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BENDITO TEMPLO


Sei que isso quer dizer bem pouca coisa para você, que não foi nem protagonista nem testemunha, mas ainda assim insisto. Observe que ocorre uma química interessante, no laboratório de física, entre o aluno número 11 e a aluna número 39. E que dessa química há bolhas púrpuras que entornam do tubo de ensaio. Em cada bolha um duende cativo, rindo de se matar, não se saberá nunca de quê. Elemental das minas, de dentes gastos e feios, primo daquele outro que dorme entre os halteres da sala de ginástica.

Presente, professora. A professora presente como a merenda intacta na lancheira, há décadas e décadas sem sinal de bolor e ainda ali mesmo, embaixo da carteira. Perto do taco solto, onde se guardava a cola. Não a que grudaria o taco: a que passaria de ano você, ele, os números 7, 15, 28 e a turma inteira do fundão.

Tudo pode acontecer no intervalo entre uma aula e outra, até o que poderia acontecer em qualquer tempo e lugar, menos no intervalo entre uma aula e outra de uma escola com brasão lustroso e nome a zelar. A normalista de 1915 deixou um recado na parede. Raspe as últimas quatro ou cinco camadas de pintura e verá uma mensagem cheia de PHs, escrita em tinta verde. Casta que nem meia três quartos, certinha que nem saia plissada. Sem nenhuma segunda intenção as poucas linhas da moça, prometida em casamento a um filho de fazendeiro. Terão uma renca de filhos num casarão de pé direito alto, com janelas enormes e vista para o morro.

É terminantemente proibido fumar mas todos fumam como se acreditassem que o fazem escondidos, fingindo supor que o inspetor não sabe. Ele que, à época, tinha essa idade minha. Vou te dedar. Vou te pegar na rua. Vou meter uma barata morta dentro da caixa de giz e espalhar que foi você.

Repare ainda que o cheiro da massa de modelar não muda, inspire fundo e tire a prova. Agora não se mexa, permaneça assim o tempo que aguentar, com o ar preso nos pulmões. Feche os olhos e morda a polpa da lembrança, a doce e sem semente, aquela de se guardar no cofre e jogar o segredo fora.

Os hormônios explodem e formam fila para fazer filhos embaixo da mesa do professor, atrás do muro da cantina, onde mais houver espaço e oportunidade de infringir as normas disciplinares do templo de instrução. Mas a façanha fica na vontade. Você nunca foi disso, nós todos não éramos. Ou éramos mas não tínhamos coragem, o que é muito mais provável. Cantemos então o hino nacional, com a mão direita no peito, vendo a bandeira que sobe.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Adriano Neves4:21 AM

    Putz cara, preciso respirar fundo......... isso me emocionou demais, acredite. Quando vc. faz crônicas assim, arrebenta o coração. As vezes eu entro no colégio onde estudei que fica apenas algumas quadras de onde moro e quando entro na sala de aula, na mesma classe sinto aquele cheiro do assoalho velho e empoeirado e aí,............me vem tantas lembranças na cabeça. Incrível, é o mesmo cheiro. Parece que o tempo parou e que eu estou me vendo ali, chegando todo bicho grilo, cabeludo, nem aí com nada. Usando colar de missanga camiseta hering com um visual produzido por mim, manchada com corante Guarany. Bolsa tiracolo feita de retalho de calça jeans desbotado. O indisdciplinado da classe que só tinha olhos pras gatinhas da sala de aula.................E a prova impressa no mimiógrafo cheirando a álcool............Põrra meu, maluco isso não? Que viagem no tempo....................Meu, vc me fez relembrar tudo isso nessa crônica.

    Parabéns!!!!!!

    Grande abração.


    Adriano

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  2. E diante desta oração escancarada no peito poético que deseja desbravar as lembranças, vivendo-as outrora no presente, ajoelho-me. Façamos o mesmo. Mordisquemos as nossas vontades explícitas em cada palavra que compõe este texto de muitas realidades adormecidas em nossas letras, mas despertadas na expressão do Marcelo.
    Parabéns, moço inteligente.

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  3. Ah! Marcelo... não te dei o direito de revelar minha insegurança... minha saia plissada... blusa branca... boina azul marinho combinando com a saia... meias brancas e sapatos pretos...e o meu silêncio de menina-moça que tinha que ser "certinha"... Não transgredia. Vontade era imensa! E, o tempo passou... e o arrependimento: por que não fiz? Tarde demais... hoje hormônios em déficit já me apontam outra realidade! Portanto... façam quem tiver condições de...
    Sábias palavras as suas! Parabéns, Marcelo.

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  4. Marcelo!


    Ficção e muita imaginação. Algumas coincidências e o metafórico sabor da polpa, cujo segredo foi jogado fora.

    Os duendes deveriam estar rindo de nós que nada sabemos deles.

    A química entre os alunos e números: 11 e 39 totalizam o mesmo número que passaria a turma inteira: 7, 15 e 28 = 50

    Em plena 1ª guerra mundial, o cigarro era incentivado pelos americanos, que hoje são contra. Fazer coisa escondido eu ainda gosto de fazer. Claro se houver alguém que proíba. A curiosidade nessa fase anda de mãos dadas com a imaginação. E nessa época era comum guardar segredos e mapas dentro de camadas de tintas. Até dinheiro, segundo a minha avó era colocado num buraco dentro da parede . Cá entre nós bem melhor – sem juros e sem inflação.

    Bem, o número 50 é uma dica para saber o cheiro imutável da massa de modelar e toda rotina que impregnava a sala. Mistérios para Sherlock Holmes.
    Muito bom!

    Vou tentar desvendar mais coisas. Adoro esses cálculos.

    Beijos


    Mirze

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  5. Meu amigo viajante. Viajei no tempo em que gostava do garoto da fila 3 e no recreio fingia prestar atenção no futebol de botão, pra estar mais perto dele. Tempo em que paixonites platônicas eram tão normais e necessárias quanto professores assíduos e alunos em sala. Bons tempos...deu saudade do giz branco e do sino anunciando mais um recreio...

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  6. Nossa,Marcelo, essa me atirou no fundo do baú. Só acrescento que tudo isso é sempre permeado por muitos, muitos sonhos...
    Parabéns! beijos

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  7. Juliana Gobbe2:23 AM

    Olá Marcelo...estamos com um blog do espaço de criação literária aqui em Atibaia para jovens...quando puder dê uma espiadinha.

    Abraços,

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  8. Marco Antonio Rossi2:25 AM

    Carissimo Amigo Marcelo

    Parabéns pelo aniversário e pelo texto onde pude relembrar meu tempo de escola...............
    Abraço
    Rossi

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  9. Luísa Vilaça2:27 AM

    Ola!
    Obrigada por mais este convite! Bendito tempo que nos cruza com novidades na escrita!

    Beijinhos,
    Luísa

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  10. Luiz Carlos Amorim2:29 AM

    Obrigado, Marcelo. Passe no meu blog Crônica do Dia, de vez em quando: Http://luizcarlosamorim.blogspot.com
    Comente, participe.
    Abraço do Amorim

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  11. Carlos Galvão2:29 AM

    aeeee Maecelo/////Bendito templo mesmo/////com visões, cheiros ,imagens e lembranças///hoje estamos aqui a teclar botões inodoros, insipidos e incolores, e se quisermos afetos imoploramos pelo mundo virtual.afeto e ensino virtual//E agora que faço de meus sonhos?/////absss//CG

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  12. Jorge Cortás Sader Filho2:33 AM

    Marcelo desta vez põe-nos a pensar. Antigo e novo?
    Conceitos a serem preservados? Estudar qual é o certo e o errado?
    Como estou acostumado com suas inteligentes crônicas, penso que que está nos chamando à reflexão.

    Aquele abraço!

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  13. Cristina Siqueira2:38 AM

    Oi Marcelo,

    Adorei.Gosto do humor de tuas crônicas.Vc conseguiu escrever sem nostalgia mesmo ela estando ali vivinha.Adorei de fato.

    Carinho,

    Cris

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  14. Cacá2:39 AM

    Eita saudade boa que você provoca na gente, viu Marcelo! Abraço grande. Paz e bem.

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  15. Bernadete2:39 AM

    Oi Marcelo,
    Bom demais ler suas crônicas!…Fico “encantada” um tempão, depois desperto e sinto as nuances desse seu estilo inconfundível!
    Parabéns!

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  16. Dade Amorim2:40 AM

    Bem eudeusado pela imaginação, o tempo rende textos assim, gostosos de ler e ricos de reflexão. Texto bom demais.
    Beijo

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  17. Sandra Nogueira2:40 AM

    Marcelo, que delícia ler o que parece sair de si tão facilmente. Metáforas, duplo sentido, humor sutil, tudo isso e mais um pouco na crônica de hoje.
    beijão e obrigada
    sandra

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  18. Marcelo, de todos os seus textos que já li, confesso, este é que mais me emocionou , o que mais gostei! Vivi assim também, em escola antiga, descobrindo papéis em buracos antigos de estante de laboratório, tendo aulas com professores de história que quase vivenciaram a primeira guerra mundial. Senti como se tocassem minha alma, meus caminhos e de todas as normalistas certinhas de meias 3/4 e de saias plissadas...Como eu fui (ou quase). Só fiz o primeiro normal. Mudei-me para o técnico que era só de homens (esperta!). Mas , mesmo quando era, tratava de dobrar a saia acima dos joelhos, enrolar as meias e tirar a gravata que me enforcava. Eram os últimos anos 70, fácil entender... Um beijo!

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  19. Zezinha11:02 AM

    Olá, Marcelo
    Incrivel é a viagem que você consegue fazer no labirinto do tempo entre ficção e realidade num vai e vem… E de repente fica e encanta!

    Parabéns, menino grande! Seu estilo é único!
    Beijos!

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  20. Tempo de castas meias três quartos, onde será que ele foi? Que seja descoberto embaixo da mesa do professor austero, para desligar os celulares na sala de aula de hoje, onde o número 15 nem se dá conta da paixonite do número 33. Uma pena!
    Grande abraço

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  21. uma lavra cheia de lirismo, reverência ao passado, uma viagem nas letras, aberta, que permite várias interpretações. enxerguei-me, em várias situações, nos bancos escolares do JJ.

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  22. Evelyne Furtado4:55 AM

    Foi com uma sensação deliciosa que li essa mescla de memória, considerações atuais e fantasia. Um texto adorável, Marcelo! Parabéns e ótima semana, meu amigo! Bjs.

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  23. Claudia Albers Avoglio8:26 AM

    Emocionante o seu Bendito Templo para quem foi normalista, andou por aqueles corredores, saltitou por aquelas escadas e sentiu medo dos porões escuros, onde um inspetor de alunos aguardava a merendeira para fazer tudo o que nos era proibido...
    Abraços.

    Claudia

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  24. Tony Marques2:35 PM

    Marcelo,

    Gostei muito de seu enigmático texto e do comentário interessante da Mirze.

    Parabéns para os dois!

    Tony Marques

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  25. Leslie Taboas12:10 AM

    ESCOLA, QUE TEMPO E TEMPLO MÁGICO!!!

    AMEI!!

    ABÇS

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  26. Mara Narciso8:15 AM

    Lindo! Voltou na minha cabeça todo o colégio de antigamente com sua rígida e puritana moral. Foram 10 anos com a freiras e 3 anos com os irmãos. O prédio velho da escola traz tudo de volta, as doces e as amargas lembranças. E o insólito: nunca colei.

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  27. "Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais"

    Me veio em mente esse trecho da música de Belchior! xD

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  28. Clotilde Fascioni3:40 AM

    Pôxa! Que demais! Entrei pela minha velha escola, com escada de madeira que rangia alto ao pisar em cada degrau, desgastados pelos pés inquietos que levavam para salas enormes no alto a inquietação de um período cheio de dúvidas e curiosidades com poucas explicações para as prosaicas perguntas teimosas e crescentes que todo jovem tinha. Sim eu disse tinha, pois hoje ja nascem sabendo, têm respostas para tudo e infelizmente alguns até vão para a escola (templo sagrado do saber) armados para mostrar quem manda no pedaço.
    Triste atual realidade, não sabem o quanto era mágico estudar no século passado.
    Abraços Marcelo, lindo e poético texto.

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  29. Marcela1:44 AM

    Pai… Me deu saudade da minha época de escola ao ler este seu texto (apesar de na minha época não acontecer as coisas que vc revela!) Eu definitivamente era feliz e não sabia, viu!

    Beijos….!

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  30. Amigo Marcelo, seu pedido é uma ordem!
    Assim como não muda o cheiro da massa de modelar, não muda o "aroma" dessa Escola maravilhosa. Pena que as normas disciplinares hoje são infringidas de maneira muito mais grave do que na época em que lá estudei... mas prefiro, ao adentrar nos corredores e fechar os olhos, sentir o mesmo cheiro que um dia senti... Vou parar, se não, vou chorar.
    Parabéns mais uma vez!
    Forte abraço!!!

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