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ROCKABILLY

ILUSTRAÇÃO: THIAGO CAYRES




Vou te ver de Lambretta, aconteça o que acontecer a este esquisito que chamam de Marco Antônio. É, de Lambretta! Sábado agora, pode esperar, na mesma bat-hora este repetente mascador de chiclete aparece com a mesma bat-jaqueta. Fiquei com aquela branca e azul piscina, igual a que te mostrei anteontem na rua. Brilhando como está, de longe você reconhece quando estiver estacionada na sorveteria da praça. Melhor assim, Diana, território neutro. Meio caminho entre minha casa e a sua, pra evitar diz-que-diz-que se virem a gente em algum canto mais afastado. Depois sim, de Lambretta, aí a gente se embrenha onde o desejo mandar e a cidade não veja. Mas relax, eu vou saber esperar seu tempo, cheirosinha, vai acontecer e vai ser bom e gostoso como andar de Lambretta nova. E ela vai ter o seu nome, vou decalcar um “Diana” em letra manuscrita na carenagem do lado esquerdo, onde fica o coração, olha só que romântico. Dianinha, a filha do delegado, comigo. Minha, escoltada pra baixo e pra cima pelo maluco aqui. Bacana isso. É pra que todo mundo saiba que tem dono, essa Diana deusa da caça, linda de tranças. Estou com o exame médico vencido, se não ia te ver no clube antes de sábado. Mas tudo bem, enquanto isso amacio pra você a minha, quer dizer, a nossa Lambretta. Manera com esse biquíni, não sou só eu que gosto dele. Usa aquele maiô preto quando não estiver comigo e tem dó de mim tendo que escutar essa seleção de marchinhas dos tempos de nem sei quando que o vô põe na radiovitrola. É só vir chegando o carnaval que começa esse suplício, estourando os falantes. De Lambretta vai ser diferente, vamos juntos ouvir a melhor música do mundo, a do vento zoando no ouvido. Em jukebox nenhuma tem um hit como esse. Você agarrada na minha cintura e eu acelerando até o talo quando a gente passar pelo convento, acordando as pobres das freiras na terça gorda, a caminho do mato. E as ovelhas desgarradas de Nosso Senhor na esfregação e na cheiração de lança, aproveitando o aval da carne enquanto a quaresma não vem. Não vão conseguir pegar a gente, nem chamando a viatura da rádio patrulha. Eles trabalham na quarta de cinzas, depois do meio dia. Eles não sabem do vento no rosto. Eles não têm Lambretta, baby.




© Direitos Reservados

Comentários

  1. Sensacional "remember" Marcelo!Lendo,sorrindo e desenterrando "memories"... Éramos felizes e sabíamos... Não tinha "Lambretta"... mas queria um "karmann ghia" pra desfilar na Rua Augusta!! Sonho de consumo... Década de 60... tudo de bom... Abraço e obrigada pela "garupa" na lambreta!! Célia.

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  2. Bom dia, Marcelo.
    Seus textos me fazem viajar e, como todo bom texto, experimentar outros lugares, outros tempos.
    Muito bacana o texto.
    bom fim de semana!

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  3. Ai, Marcelo...até que me deu vontade de andar de lambreta e ver escrito nela uma homenagem a mim, do tipo "bela viajante". (: Bj

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  4. Claudete Amaral1:27 PM

    É....a Diana deve ter gostado muito.........já o delegado......nem tanto! Parabéns!!!!!!

    Claudete

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  5. Marcelo!

    Excelente texto como todos os seus.

    O leitor sente o ritmo do humor.

    Lambretta!!!

    Ainda existe isso? Parece que nos anos 60 já estavam no fim. Mas o bom mesmo é a expectativa do encontro. A emoção de carregar na garupa a filha do delegado, com direito à decalcagem e tudo mais.

    Essa é a parte boa de qualquer programa, viagem, seja lá o que for, A imaginação voa e sentimos antecipadamente o que o cérebro vai comandar. Planejado nos mínimos detalhes, eu amo aventuras, de preferência inusitadas, e sempre tudo acaba bem. Afinal, precisamos ter o que lembrar depois,

    MUITO BOM!

    Beijos, amigo!

    Mirze

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  6. Risomar Fassanaro1:04 AM

    Que texto gostoso de ler. Adorei!
    Grata, Marcelo
    Beijos
    Riso

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  7. Clotilde Fascioni2:08 AM

    Que figura esse ai, em Marcelo? Muito legal.

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  8. Evelyne Furtado2:08 AM

    Adorável, esse passeio de lambreta com vento cantando no ouvido. Uma geração mais inocente, talvez. Promessas cumpridas, talvez. Um texto excelente, com certeza! Bjs e parabéns, Marcelo!

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  9. Jorge Cortás Sader Filho2:09 AM

    Lambreta, cabeçote rebaixado, um copo de gasolina de aviação, óleo de rícino, hospital, a viagem é assim, o Marcelo não contou… Sempre termina assim.
    Às vezes fico pensando se não houvesse gente assim, como o autor bem-humorado.
    O mundo seria uma chatura.

    Abraço,
    Jorge

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  10. Já sentei na garupa logo na primeira linha. O meu rosto já está todo congelado, meus cabelos esvoaçados de tanto me deixar voar com a sua Lambretta. E dessa forma, depois da quarta de cinzas, nem o diabo aguenta.
    Abração, moço inteligente!

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  11. Gina Soares10:29 AM

    Nossa!! Voltei no tempo!!
    Fiquei imaginando a Diana de vestido rodado, sentada na garupa da Lambretta, abraçada na cintura… E o rock tocando… rss
    Muito bom!
    Bjsss amigo

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  12. Marcelo, o adorável texto com lastro 60/70 me fez lembrar de uma alcunha muito usada nessa época para certa peça de vestuário. JAPONA.

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  13. "Oh, please stay by me, Diana"...
    No mais romântico clima dos anos 60... Estas lambretas eu ainda pude conhecer, embora velhas, quando meu tio exibia a do meu avô. Japonas de boys, cabelo com gomalina ou trim, calças ustop dobradas na barra... E quando eu tiver dimdim, vou ter uma jukebox só pra mim! Adorei ! Beijo.

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  14. Zezinha2:51 PM

    Que viagem, Marcelo!!!! Eu era criança e meu pai tinha uma lambretta dessas, eu adorava passear com ele.
    Não tive o privilégio de sair pra namorar na garupa de uma, porque por motivos de força maior que a minha vontade, praticamente não vivi minha adolescência, sinto falta e saudade das coisas que não vivi…
    Mas chega de melancolia, prefiro pensar na alegria de sentir o vento batendo no rosto, bem acompanhada numa linda lambretta, igualzinha e esta da ilustração, de cor… Vermelha ou preta, quem sabe…

    Amei, Marcelo!!!
    Beijos!!!

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  15. Leslie Taboas4:56 AM

    Aproveitei para ler Sabotagem!!!



    Rockabilly achei legal, mas Sabotagem, trás um assunto que nunca entendi. Porque as pessoas tem prazer em estragar as coisas que produzem!?!?

    Que graça tem, colocar alguma coisa, que a pessoa que vai consumir nem desconfia que foi colocado, e nem sequer sabe quem foi que fabricou??? E quem fabricou nem desconfia quem vai consumir, ou se vai ser consumido!!!!



    Abçs.

    Leslie

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  16. Que show, Marcelo. Li numa velocidade...:) Memories and memories, muito legal! Lembrei de um Karmann Ghia vermelho que tive nos anos 70 e do tempo que lecionava em Campo Grande, um bairro da Zona Oeste da cidade do RJ. Naquela época não existiam Wellingtons nem o bullying. Que tempo bom!!! Esse sei que não volta mesmo.
    Parabéns, excelente!

    Beijossss

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  17. Marco Antonio Rossi9:48 AM

    VALEU XARÁ(MARCO ANTONIO) EU VOU PRO MESMO LADO SÓ QUE DE DKW E COM A IARA(DEUSA DO MAR)....SE DER A GNTE AINDA SE VÊ E TOMAMOS UM SORVETE NA PRACINHA DO CORETO.
    ABRAÇO
    ROSSI

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  18. Cristina Siqueira1:55 AM

    Oi Marcelo,

    Adorei seu splash de brilhantina. Hilário para usar uma expressão de época.
    O tom,vc captou o tom.Ouvi o suspiro da Diana daqui.
    Até mais,

    Cris

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  19. Tony Marques1:55 AM

    Marcelo,

    Plagiando uma música que não me lembro o nome: “Velhos tempos, belos dias”.

    Um forte abraço!

    Tony Marques

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  20. Lúcia2:11 AM

    Oi,Em que ano nasceu esse Billy? Muito bom!

    Abraços,Lúcia

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  21. Dade Amorim2:12 AM

    Muito bom ler teus textos, Marcelo. A gente ja´ fica à espera do próximo.

    Abraço grande.

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  22. Marco Bastos2:13 AM

    legal, muito legal, levar a lambisgóia doçurinha com os bobs na cabeça, na garupa da ximbica. rs.

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  23. José Carlos Carneiro2:17 PM

    De uma motoca como pano de fundo produzir tal enredo é "dupiru" de criativo. A alusão às freiras, então, é mui sui generis. Valeu, Marcelo.

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  24. Viviane8:20 AM

    Marcelo Que delícia esse texto…
    Consegui “viver” um período que não foi o meu!!!
    Dá pra sentir até saudade rs.

    Muito bom!! Adorei
    Parabéns pelo texto e Parabéns Thiago Cayres pela Ilustração, muito fiel!!!



    Beijos*

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  25. José Claudio - Cacá2:28 PM

    Cabelos ao vento e a gata enroscada na cintura. Eita tempo bom! Maravilha, Marcelo. Abração. paz e bem.

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  26. Anônimo6:20 PM

    Sempre um show de letras!

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  27. Anônimo6:21 PM

    Sempre um show de letras
    Belvedere

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