Pular para o conteúdo principal

BROTHERS



- Não há mais nada a ser feito. Já tentamos todos os recursos imagináveis. Esgotamos as possibilidades de um acordo amigável e na forma da lei. Eu estou jogando a toalha, sinceramente. Minha última esperança era aquele suposto álibi, que já não vale mais nada. Investiguei e descobri que o cara está na Espanha, o porteiro não viu entrar ninguém estranho no seu prédio aquela noite e numa improvável acareação vai ficar a sua palavra contra a dele.
- Você não pode desistir agora, nem a pau que você vai me deixar na mão. Não nessa altura do campeonato. Eu te conheço melhor que você mesmo, e sei que não pegaria a causa se não tivesse certeza de ganhar de cara, em primeira instância. Se o problema for dinheiro, vamos resolver isso agora. Diga quanto a mais.
- Se me conhecesse mesmo, saberia como me ofende falando isso. Como disse, quero equacionar tudo como manda o figurino. E isso inclui o meu modus operandi nessa pendenga. Aliás, é bom deixar claro que eu só me meti nesse embrulho pela nossa amizade.
- Bom, já vi que o buraco é mais embaixo. Sei da sua retidão de caráter, isso é inquestionável.
- E insubornável.
- Claro, principalmente insubornável. Você teve a quem puxar, seu velho era o maior ficha limpa da Via Láctea.
- Pois então. Ontem mesmo antes de pegar no sono eu estava lendo o salmo 91 e pude escutar papai ao meu lado, me aconselhando a abandonar a coisa de imediato, no pé em que está. Ficamos assim, eu te devolvo o adiantamento do serviço, a amizade continua a mesma e vamos fazer de conta que não aconteceu nada. Nada.
- Eu até aceitaria se soubesse que alguém mais nesse mundo poderia me defender nessa história. Só que esse cara não existe, tem que ser você e todo homem tem seu preço, meu velho. Ainda que esse preço não seja em dinheiro.
- Tá querendo dizer o que com isso, exatamente?
- Que o seu preço tá lá no seu passado, e ninguém é ou foi Madre Teresa 24 horas por dia. Tá me entendendo ou quer que eu desenhe?
- Espera aí, nem me passa pela cabeça que você se atreva a mexer nisso.
- Pois é, nem eu me animo muito a revirar essa sujeirada toda que você varreu pra debaixo do tapete. Mas, se não tiver outro jeito...
- O que passou, passou. E eu tenho certeza de que não deixei rasto nenhum, por isso pode ir descartando a possibilidade de chantagem. E tem outra: eu mudei, o mundo deu muita volta e mesmo que você levantasse agora esse delito ele já pres...
- Não prescreveu, não. O que eu tenho na manga faz reabrir o caso, tranquilamente, mesmo com tantos carnavais passados. Aliás, o episódio rolou no carnaval, lembra? Que ano foi, 82, 83? Mas enfim, é toma lá, dá cá. Uma mão lava a outra, meu irmão. Meu irmãozinho de sangue. Sim, porque não é só dessa história antiga que eu estou falando. O seu velho não era tão ficha limpa assim, brother.
- Não envolve o coitado do meu pai nessa merda!
- Então lá vai, na bucha: a gente é irmão, meu camarada.
- Ah, tá bom... a sua mãe com o meu pai?
- O nosso pai com a minha mãe.
- Brincou.
- É, eu sei que é muito pra um dia só. Vai pra casa e dá uma revirada nas suas fotos, descubra semelhanças, deixa caírem as fichas todas. Calmamente, eu não tenho pressa. Se preferir ficar por aqui, pode ir lá no meu quarto e abra a terceira gaveta da cômoda. Meu irmãozinho vai rever algumas das suas roupas velhas, que o seu santo papai dizia que ia doar pro orfanato. Bom, tô de saída. Mais tarde conversamos. Tem uísque no barzinho e gelo no freezer.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Discutir paternidade e/ou maternidade... hoje... realmente só voltando à década de 80... Nada mais é importante na árvore genealógica (antigo isso, hein?!)Talvez terá sua importância na partilha de bens e não dos gens!! E, viva a mistureba!! É vida que se propaga! Mas, MArcelo saiba que em muitas mentes você aguçou curiosidade da origem! Abração da Célia.

    ResponderExcluir
  2. Francine10:18 AM

    Marcelo, como sempre,muito bom o texto!
    Caramba, que diálogo foi esse?! envolvente, faz a gente ficar curioso pela próxima fala! parabéns!

    ótimo fim de semana pro c,

    Francine

    ResponderExcluir
  3. Zezinha Souza10:19 AM

    Mais brothers do que estes, impossível.. Cada um com sua cara limpa e suas costas sujas, e assim vai. Retrato da realidade.
    Muito bom, como sempre
    Bjos!

    ResponderExcluir
  4. Marcelo!

    Ainda bem que você só falou de um “brother”. É muito característico no irmão, saber os “podres” do outro e ficar calado durante anos, aguardando a oportunidade certa, para deixar cair a guilhotina.

    E quem nesse mundo não tem algo que acha que está escondido, e não está? Os que se fazem de santos são os piores.

    Você conseguiu pescar com todos os elementos. O personagem inicial, que estava na pior, foi cercando a “caça” até dar o bote fatal.

    Muito expressivo e atual esse texto!

    Bravíssimo!

    Beijos

    ResponderExcluir
  5. Antônio Calazans11:36 AM

    Grande, Marcelo!
    Falando em irmão, enviarei a você um belo -mail.
    Abraços,
    Calazans - permaneço acompanhando o seu trabalho, parabéns !!!

    ResponderExcluir
  6. Marco Antonio Rossi11:53 AM

    MEU CARO AMIGO, MUITAS VEZES NESSA VIDA, NÓS IDENTIFICAMOS NOSSOS IRMÃOS EM ALMA E AÍ NÃO PRECISA DE PAI NEM MÃE, TUDO POR UMA FAMÍLIA CRIADA PELA VIDA.
    UM GRANDE ABRAÇO E UM ÓTIMO FIM DE SEMANA.
    ROSSI

    ResponderExcluir
  7. Clotilde Fascioni11:54 AM

    Aff… “Quem sai aos seus, não degenera”, ja diz o velho ditado, não é mesmo? Abrçs Marcelo

    ResponderExcluir
  8. Rapá, sua pena talentosa enveredando por enredos folhetinescos, no melhor sentido Televisa mexicana do termo... sua navegação em múltiplas águas é algo pra ser estudado mais detidamente pela academia.

    ResponderExcluir
  9. Mas que coisa....!!!!!!!
    Pensei que fosse continuar e achar ali os meus irmãos!!!
    São gêmeos os brothers da parada?????
    Tenho certeza que são, moram juntos desde que foram gerados e apenas um sabia a verdade. Veja só! Nem os gêmeos são iguais.

    Ô 'seo' moço inteligente, quer parar de mexer com a minha imaginação ?

    Quer saber, vou ler novamente. Vai que um é peixe, o outro aquariano.

    Ou será que os dois estão um de cada lado da balança? Áries? sei não!
    Hum... Um touro, outro capricorno?

    Talvez leão e outro virgem? Cruz credo!

    Quem sabe um é sagitário e ou outro escorpião, nãããããoooo!

    Escorpião não!!! Escorbeta - Achei o fio da tua história.

    Um é o filho do inventor do prendedor de roupas do seu texto anterior!!!!!!!
    Foi por isso que ele inventou o tal prendedor, para ele viver pendurado! Mas que cara danado!
    Tem mais filho desse homem pendurado por ai.

    Cara, você é um gênio, meu!

    Viva os prendedores.

    ResponderExcluir
  10. Digo, os dois são filhos do prendedor de roupas, não do Escorbeta.

    ResponderExcluir
  11. Jorge Cortás Sader Filho1:07 AM

    É isso aí… a podridão está no ar…. já vimos isso acontecer inúmeras vezes…
    Muito bom, Marcelo…
    Abs, amigo!

    ResponderExcluir
  12. Gina Soares1:07 AM

    É isso aí… a podridão está no ar…. já vimos isso acontecer inúmeras vezes…
    Muito bom, Marcelo…
    Abs, amigo!

    ResponderExcluir
  13. José Carlos Carneiro6:26 AM

    Fez jus ao que se autoatribui: um show de non sense levado ao extremo. A comparação usada quando menciona "galáxia" é supimpa de boa.

    ResponderExcluir
  14. Sandra Nogueira11:39 AM

    amigo Marcelo, isso é muito real, mas você nos coloca sua ficção, uma brincadeira, um jogo para nos despertar da mesmice. Você é cobra!
    beijão

    ResponderExcluir
  15. Evelyne Furtado3:54 PM

    Desfecho surpreendente, Marcelo. O diálogo ágil revela um sistema corrompido e desanimador. Ótima crítica com o humor e o talento de sempre. Parabéns e boa semana, amigo. Beijos

    ResponderExcluir
  16. Algumas surpresas da vida... O texto prende e surpreende. Quando menos se espera, a vida pode dar uma guinada de 360º! Beijo.

    ResponderExcluir
  17. Cacá1:24 AM

    Eu fiz uma descoberta de família (e por acaso) apenas aos 16 anos que me abalou profundamente. Tem uns segredos que se não tiverem a garantia de inviolabilidade, é melhor não tentar mantê-los sob pena de um estrago irreparável em reputações e sanidades psícológicas. Maravilha a crônica, Marcelo. meu abraço e ótima semana. Paz e bem.

    ResponderExcluir
  18. Bom de ler...que raça...ai o mais manso morde.

    Até mais,


    Cris

    ResponderExcluir
  19. Clauduarte Sá4:25 PM

    PARABENS MEU AMIGO, MARCELO,
    Eu nao estou a par do assunto. Nao sei da noticia ao redor. Mas a sua cronica e fantastica. E visual. Parece um epsodio de um filme.
    Parabens,
    Um grande abraco, sucesso

    ResponderExcluir
  20. Mara Narciso8:12 AM

    Irmão mais irmão do que se imaginava. Um diálogo cheio de segundas intenções.

    ResponderExcluir
  21. Marcelo, não sei o porquê de ler esse seu texto e surgir à minha frente cenas tão recentes na via láctea. :) Adorei!!!
    Um beijo, web-amigo talentoso.

    ResponderExcluir
  22. Claudete Amaral Bueno4:29 AM

    N/ respondi antes, pois estava visitando a s/ terrinha.......
    Quanta sujeira embaixo do tapete, hein????????????????
    Vc tem mta imaginação! Parabéns, como sempre!!!!!!
    Abraço!

    Claudete

    ResponderExcluir
  23. Não brinca! Somos irmãos, então...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…