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CASAMENTO IRREAL






O organista da Abadia entrou em pânico. Taquicardia. Suores frios nas mãos. Como que tomado de repentino e incontornável Mal de Parkinson, encarou cego de nervosismo o teclado do grande órgão de tubos e esbarrou numa nota errada logo no primeiro acorde. Desconcentra, para, não consegue mais mover um dedo. O cerimonial do Royal Wedding havia desconsiderado um plano B, tamanha a notoriedade e a fleuma do instrumentista, cuja frieza rivalizava com a British Royal Guard. Não consta dos anais de Westminster que o homem tivesse sequer titubeado antes, em 27 anos de ofícios religiosos. Foram meses de preparo com o coral e o regente, ele sabia todo o repertório de cor e por segurança ainda tinha as partituras de cada parte da cerimônia à sua frente, para a eventualidade de um improvável branco. Dois bilhões de telespectadores esperam o desenrolar do impasse. Muvuca em torno do órgão. Massagem nos ombros, água com açúcar, gravata afrouxada, calmante sublingual e nada. O estado do sujeito é de pré-apoplexia. A realeza se entreolha com cara de “what is happening?”.







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O rígido protocolo inglês pode prever e administrar tudo, menos o que é por natureza imprevisível e inadministrável: o tempo em Londres. Um vento noroeste, mais insidioso que todos os tabloides ingleses juntos, entrou traiçoeiramente sabe-se lá por que porta da Abadia e armou um mini-ciclone embaixo da túnica de um dos sub-auxiliares de celebrante. Ainda que de baixa graduação na hierarquia de Canterbury, o dito cujo estava posicionado frontalmente à câmera naquele momento. A versão sacra da cena de Marilyn Monroe no bueiro do metrô revelou que o religioso guarnecia as partes baixas com uma calcinha amarela de cetim, repleta de detalhes de strass e lantejoulas na região da virilha, adornada por coraçõezinhos com as letras W&K. A realeza se entreolha com cara de “what is happening?”.










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O cocheiro Edward estava com a bexiga mais cheia que a cara do Príncipe Harry em sábado de balada. Mas a consciência do dever tinha de ser mais forte que a necessidade fisiológica, por menor que fosse a velocidade daquele maldito coche 1902 State Landau e por maior que fosse a distância entre ele e uma das 39 privadas dos serviçais de Buckingham. Como nem tudo depende do esforço e da boa vontade humana, um dos cavalos da carruagem real perde a ferradura. O animal torce a pata e amontoa bem no meio do Mall que leva ao lar, doce lar de Elizabeth. Kate desmancha o sorriso, ajeita a tiara emprestada pela rainha e retoma a interminável sequência de adeusinhos à multidão, mesmo com o trole empacado. William desce e troca um parecer com o chefe dos guarda-costas. O cavalo acidentado é desatrelado dos arreios. O príncipe coça a careca de padre. Nem todo o ouro da Casa de Windsor compraria um fim rápido e digno para o embaraço. Um outro animal assume o posto, mas é marrom e não branco. Esteticamente comprometido, o cortejo ainda assim seguiria em frente rumo ao palácio, não fosse um sósia do Primeiro Ministro se postar à frente do triste séquito com uma metralhadora de brinquedo na mão e uma foto de Lady Di com um bigode feito com caneta esferográfica na outra. A realeza se entreolha com cara de “what is happening?”.








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Comentários

  1. Adoro abrir a imensa lista de convidados, digo, de comentários, para elogiar os seus escritos! Amei saber de ocorrências tão cômicas sobre a cerimônia mais chatinha da realeza! Bj, querido!

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  2. Francisco Simões8:31 AM

    Caro Marcelo,

    Descreveste bem o que foi, ou teria sido (já que não assisti ao casamento só à saida deles da Abadia). Esses acontecimento não me fascinam, não despertam o interesse que vi em tnata gente a se submeter ao sacrifício de ir muito cedo para algum lugar para não deixar de ver os noivos, ou já casados, passarem.

    Deste casamento, meu amigo, digo apenas que gosto do casal, especialmente do Príncipe Willis, nção só por ser filho da saudosa Lady Dy, como pela sua simplicidade no jeito de ser com toda a realeza a sua volta. Alias sou um dos que torcem, como 45% dos ingleses (em recente pesquisa) para que ocorrendo amorte da Rainha, seja ele o seu herdeiro e não o babaca do seu pai.

    Qunato a reis e rainhas, da Europa, sou muito mais o Rei de Espanha e sua família. Este é participativo da política e da vida de seu país. Não é como a família real inflesa de vive de beijinhos e abraços e que já leva o seu povo a pedir modificações no que eles recebem para levar vida de nababos às custas do erário público, do seu próprio povo.

    Morei na Europa por 4 longos períodos entre 6 meses e um ano, cada um, e assim acompanhei muito da vida daqueles povos, pois nunca fui um turista acidental, pode crer. E é isso, caro Marcelo. Parabéns.

    Um abraço do
    Francisco Simões.

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  3. Marco Antonio Rossi8:33 AM

    MEU ACARO AMIGO.
    E O COZINHEIRO(S) QUE ELABOROU(RARAM) UM CARDÁPIO PARA UM MONTE DE BICOS, SERÁ QUE FOI ALPISTE COM MOLHO?
    E QUEM LAVOU OS PRATOS DA FESTA, ACHO QUE STÃO COM CALOS NAS MÃOS....
    MAS FOI UMA BELA FESTA PARA O POVO, QUE APESAR DE TODOS OS SISTEMAS POLÍTICOS, AINDA ADORA UMA MONARQUIA.....
    UM GRANDE ABRAÇO E PARABÉNS PELA CRÔNICA ATUALÍSSIMA....
    ROSSI

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  4. Katia Pizarro9:51 AM

    Adorei!!!!

    Fiquei imaginando a cara de “what’s happening?”da monarquia toda, ahahaha!!!!



    Obrigada!





    Bjs





    Katia

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  5. Eu não sei o que aconteceu, mas acho que o meu convite foi levado pelo vento. Nós damos um duro danado no dia a dia , tentando encontrar um espaço entre o tempo e o lar para somarmos as despesas, não recebemos sequer uma visita que nos pergunte do que estamos precisando.Também... pra isso ninguém vem mesmo! kkk Talvez porque somos casados. Bem feito pra nós! Bem feito o seu texto.

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  6. Olá Marcelo!Espero que esse príncipe não vire sapo e a princesa, uma gata borralheira!Ah! Se todos os casórios e relacionamentos fossem alicerçados por tamanha pompa e poderio financeiro! Muitos obstáculos seriam removidos!E, os súditos... se contentam com as migalhas!! Quanta pobreza e subserviência!!Que conto de fada mais mixuruca!!O que valeu foram as cambalhotas do religioso no tapete vermelho: um anarquista X monarquista!! Abraço, Célia.

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  7. Você, meu caro amigo, é que é mais insidioso que todos os tablóides ingleses juntos. Muito bom, muito engraçado, aliás, um humor bem melhor que o estranho humor britânico. Traduza a lavra e envie ao The Sun e ao Daily Mirror. Os súditos vão ficar mais vermelhos do que já são...

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  8. Zezinha1:33 PM

    Olá, Marcelo!
    Estou morrendo de rir aqui do outro lado da telinha, numa cidadezinha do interior de Pernambuco, beeeeeeeemmmmmmmmm longe de Londres, mas como é que a mídia não registrou esses momentos fantásticos do casamento irreal? Se não fosse você, Marcelo, jamais saberíamos dos acontecimentos mais importantes deste evento histórico.
    Vou lhe dizer algo muito importante: se você (Marcelo escritor) não existisse teria que ser inventado por um outro escritor tão bom quanto você.
    Beijos!!

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  9. Evelyne Furtado1:34 PM

    Adoro casamentos. Não vi o real, mas dei risadas com o “irreal”. A vida de verdade está presente em seu texto com strass e lantejoulas em roupas de baixo, com crise de ansiedade no músico e no príncipe calvo.A propósito vi na tv um sacristão virando estrelinha nos fundos da abadia. Adorei ler seu texto, Marcelo! Beijos e bom fim de semana.

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  10. Miriam Sales1:34 PM

    Passar aqui é indispensável.Melhor já ir preparando o sorriso.
    Esses fatos e sua versão ficarm hilários.
    Abç

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  11. Claudete Amaral Bueno4:00 PM

    Marcelo:
    Sua imaginação é impagável!!!!!!!!! Pobre realeza!!!!! Assim, vc mata a rainha-avó do coração!!!!!!!!

    Claudete

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  12. Clotilde Fascioni4:01 PM

    Não duvido de nada disso, por mais sem noção que possa parecer, nos bastidores da grande festa. Vinte e quatro horas, durante meses, cronometrando absolutamente tudo, para nada sair errado e muito menos fora do tempo pre estabelecido só podia dar nisso: stress total. Quem não viu aquele cavalo que simplesmente “arrenegou-se” como se diz por aqui e saiu da parada trotando feito louco, provavelmente relinxando um
    - “pra mim chega!!!!”- E o sacerdote fazendo cambalhotas pelo tapete vermelho em total delírio? E a pequena dama emburradíssima? Imagine o que não foi mostrado?
    Muito bom Marcelo, dei boas risadas.♥

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  13. Doze semanas após o casamento, Lady K pede o divórcio porque o marido tem chulé e é um cara muito aéreo quando o assunto são "seus problemas".E o mundo fica com aquela cara de WTF?

    hahaha, adorei o texto!

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  14. Tereza Abranches12:06 AM

    Muuito bom o texto!!
    Abraços!

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  15. Gina Soares12:08 AM

    Nem tudo é como parece… nem tudo dá para ser previsto…
    Muito bom, Marcelo!! Mais uma vez, parabéns, meu amigo.
    bjss

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  16. Jorge Sader Filho12:09 AM

    Não está acontecendo nada!
    Apenas os ingleses ‘durango kids’ promoveram uma baita festa.
    Esta festa foi cara, mas ótimo investimento. Faturaram o triplo dos gastos com o pagamento das transmissões, fotos, etc, etc e etc.
    ‘Tendeu?

    Abraço, Marcelo.
    Jorge

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  17. Cristina Siqueira10:54 AM

    Adorei o tom .Hilário,me enchi de risos.Afrouxei.
    Muito bom mesmo.-Como é difícil escrever com o humor e que mestria você tem.
    Texto imagético…estive nesta festa irreal e me diverti muito.

    beijos,

    Cris

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  18. Meu deus do céu, só conhecia uma pessoa capaz de detonar com poucas palavras: minha mãe. Agora vejo que você é como ela. No dia do meu casamento, ela me fez ficar rindo no altar porque falou que o padre parecia estar usando calçolas por baixo da batina apertada. Mas, mesmo com cavalo marrom, calcinha amarela com direito a show de Monroe, eles ainda vivem o sonho irreal... Resta saber se vai acabar como a lady...
    Adorei o texto, acabou com a perfeição britânica!
    Beijo.

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  19. Grande Marcelo!
    Complentando toda essa ilariante "tragédia" (kkk), depois de ver em tudo que é mídia as cenas daquele rapazinho de batina preta virar estrelinhas após a cerimônia, a realeza se entreolha com cara de “what is happening?”.
    Forte abraço!!!
    Ah, esse vai pro www.daversonweb.blogspot.com

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  20. José Carlos Carneiro4:49 AM

    O mundo vergou-se ante o estrépito de um dos maiores festivais de frescuras dos tempos modernos. Mas você deu outros contornos ao evento, criando um cenário condizente com tamanhos fricotes. Bem, mas os ingleses, além de exemplos de pontualidade, vibram com tais perfumarias. E não é para menos: eles cultuam God save the Queen (será que escrevi certo?). E isso deve provocar orgasmos múltiplos no império todo, e não apenas por lá.

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  21. Nelson Marchetti8:26 AM

    ótimo!!! rs....

    abração e boa semana!

    Nelson Alexandre C. Marchetti

    Mobile: 55 11 8696-0904

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  22. Tony Marques4:47 PM

    Gostei muito de seu texto (maravilhoso!) Agora, a descrição dos trajes que guarneciam as partes baixas do sacerdote com riqueza de detalhes, foi algo fenomenal… Pelo visto, a lei de murphy se preparou para esse evento irreal, tanto quanto os pombinhos.

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  23. Quando tudo tem de acontecer exatamente como o previsto, num ritual além do perfeito, só pode dar tudo errado. Aconteceu o improvável, um roteirista brasileiro tratou de avacalhar o matrimônio, que, aí sim, tornou-se real.

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  24. Anônimo10:40 AM

    Parabéns, Marcelo! Inteligente como sempre.

    Fernando Dezena

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  25. Muito bom, Blog interessante!

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  26. Oi :) Faz um favor? Vota na @quarterock no Multishow? Tá explicado direitinho aqui http://migre.me/4sgz4 *-* bjs :*
    Mari
    @QuarterST

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  27. Marcelo!

    Seu olhar de lince, não perdeu nem um pontinho a mais ou à menos.

    Cantebury foi uma construção que rendeu um belo livro, esse vento não deveria estar no programa.

    Tenho horror à casamentos, com sabor de chocolate e conto de fadas.

    Valeu a reportagem!

    Beijos

    Mirze

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  28. Nubia2:08 AM

    Diante de um texto tão divertido já
    não me sinto um ET por ter sido uma
    das poucas pessoas a não ter dado a menor
    pelota para o enlace real.
    Parabéns Marcelo.

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  29. Marcelo, você cobriu muito bem esse casamento real. Gente, estou aqui às gargalhadas.Esses ingless pagam micos e micos e depois falam dos brasileiros de primeiro mundo.:) Você viu os convidados tirando fotos dos guardas reais??? Fiquei imaginando os daqui fotografando os PMs. Que perigo!!!

    Um beijo e muitos parabéns!!!

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  30. Jota Efe Esse12:38 AM

    Marcelo, eu também escrevi sobre o casamento em pauta. E acho que assim como na música “Rasguei a minha fantasia”, onde se nota “o pranto é livre e eu vou desabafar”, aqui se pode dizer o teclado é livre e eu vou espinafrar. Meu abraço.

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  31. Patrícia12:44 AM

    Ahahahah
    Se tivesse sido assim, bem que queria ter visto!
    abçs

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