gostei pelo assunto abordado. Essa questão de a mulher ter que ser o que manda o padrão a faz Barbie, que por sinal uma boneca feia, fria e sem conteúdo algum. Ela é uma boneca que qualquer criança consegue, sem muita força, arrancar-lhe a cabeça. Impressionantre como as bonecas de pano são muito mais humanas e as meninas de hoje não as têm porque já não são presenteadas com elas.

    No caso em questão, o casal suicida empresta-se um ao outro, um porque é cachorro mesmo, não há como negar tamanha humilhação e estar , há anos, 'sit'.Há os que gostam de babar em ossos.

    Sem ele, a companheira não consegue sofrer tanto, subsídio para o emagrecimento.kkkkkk

    Há casais que vivem juntos por vingança.

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  11. Mais que gentileza, precisamos (também) de calmaria no coração..tadinha da magricela...bj, Marcelo!

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  12. Dade Amorim11:44 PM

    Marcelo, você já escreveu pra teatro? Olha só, diálogo bom era o que não ia faltar.
    E se a Martha Medeiros faz tanto sucesso, por que não Marcelo Sguassábia?

    Beijo pra você.

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  13. Evelyne Furtado10:30 AM

    O recorte da modernindade em um diálogo excelente. A ira, o desencanto e o ressentimento de mãos dadas com o botox, o culto à magreza e a ênfase no supérfluo. Meu amigo já pensei em escrever algo assim, mas defender a mulher pós-moderna, a quem é cobrada essa perfeição vazia de forma cruel. Muitas pagam sem questionar. Adorei conteúdo e forma. Beijos e ótima semana, Marcelo!

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  14. Jorge Eduardo Magalhães10:56 AM

    Oi entra no meu blog: www.jemagalhaes.blogspot.com

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  15. Ô loco, meu... abro o link e penso que vem a diversão semanal... nada disso, li o texto o contundente com o cenho franzido... vc transita por estilos e não perde o pedigree da pena... baita crítica à falta de limites da vaidade humana

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  16. te mandei um selo, marcelo pirajá.
    veja lá no meu blog!

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  17. Marco Antonio Rossi6:19 AM

    bom dia!


    eita amorzinho danado.......
    esta parecendo até conversa de alma penada....( olha aí outro assunto......)
    Abração
    Rossi

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  18. Rafael Paiva Silva6:46 AM

    Marcelão,

    Voltei de férias há pouco e chorei de rir com essa crônica… é bem assim mesmo!

    Abração,

    Rafrajola

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  19. Concordo com a Mirze quando ela diz que, para muitas mulheres, serem chamadas de magrelas é um elogio, enquanto que, chamá-las de gorda é xingamento.
    Mas os homens que não compactuam com esses padrões de beleza impostos à mulher moderna,devem assumir com mais firmeza não se importarem com algum quilinho a mais da parceira. Isso ajudaria muito na mudança de comportamentos.
    Creio que seria um pouco do que foi revelado no diálogo do seu texto: firmeza, talvez menos mordaz nas palavras, porém, deixando entrever claramente que não concorda com tal estilo de vida.
    Abraços,
    Cida.

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  20. Cacá6:35 AM

    O “quebra pau” é pesado, mas se eu disser que o diálogo é de alto nível, não estou sendo irônico em relação à esmagadora maioria das relações. O que se discute em geral é abobrinha sem tempero.

    E viva o mundo das aparências!!!

    Excelente,Marcelo! Meu abraço. Paz e bem.

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  21. Olá Marcelo!

    Bem entre cães e ossos, saíram todos em suas coleiras. Por terem de se ver pelos olhos dos outros, por terem de ouvir verdades contundentes. Mas assim mesmo entre raças e vaidades, todos tem a sua razão. Gostei do texto!
    Beijo.

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  22. Mara Narciso8:00 AM

    Para muito além da mordacidade, em cartaz e em cena para os aplausos, o humor-fino, e, neste texto, ultra-corrosivo, Marcelo Sguassábia. Realismo de vísceras expostas, uma moda que, infelizmente tenho, por força da profissão, que enfiar as mãos. Eu trato de meninas e senhoras anoréxicas.

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  23. Irene Serra2:33 PM

    Marcelo,

    Magreza é isso, o mais é brincadeira...

    Beijos,
    Irene

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  24. Fabiana2:36 PM

    Oi Marcelo, morri de rir com as expressões que vc pôs na boca das personagens – “Já parou pra pensar nisso, do quanto o amor está próximo da morte? Pelo menos no nosso caso específico.” Percebo que, apesar deste diálogo sangrento, eles falam. Pior é o que eu vivo, ninguém diz nada. Tudo ruindo ao redor, azedando e ninguém xinga, ofende, grita. Cada um com seu problema, né? Mas rir de nossas desgraças é uma virtude. Obrigada por me fazer rir hoje. Abraço.

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  25. Renata Bonfim2:38 PM

    Olá caro Marcelo, vim conferir seu texto e gostei, inquientante esta voz que vai contra o stus quo defendendo a beleza mórbida da anorexia, claro, como metáfora para o tempo em que vivemos, e a voz daquele que condena. Bem baudelairiano…. ehehehe, lembrou um poema sobre carniça. Bem, concordo com a idéia de que experienciamos, obesos, a anorexia nervosa e tarada pela falta de amor, de diálogo, enfim… definhamos juntos…
    abraços fraternos
    renata

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  26. Essa briga vai longe, e termina, ou recomeça, na igreja! Meu abraço.

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  27. Marcos Claudino2:06 PM

    Marcelão, em poucos casos pude presenciar tanto amor assim...

    Parabéns, que ótimo texto...

    abraço,

    Marcos

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  28. Nossa! Foi fundo esta discussão...Normalmente quando não há mais respeito as palavras doem de todos os lados.Muito bem escrito. PARABÉNS

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  29. Nossa! Foi fundo esta discussão...Normalmente quando não há mais respeito as palavras doem de todos os lados.Muito bem escrito. PARABÉNS

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  30. Tudo já foi dito!! Excelente texto.
    bjss

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